Diplo conta por que se apaixonou pelo funk carioca: ‘É o punk do gueto, uma coisa caótica e linda’


Produtor de Justin Bieber, Dua Lipa e Madonna conheceu funk do Rio em 2003 e colaborou com Deize Tigrona, Anitta, Pabllo Vittar e Atoxxá: ‘Música do Brasil tem zero regras, amo isso’. Diplo
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Diplo ainda não tinha produzido Madonna, Justin Bieber e Dua Lipa em 2003, quando veio ao Rio de Janeiro conhecer Deize Tigrona, MC Colibri e Mr. Catra. Antes dos três Grammys, veio a paixão pelo funk carioca.
“Para mim, era a mistura perfeita de Miami bass e punk rock. Era como o punk rock do gueto. E era sexy ao mesmo tempo”, lembra ao G1 o DJ americano de 42 anos.
Hoje ele circula no primeiro time do pop global, mas continua sendo um divulgador entusiasta da música brasileira, ávido por novidades – faz perguntas do tipo “O que é a ‘Trip do boyzinho’?” e anota num papel quando ouve falar sobre pisadinha.
O amor à primeira vista de Thomas Wesley Pentz pelo batidão brasileiro foi registrado em 2003 para o documentário “Favela on blast”, sobre a cena de bailes do Rio. Ele nasceu no Mississippi, mas cresceu na Flórida, berço do Miami bass, subgênero do rap que influenciou o funk daqui.
Tanto Diplo quanto o funk brasileiro cresceram muito nos 14 anos seguintes. Ele fundou em 2006 a gravadora independente Mad Decent, que virou queridinha no circuito independente – e levou junto o grupo curitibano de funk zoeira Bonde do Rolê.
Antes de gravar Justin Bieber, Diplo grava o MC Colibri, uma das estrelas do documentário ‘Favela on blast’, que ele fez em 2003 no Rio
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Entre os vários retornos de Diplo ao Brasil – algumas hospedado na casa de Regina Casé -, ele trouxe a então namorada M.I.A., cujo single “Buckey done gun” era baseado em “Injeção”, de Deize Tigrona.
Depois de Deize, veio Anitta. Com seu grupo Major Lazer, Diplo trabalhou com ela em faixas como “Make it hot”, “Rave de favela” (também com MC Lan) e “Sua cara” (também com Pabllo Vittar, que ganhou um beijo na boca do DJ no clipe de outra faixa, “Então vai”.).
“Música não precisa ser sempre uma coisa doce e especial. Pode ser uma coisa fod*da. É uma questão de energia mesmo”, ele diz sobre Anitta e Pabllo.
Diplo, Anitta e Walshy Fire
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O fã do funk brasileiro levou um funkeiro paulista pela primeira vez ao palco do Lollapalooza de São Paulo. Com seu duo Jack Ü, botou MC Bin Laden para brilhar tranquilo e favorável no festival em 2016.
Diplo conversou com o G1 para falar de outro duo, o Silk City, com o produtor Mark Ronson. O projeto de house music não tem a ver com o Brasil. Mas parte da conversa foi sobre o amor funkeiro do DJ. Leia abaixo:
G1 – Diplo, não sei se você tem noção de como o funk do Brasil é mal visto por parte das pessoas aqui. Há projetos até para criminalizar formalmente o ritmo. O que você viu no funk que nem alguns brasileiros viram?
Diplo – Eu não falo português muito bem, mas sei que o funk carioca tem umas letras muito sujas, muito doidas. Então, como estrangeiro, quando fui para o Brasil eu podia só ser uma testemunha das festas, das pessoas, dos lugares. E eu me apaixonei.
É uma coisa tão caótica e linda. Para mim, era a mistura perfeita de Miami bass e punk rock. Era como o punk rock do gueto. E era sexy ao mesmo tempo.
Não é igual a nada que eu tinha ouvido antes. Eu só disse: ‘Uau, isso é surreal’.
MC Bin Laden canta ‘Tá tranquilo, tá favorável’ durante o show do Jack Ü (Diplo e Skrillex) no Lollapalooza
Flavio Moraes/G1
Isso foi 15 anos atrás, com Mr. Catra, DJ Marlboro. Eu estava trabalhando com o Bonde do Rolê, que eram uns garotos do gueto (sic) de Curitiba. E aí foi doido. A gente saiu do Brasil e foi fazer funk na Europa.
Tinha o Daniel Haaksman na Alemanha. Ficou grande. E voltamos com a M.I.A. com “Buckey done gone”. Foi divertido. Tinha um funk “Book is on the table” que tocava muito em São Paulo, mas acho que não tinha muito lá.
G1 – E depois disso?
Aí acho que a Anitta foi a primeira pessoa que pegou e falou: ‘eu posso fazer pop e fazer funk, ser sexy, ser uma mulher’. A Pabllo também, ‘eu posso ser uma mulher, ser sexy, e ser divertida’.
Música não precisa ser sempre uma coisa doce e especial. Pode ser uma coisa fod*da. É uma questão de energia mesmo. É uma experiência, é cultura e é um sentimento.
Anitta, Diplo e Pabllo Vittar em cena do clipe ‘Sua cara’
Reprodução/YouTuber/majorlazer
Nos últimos dez anos eu vi o funk crescer tanto no Brasil. Tem funk em Belém, funk em São Paulo, funk em Porto Alegre, funk em todo lugar. Era só no Rio quando eu fui pela primeira vez, há 20 anos.
G1 – Mas e sobre a reação negativa de parte dos brasileiros ao funk?
Diplo – Não dá para banir a música. É idiota e é impossível. A gente tentou fazer isso nos EUA com o 2 Live Crew vinte anos atrás e eles explodiram, viraram primeiro lugar. [O grupo de Miami bass foi o primeiro a ganhar o clássico selo de “aviso aos pais” por conteúdo obsceno em um álbum, em 1990, e foi processado por causa das letras, mas ganhou a causa fundamental para a liberdade de expressão do rap nos EUA.]
Então tentem (proibir o funk) para ver. Vai ser louco. Não vai dar pra fazer isso, vai explodir na cara de quem tentar. Música é música. Quando as pessoas gostam, elas gostam. Não dá pra controlar isso com regras ou com a lei.
Pabllo Vittar e Diplo se baijam no clipe de ‘Então vai’
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G1 – Como é que você se mantém atualizado sobre música brasileira? Quais são suas fontes?
Diplo – A Anitta me mantém atualizado. Também a Marina Morena, uma das empresárias dela (filha de criação de Gilberto Gil). E todos os caras do funk me mandam tudo. Têm os Tropkillaz. Os produtores são tão progressistas. O Atoxxá, o pagode, é tão doido o que eles fazem.
Eu penso: ‘O que tem de errado com essas pessoas? Elas são piradas’. Então eu sempre checo o que tem de mais viral, e não entendo nada. (risos)
A cada dia estão mais pirados. Tem esse Boyzinho, ‘Trip do boyzinho’. O que é isso, o que é essa música?
G1 – Que coincidência, eu falei com o Boyzinho hoje. Ele é lá da Bahia, mas se mudou agora para São Paulo para produzir com caras do funk. O som dele se chama bregadeira.
Diplo – Toda semana é uma coisa nova, eles continuam misturando gêneros. A música aí desses caras no Brasil tem zero regras, e eu amo isso. É um caos total na criação, eu adoro.
G1 – Você já ouviu pisadinha?
Diplo – Não, preciso ir atrás.
Anitta com dançarinos e os DJs do Major Lazer (Diplo em Walshy Fire) durante gravação do clipe de ‘Make it hot’, em Limón, na Costa Rica
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