Alcione reforça com álbum ‘Tijolo por tijolo’ a construção de obra alicerçada pelo gosto popular


Capa do álbum ‘Tijolo por tijolo’, de Alcione
Marcos Hermes
Resenha de álbum
Título: Tijolo por tijolo
Artista: Alcione
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * 1/2
♪ Em 2013, os seguidores mais antigos de Alcione se surpreenderam com a alta qualidade do álbum de músicas inéditas Eterna alegria, apresentado pela artista naquele ano com repertório apaixonante. O disco Eterna alegria se impôs como um dos títulos mais coesos da carreira fonográfica iniciada em 1972 por essa grande cantora maranhense que veio para a cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 1968.
Sete anos depois, o álbum Tijolo por tijolo – lançado em edição digital e em CD na sexta-feira, 29 de maio – frustra expectativas de quem esperava disco de músicas inéditas à altura de Eterna alegria. Há bons momentos entre as 14 faixas, mas, no todo, o disco soa irregular porque arranjos e repertório nem sempre estão à altura do vozeirão grave de Marrom.
Primeiro single do álbum, Fascínio (Toninho Geraes e Paulinho Rezende) já sinalizara em março a danosa aproximação da estética do samba rotulado como pagode romântico e caracterizado pelo uso abundante de teclados, proeminentes no arranjo de Wilson Prateado.
Essa estética empanou o brilho de Fascínio – samba em si até fluente, sobretudo no refrão – e reverberou em abril no segundo single, Alto conceito (Fred Camacho e Leandro Fab), samba também enquadrado na moldura do pagode romântico e em cuja letra Alcione reassume o papel da mulher submissa aos caprichos do geralmente desatento homem amado.
Alcione homenageia Pelé no samba ‘O homem de Três Corações’, de Altay Veloso e Paulo César Feital
Marcos Hermes / Divulgação
Bom samba que dá nome ao disco, Tijolo por tijolo (Serginho Meriti e Claudemir) também saiu antes em single e corroborou a opção estética do álbum, gravado com produção musical de Alexandre Menezes, diretor musical da Banda do Sol – grupo que há décadas acompanha Alcione em shows – e arquiteto da face sonora deste disco formatado em estúdio com arranjos de Jorge Cardoso, Jota Moraes, Wilson Prateado, Zé Américo Bastos e do próprio Alexandre Menezes.
Selecionado por Alcione, o repertório de Tijolo por tijolo oscila sem perder a pegada popular da cantora. Há sambas que fluem bem, caso de Meu universo (Zeppa e Jorge Vercillo), e há outros que batem na trave.
Prejudicado por coro dispensável, O homem de Três Corações celebra Pelé – no ano do 80ª aniversário do imortal jogador de futebol – com letra poética de Paulo César Feital, mas o samba, de título alusivo à cidade mineira onde o craque nasceu em outubro de 1940, rola sem ginga e fica aquém da produção autoral do compositor Altay Veloso, autor da melodia. O gol quase vem ao fim da faixa com a batucada que simula a euforia de partida de futebol.
Em barco que navega malandro não navega mané (Serginho Meriti e Claudemir) cai com mais destreza no suingue com sopros evocativos de salão de gafieira. Nesse salão, também há espaço para o balanço nobre de Realeza (Joluis e Alvinho Santos), samba valorizado pelo melhor arranjo do disco, criado por Alexandre Menezes com direito até a passagem de clima jazzy na orquestração sincopada.
Samba também embebido em alto astral, Lado a lado (Arlindo Cruz, Marcelinho Moreira e Rogê) propaga tom solar com certa poesia, mas sem justificar as assinaturas do (geralmente mais inspirado) trio de autores. Balada que cai na cadência do pagode romântico, com todos os teclados a que tem direito, Não dá mais é canção de Altay Veloso em que Alcione voltar a encarnar o papel da mulher infeliz, só que à beira da libertação do jugo conjugal.
Na sequência, O samba ainda é (Serginho Meriti, Ricardo Moraes e Claudemir) exalta o próprio samba sem traço de originalidade. Já Feito traça (Telma Tavares e Roque Ferreira) tece trivial trama romântica com certa dose de sensualidade.
Alcione brilha ao entrar na roda baiana com o samba ‘Santo Amaro é uma flor’
Marcos Hermes / Divulgação
Faixa brejeira que sobressai na construção frágil de Tijolo por tijolo, 41º álbum de Alcione, Santo Amaro é uma flor (Edil Pacheco e Walmir Lima, 2012) abre a roda e estende a rota do disco até a Bahia.
Samba de roda lançado em disco há sete anos pelo grupo mineiro Zé da Guiomar e revivido por Alcione com palmas e o toque de viola que evoca o tom interiorano do samba do Recôncavo baiano, Santo Amaro é uma flor louva a cidade de Santo Amaro de Purificação, terra da chula, de Caetano Veloso, de Maria Bethânia – cantora a quem Alcione é ligada por laços de amizade iniciada nos anos 1970 – e de Claudionor Viana Teles Veloso (1907 – 2012), a matriarca da cidade, conhecida como Dona Canô e como tal mencionada na letra desse samba radiante.
Teu calor (Júlio Alves, Ramires e Carlos Júnior) desloca novamente o álbum Tijolo por tijolo para o quintal romântico em que Alcione reina desde a segunda metade da década de 1970. A temática desse samba evoca hits da cantora nessa linha, como Menino sem juízo (Paulinho Rezende e Chico Roque, 1979) e Garoto maroto (Franco e Marcos Paiva, 1986).
No fim do álbum Tijolo por tijolo, a homenagem ao Maranhão – já tradicional nos discos da cantora – surpreende ao ser feita sem ritmo da região, mas em tom urbano e romântico. Zé Américo Bastos é o arranjador e parceiro do poeta Salgado Maranhão na criação de Lençóis, envolvente canção sobre um amor vivido nos Lençóis Maranhenses.
A derradeira faixa reitera que, entre altos e baixos conceitos, Alcione reforça com o álbum Tijolo por tijolo a sedimentação de trajetória norteada e alicerçada pelo gosto popular.

Please enter banners and links.

Porsche 718 Boxster GTS: primeiras impressões


Para os mais conservadores, um esportivo que se preze deve ter motor grande e, de preferência, câmbio manual. Este Porsche contraria tudo isso. Porsche 718 Boxster GTS
Celso Tavares/G1
Para os mais conservadores, um esportivo que se preze deve ter motor grande e, de preferência, câmbio manual. O 718 Boxster GTS contraria tudo isso e carrega ainda o peso de ser um Porsche, uma das fabricantes de esportivos mais tradicionais do planeta.
O G1 andou no modelo, que parte de R$ 485 mil, para tirar a prova se o esportivo de Stuttgart também pode ocupar a garagem dos puristas.
Em sua nova geração, o modelo ganhou motor turbinado de apenas 4 cilindros. No Brasil, ele é oferecido ainda somente com câmbio automático – o eficiente PDK de 7 marchas, que fique claro.
Principais concorrentes do Porsche 718 Boxster GTS
Arte G1
(Quase) nada é de graça
Não tem como falar de um carro tão chamativo sem começar por valores. Além de custar R$ 485 mil, a unidade avaliada pelo G1 era dotada de inúmeros opcionais.
A Porsche não divulga o valor final do exemplar. Uma configuração feita no site da marca com a maioria dos itens da unidade testada alcança os R$ 553.210, sendo R$ 68.210 só de opcionais (alguns dos selecionados acrescentam outros automaticamente). Veja a lista:
Carroceria pintada no azul Miami Blue: R$ 13.587;
Bancos com inscrições GTS contrastantes: R$ 10.173;
Faróis full-LED: R$ 6.415;
Lavadores dos faróis pintados na cor do veículo: R$ 1.171;
Barras anticapotagem pintadas de preto brilhante: R$ 2.931;
Aerofólio móvel pintado em preto brilhante: R$ 2.001;
Pacote de iluminação ambiente: R$ 1.725;
Câmera de ré e sensores de estacionamento dianteiros e traseiros: R$ 3.793;
Sistema de som Bose: R$ 6.827.
Vale dizer que as opções de personalização são muito detalhadas e podem escapar aos nossos olhos. Ou seja, a conta deve ser ainda maior.
Porsche 718 Boxster GTS
Celso Tavares/G1
‘Só’ 4 cilindros?
Cuidado ao subestimar o motor 2.5 de quatro cilindros do 718 Boxster GTS. São 365 cavalos de potência e 43,9 kgfm de torque combinados ao câmbio automático PDK de 7 marchas e a tração traseira.
Indo além dos números, também é sempre válido lembrar que se trata de um legítimo Porsche. Ou seja, nem se passa pela cabeça de quem está ao volante que logo atrás (o motor é central-traseiro) não há um “motorzão” de ao menos seis ou oito cilindros.
O resultado disso é um 0 a 100 km/h em 4,1 segundos e uma velocidade máxima de 290 km/h.
Porsche 718 Boxster GTS
Celso Tavares/G1
As acelerações são prazerosas, tanto pela força entregue, quanto pelo ronco grave – um botão pode tornar o som ainda mais encorpado. As reduções de marcha dão direito até a “pipocos” no escapamento.
A direção obedece ao motorista de forma milimetricamente precisa e a suspensão não passa tantas “pancadas” aos ocupantes, apesar de sua natural rigidez. Assim como no escape, a suspensão também tem um botão dedicado para ficar mais firme ou macia.
Há 4 modos diferentes de condução: individual, normal, sport e sport+. O último é indicado para situações de pista por tornar o carro extremamente arisco, enquanto o individual pode reunir o melhor do que o motorista deseja entre ajustes de suspensão, câmbio, motor e direção.
Porsche 718 Boxster GTS
Celso Tavares/G1
Fácil convivência
Apesar de ser um esportivo de quase R$ 500 mil e 400 cv, o 718 Boxster GTS também pode oferecer uma convivência amigável no dia a dia.
A suspensão, que pode ser confortável, a direção leve e o porte do modelo o tornam fácil de dirigir.
Com 4,38 metros de comprimento e 1,80 m de largura, ele tem dimensões próximas de um Volkswagen Golf GTI.
O consumo também é um fator que facilita o convívio. De acordo com o Inmetro, o GTS alcança médias de 7,9 km/l na cidade e 10,3 na rodovia. Os números são muito melhores do que de uma Fiat Toro 1.8 automática, por exemplo, que faz 6,4 e 7,8 km/l, respectivamente, com etanol.
Interior mescla acabamentos de fibra de carbono, alcantara e couro
Celso Tavares/G1
Tudo isso pode ser aproveitado de um jeito mais intimista, com o carro todo fechado, ou ainda com os cabelos ao vento, abrindo a capota. Ela leva 9 segundos para se abrir ou fechar.
Talvez o único “perrengue chique” para quem nunca teve contato com um Porsche será ligar o carro. Como tradição da marca em competições, a partida sempre é dada do lado esquerdo do volante.
Equipamentos ‘básicos’
A lista de itens de série não é o principal chamariz do modelo, que tem equipamentos “básicos” como ar-condicionado digital de duas zonas, sistema start-stop, mostrador digital no quadro de instrumentos, monitoramento de pressão dos pneus e freio de estacionamento eletrônico.
Volante do esportivo reúne comandos como o seletor de modos de condução, à direita
Celso Tavares/G1
Apesar do sistema de som Bose (opcional) com 505 watts, 10 alto-falantes e subwoofer, a central multimídia não conta com as plataformas Android Auto e Apple CarPlay. Porém, há bluetooth para chamadas e streaming de áudio, com uma complicada operação de pareamento.
Os sensores de estacionamento e a câmera de ré também são opcionais, assim como os faróis full-LED. Apesar da bela chave, que replica o formato e a cor do carro, ela não é presencial para partida do motor.
No console central, comandos de ESP, ajuste de suspensão, nível do ronco, subida/descida do aerofólio e, ao centro, de abertura/fechamento da capota
Celso Tavares/G1
Tem, mas acabou
Em janeiro deste ano, a Porsche atendeu aos pedidos dos mais puristas e passou a equipar o 718 GTS com motor 4.0 aspirado de seis cilindros com 400 cv de potência (35 a mais do que o turbo). Com o “coração” novo e câmbio manual, o modelo passa a ir de 0 a 100 km/h em 4,5 segundos.
A nova motorização ainda não chegou ao Brasil, o que deve acontecer até o final de 2020, assim que a versão com câmbio automático PDK for lançada.
Ainda que em um número mais limitado de unidades, o modelo também deverá ser vendido com câmbio manual por aqui.
Sobre os exemplares do 718 GTS equipados com o 2.5 turbo, a Porsche diz que todos destinados ao mercado brasileiro já foram vendidos. Mesmo assim, ele ainda aparece no site da marca.
Como é tradição entre os modelos da marca, chave repete o desenho e a cor da unidade
Celso Tavares/G1
Conclusão
Fácil de guiar, com ótimo desempenho, excelente dirigibilidade e ainda com o status de um Porsche, o 718 Boxster GTS pode até não ser o mais potente em sua faixa de preço, mas é o melhor entre eles. Além disso, ele prova que sim, um esportivo de verdade também pode ter só quatro cilindros.
Porém, se a sua intenção era a de comprar um zero quilômetro, há duas opções: buscar por um seminovo logo mais ou esperar pelo 4.0.

Please enter banners and links.