‘A impressão foi que o inferno tinha subido’, diz professor biólogo que fez sobrevoo em meio aos incêndios no Pantanal


Hugo Fernandes, da Universidade Estadual do Ceará, relata dificuldades na rota de voo, linhas de fogo de quilômetros de extensão e alerta para o perigo que espécies pequenas correm com as chamas no bioma, que já são as piores da história. Imagens aéreas feitas por biólogo Hugo Fernandes mostram incêndios no Pantanal
O biólogo Hugo Fernandes, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), fez um sobrevoo na sexta-feira (25) por áreas do Pantanal (veja vídeo), bioma que enfrenta os piores incêndios em sua história.
Hugo, que está em Corumbá (MS), voou até a Serra do Amolar, na divisa de Mato Grosso com Mato Grosso do Sul. Na volta, gravou as imagens. Ao G1, ele relatou uma visibilidade precária durante o voo, linhas de fogo de quilômetros de extensão e o perigo que correm as milhares de espécies da região – algumas das quais já corriam risco de serem extintas antes de os focos aumentarem.
“A impressão que deu foi que o inferno tinha subido”, relatou o biólogo, que trabalha com conservação de espécies em larga escala.
“Para onde olhava tinha incêndio; as linhas de fogo tinham quilômetros. A visibilidade do piloto, que tem 46 anos de profissão, foi comprometida. Ele, que conhece milimetricamente a área ali, passou a contar com a ajuda dos controladores para voar de volta a Corumbá”, relatou o professor da Uece.
Mapa mostra região pantaneira e locais sobrevoados por Hugo Fernandes, que foi de Corumbá (MS) à Serra do Amolar
G1
A viagem dele à região já estava marcada antes de os incêndios começarem – o objetivo da ida é começar a executar as ações de uma campanha para montar duas brigadas permanentes de combate ao fogo no Pantanal. Segundo Hugo, uma ficará em Porto Jofre (MT), e a outra em Corumbá (MS). A cidade mato-grossense é onde fica o Parque Estadual Encontro das Águas, que abriga a maior concentração de onças-pintadas do mundo. O fogo também já chegou lá.
“Em um incêndio de grandes proporções, o impacto direto são os animais queimados. Esse [incêndio] está sendo num nível tal que até animais ágeis, como a onça-pintada, têm sido registrados [como queimados]”, destacou o biólogo.
Pata de macho adulto é vista enquanto recebe tratamento para queimaduras, após um incêndio no Pantanal, na ONG Instituto Nex, em Corumba de Goiás
Ueslei Marcelino/Reuters
“Se animais ágeis estão morrendo, imagine o que acontece com os menores, sem a menor chance de fuga, a menor chance de defesa. No avanço direto do fogo, são milhões de indivíduos mortos”, lembra.
Hugo explica que, da forma como o fogo se espalha, algumas áreas acabam ficando protegidas – por ação humana ou porque o vento, um fator importante no alastramento das chamas, não espalha os incêndios. Esses locais se tornam, então, o refúgio de muitas espécies, o que também cria problemas.
“Imagine você na sua casa que tem 3, 4 pessoas. E você abre a porta e 100, 150 pessoas passam – a despensa vai ficar vazia no primeiro dia”, comparou o professor. “Esse é o cenário. Isso é o que acontece quando tem uma área de refúgio. Não tem como disputar recursos”, explica.
Jacaré é visto morto depois de incêndio no Pantanal em Poconé (MT), no dia 31 de agosto.
Amanda Perobelli/Reuters
E as consequências se espalham por várias partes do bioma: as cinzas na superfície do solo, por exemplo, são carregadas para os rios quando chove, explica o professor, o que acaba matando os peixes e tendo impacto sobre outras espécies aquáticas. Além disso, a poluição causada pelas chamas também dificulta a situação dos animais – quando não os mata.
“Os pássaros, por exemplo, morrem no contato direto com a fumaça mesmo sem incêndio direto”, afirma.
Espécies ameaçadas
O professor também alerta que, como o Pantanal abriga milhares de espécies, os prejuízos vão além dos vistos naquelas que chama de “espécies-bandeiras”, que acabam atraindo mais atenção – com a arara-azul ou a onça-pintada.
“Só de espécies ameaçadas de extinção temos 40. E algumas que não recebem nem de longe a mesma atenção”, afirma.
Foto mostra ariranha sendo alimentada em um centro de resgate de animais no Pantanal de Mato Grosso, no dia 17 de setembro.
Mauro Pimentel/AFP
“Podemos perder espécies criticamente ameaçadas de extinção e ninguém está vendo: o bicudo, que é um passarinho criticamente ameaçado de extinção sem o fogo, o tamanduá, que poucas pessoas estão falando, o tamanduá-mirim, que é uma espécie menor de tamanduá e que está sofrendo”, lista.
Ele também alerta que, apesar de o fogo no Pantanal ocorrer todo ano e o bioma ter uma boa capacidade de se regenerar, essa recuperação não acontece da mesma forma em toda a região.
“Para a flora, melhora nas primeiras chuvas; na fauna, demora muito mais tempo – alguns animais conseguem se reproduzir em questão de dias, mas outros em questão de anos. Para você recuperar a população é um pouco mais complicado. Sempre haverá recuperação, mas não sei qual vai ser a proporção de espécies depois disso”, diz.
“É muito difícil falar de impacto no Pantanal, porque são 11 Pantanais”, afirma Hugo. “Cada um tem suas características, são fatores muito complexos para falar no impacto e na recuperação do Pantanal como um todo.
“Tem que estudar, colocar cientista para avaliar o tamanho do impacto, o que já está acontecendo – tem o INPP (Instituto Nacional de Pesquisas do Pantanal), a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a Fiocruz. É um trabalho que começou a estimar [o impacto], mas ainda tem muito chão pela frente”, avalia Hugo.
Fogo subterrâneo
Uma das dificuldades em combater os incêndios no bioma pantaneiro é o fogo subterrâneo – aquele que, como o nome diz, queima abaixo do solo e acaba emergindo em algum ponto. Esse tipo de chama fez com que, durante a viagem de Hugo, a bota de um bombeiro acabasse queimada (veja vídeo).
Biólogo mostra bota de bombeiro queimada pelo fogo no Pantanal
“‘É esse fogo que queima as quatro patas [da onça]”, afirma Hugo.
Os seis fatores que tornam incêndios no Pantanal difíceis de serem controlados
Outro ponto é que o bioma enfrenta uma seca histórica – a pior em 47 anos. E, quando chove, se a quantidade for pouca, a água não consegue infiltrar o solo e apagar as chamas acesas ali.
“O Rio Paraguai nunca esteve tão baixo. Tem 50% menos chuva do que era esperado para o momento, o que ajuda a alastrar os incêndios. Causar, não – a causa natural são raios, e não tem chuva, então não tem raio. As investigações mostram que a origem dos focos é criminosa, então há, sim, o fator criminoso, mas não há um único motivo”, avalia o professor da Uece.
Ele também lembra que não é possível desconsiderar a questão governamental.
“Este ano, o Brasil teve 34% a menos de autuações ambientais realizadas, de um número que já era muito pífio. Esse é o pior índice de autuação ambiental em 24 anos. Os cortes que o MMA [Ministério do Meio Ambiente] sofreu atingem duramente o Ibama e o Prevfogo, que chegou a ter 50% do orçamento cortado e é o principal órgão de controle e combate aos incêndios”, destaca.
“Nenhum desses fatores sozinhos explica, mas é leviano desconsiderar qualquer um deles, inclusive o governamental”, opina o biólogo.
‘É um horror’, diz biólogo voluntário sobre queimadas no Pantanal

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Estudantes tímidos relatam desempenho melhor e participação mais confiante nas aulas a distância


‘On-line eu posso pensar no que vou responder e, se aparecer algum imprevisto, posso colocar o microfone no mudo’, diz aluna do Ceará. “Sem as pessoas olhando, fica mais fácil falar.” É assim que Arthur Araújo, estudante de 15 anos de Sobral (CE), descreve por que se soltou mais nas aulas virtuais que substituíram as presenciais durante a pandemia de Covid.
Estudantes mais introspectivos – principalmente os que têm acesso a internet de qualidade e a um ambiente adequado de estudos – relatam um desempenho melhor e uma maior sensação de conforto no ambiente escolar virtual. A terapeuta infantil Ana Carolina Marques diz que, em termos técnicos, elimina-se o “estressor” da escola e abre-se espaço para a autonomia dos alunos.
Outros pontos que favoreceriam um desempenho melhor no ensino a distância:
alguns alunos afirmam se concentrar melhor sem barulho ou conversas
pais que estão trabalhando de casa podem ter um acompanhamento maior das atividades dos filhos
ensino on-line tem uma linguagem mais próxima da realidade de telas vivenciada pelos jovens
“Para esta geração, a tecnologia já entra como uma linguagem, e a maioria das escolas está aquém disso”, diz Ana Carolina Marques.
Ana Beatriz Silva Souza, 15 anos, aluna da Escola Estadual Adalgisa Bonfim, do Ceará
Arquivo Pessoal
Ana Beatriz Souza, de 15 anos, trocou de escola no Ceará no início deste ano. Não teve tempo de estreitar laços com os colegas e professores quando a pandemia forçou a suspensão das atividades.
Mas o medo de falar algo que soe constrangedor diminuiu com os chats virtuais. “Sou bem tímida, quando vejo muita gente ao redor fico com vergonha de falar alguma coisa errada. Nas aulas on-line posso pensar no que vou responder e, se aparecer algum imprevisto, posso colocar o microfone no mudo e abrir depois.”
Khauanny Sousa dos Santos, 14 anos, do Rio, conta que a familiaridade com o computador aumentou o seu contato com os colegas. A pedagoga Elaine Cristina da Cruz Leal, da Escola Firjan Sesi Jacarepagá, diz que “durante a pandemia, Khauanny é procurada para falar em nome do grupo”.
“Em uma turma com 35 alunos, talvez ela não desse tanto valor à fala mediante o grupo. E, por meio da plataforma, ela percebeu o quanto a voz dela é importante e o quanto ela tem essa escuta”, complementa.
Khauanny Sousa dos Santos, 14 anos, aluna da Escola Firjan Sesi em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro
Arquivo Pessoal
Quando entrou na escola, há 4 anos, Khauanny teve dificuldade de acompanhar o ritmo. “Ela sempre se expressou bem e organizou ideias, mas faltava proatividade e interesse por poder fazer mais. A pandemia trouxe isso para ela, de uma certa forma acelerou processo que já aconteceria”, afirma a pedagoga.
Blitz dos pais
Outro aspecto que contribuiu para o rendimento dos estudantes foi a “blitz” para monitorar a aprendizagem.
Com os pais em casa, alguns alunos se viram com horários para fazer as tarefas – e são vigiados nas “escapadinhas” durante o estudo. Com acesso ao que é publicado nas plataformas de ensino remoto, os familiares conseguem cobrar a execução das atividades.
Maria Rejane Sousa, de Teresina (PI), avalia que a melhora do desempenho escolar do filho Ruan, de 9 anos, “depende dele e de um adulto em casa para ficar olhando”. Quando ela não pode monitorar o menino, a tia da criança ajuda.
Maria Rejane Sousa e o filho Ruan de Sousa, de 9 anos, aluno do 4º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Roberto Cerqueira Dantas.
Arquivo Pessoal
Para Khauanny, do Rio, a rotina em casa na pandemia manteve os mesmos horários de antes. O pai a monitora para acordar cedo, ligar o computador e, enquanto a máquina está ativando, orienta para que ela tome banho, escove os dentes e esteja desperta quando as aulas começam.
“Logo no início, intensificamos [o acompanhamento]”, conta Vinicius Santos, o pai. “Foi uma ‘blitz’ para que ela não dispersasse da aula. Se deixar, ela vai se distrair, ver televisão. Perde-se a atenção muito rápido”, analisa.
‘Lado bom e lado ruim’
Para a doutora em educação Telma Vinha, professora do departamento de psicologia educacional da Unicamp, o monitoramento dos pais tem o lado bom de trazer uma rotina para estas crianças, mas pode se tornar ruim se os adultos passarem a fazer as tarefas dos estudantes por falta de tempo ou paciência.
A sugestão é fazer uma “autorregulação” com os estudantes, estabelecendo limites e negociando prazos. “A ajuda dos pais é colocar o problema, ajudar na busca por soluções e combinar o prazo”.
Um exemplo é que, se o aluno não acorda no horário definido, é preciso fazê-lo compreender que a responsabilidade é dele, e não dos pais. O estudante precisa encontrar as estratégias para alcançar este objetivo, como ligar dois despertadores, por exemplo, ou colocá-lo longe da cama.
“O valor pedagógico da liberdade está na responsabilidade. Quando maior a liberdade, maior a responsabilidade”, afirma Telma Vinhas.
O que fica para o futuro
Se o uso da tecnologia na educação permite para uma parcela dos estudantes se sair melhor nas aulas a distância, o que pode ser aproveitado como aprendizado?
Para os estudantes, professores, educadores e familiares ouvidos nesta reportagem, o ensino presencial ainda tem a preferência sobre o remoto, mas as ferramentas virtuais ajudam em certas dinâmicas de aprendizagem.
Mario Frota, professor em Sobral (CE), afirma que nas aulas virtuais ele usa o Google Earth, por exemplo, para mostrar ruínas históricas que ainda existem em certas partes do mundo.
“Se estou falando de Mesopotâmia, posso mostrar as ruínas do Zigurate de Ur. No presencial, muitas vezes se segue o plano de aula, mas não se usa slides ou internet, por exemplo”, afirma.
Playlist: Volta às aulas na pandemia

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