Ativistas bloqueiam entradas do Salão do Automóvel de Frankfurt


Pelo 3º dia, ambientalistas protestam contra indústria automobilística na maior feira do setor e defendem banimento de carros nas cidades e transporte público gratuito. Manifestação reúne centenas de pessoas. Ativistas bloqueiam avenida que dá acesso ao Salão do Automóvel, em Frankfurt, neste domingo (15)
Wolfgang Rattay/ Reuters
Ativistas bloquearam neste domingo (15) entradas, incluindo a principal, do Salão do Automóvel de Frankfurt (IAA) em um protesto contra o que chamaram de “destruidores do clima e do meio ambiente” produzidos pela indústria automobilística. Esse é o terceiro dia que o evento é alvo de manifestações.
Centenas de pessoas vestindo roupas de proteção brancas sentaram ou ficaram paradas em pé em frente a duas entradas do evento. Os manifestantes levavam cartazes com inscrições como “desapropriar montadoras” e “as ruas estão ocupadas chegou a hora de mudar o transporte”. Alguns dos participantes circularam de bicicleta em volta do prédio da feira, causando também obstruções.
Salão do Automóvel de Frankfurt é alvo de protestos de ambientalistas
Segundo os organizadores do ato, os protestos visam interromper o IAA com bloqueios pacíficos. “Estamos assumindo uma posição clara contra o sistema de transporte destrutivo que é defendido pelo maior salão do automóvel do mundo”, afirmaram.
Os manifestantes defendiam ainda a proibição de carros em cidades, o transporte público gratuito e criação de ciclovias. “Uma mudança real para um transporte ecológico não é compatível com os interesses econômicos do lobby da indústria automobilística”, ressaltaram os organizadores do protesto.
Ativista usa máscara com a mensagem ‘faça amor, não carros’ durante protesto em Frankfurt, neste domingo (15)
Michael Probst/AP
De acordo com a polícia, os protestos foram pacíficos. Apenas algumas discussões entre manifestantes e visitantes da feira foram registradas. Os organizadores do Salão do Automóvel de Frankfurt pediram que os visitantes evitassem as entradas que foram bloqueadas.
Esse foi o terceiro dia de protestos no Salão do Automóvel de Frankfurt. Na abertura da feira para o público, no sábado, cerca de 25 mil pessoas, segundo os organizadores, participaram de uma manifestação para exigir que ao setor automobilístico assuma sua responsabilidade como indústria poluidora do meio ambiente. A polícia registrou, porém, 15 mil manifestantes.
Na quinta-feira, participantes do movimento ambientalista Fridays for Future e ativistas do Greenpeace promoveram um ato de protesto dentro da IAA no momento em que a chanceler federal alemã, Angela Merkel, visitava a feira. Manifestantes invadiram o estande da Volkswagen e subiram nos carros, portando cartazes com a inscrição “Klimakiller” (assassino do clima).
Montadoras apresentam os novos modelos no IAA, que foi aberto por Merkel. Durante a visita ao local, a líder alemã elogiou os esforços do setor para o desenvolvimento de tecnologias neutras em termos de emissões que causam o aquecimento global.
Ambientalistas, porém, criticam as montadoras pela demora de iniciar a transição da mobilidade eletrônica, por investirem cada vez mais em carros que consomem muito combustível, como as SUVs, e por se esquivarem das responsabilidades pela poluição do ar, especialmente devido emissões causadas por veículos movidos a diesel.

Geração streaming: como aplicativos e playlists mudam relação das novas gerações com a música

Pesquisa aponta que nova geração está interessada em todos os gêneros e artistas

Pesquisa aponta que nova geração está interessada em todos os gêneros e artistas
Divulgação

O que Ed Sheeran, BTS, Shawn Mendes, Beyonce e Taylor Swift têm em comum? Além de ter a música como profissão, todos os artistas citados estão no top 5 de uma pesquisa realizada pela agência Sweety High, nos Estados Unidos, com mulheres da geração Z (idade entre 13 e 22 anos), em 2018. As escolhas musicais demonstram que a geração que está consumindo música pelo celular não se importa mais com os “gêneros musicais”.

Pode ser irônico porque quando olhamos para o passado lembramos que a polarização que hoje enxergamos na política acontecia também na música. Dificilmente alguém passaria pela adolescência sem se posicionar a favor de um gênero musical. Um fã de heavy metal faria tudo que pudesse para não ser flagrado ouvindo uma balada sofrida do Bryan Adams – mesmo que isso ocorresse com frequência.

Marcus Preto, 46, diretor musical de nomes como Gal Costa, Tom Zé, Silva e Scalene, reforça o argumento: “Era de se esperar que chegássemos a essa abertura com a facilitação do acesso à música. Antes, quando vivíamos sob a dominação das mídias físicas, tínhamos que selecionar bem em qual artista ou banda gastaríamos nosso dinheiro. Arriscar comprar um disco de alguém muito fora do que consumíamos normalmente, podia significar jogar dinheiro fora”.

Uma pesquisa, realizada pelo Spotify, também em 2018, mostrou que a influência musical tanto pra homens quanto para mulheres atinge seu pico entre 13 e 14 anos. Ter um rótulo musical, anteriormente, te ajudava a pertencer a grupos e tribos urbanas. Era uma maneira de ganhar identificação e reconhecimento. Poucos se misturavam e tinham bom trânsito em vários estilos. E isso servia para vários artistas também.

Ypulse, respons[avel pela pesquisa, diz que "parece" que a geração Z não tem gênero

Ypulse, respons[avel pela pesquisa, diz que “parece” que a geração Z não tem gênero
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O produtor, compositor e empresário Dudu Borges, 36, um dos responsáveis pelo sucesso do “novo sertanejo” e de suas ramificações no Brasil, pinta o atual cenário com positividade. “A música tem as mesmas notas desde sua criação e ainda assim não se faz o mesmo som. As possibilidades são infinitas e variam conforme instrumento, interpretação, assim como arranjos e produção”, lembra. “Os gêneros continuam existindo, mas ninguém gosta mais de uma coisa só. O lado bom dessa pluralidade é a potencialização da música como negócio e, para o artista, o desprendimento de poder se expressar de diferentes formas”.

E esta geração Z, confundida também com os millennials (idades entre 25 e 38 anos), já ganhava destaque em uma ampla pesquisa em 2015 da agência Ypulse, que entrevistou 1.000 jovens e descobriu que eles não conseguiam listar quais eram seus artistas favoritos. “Esta geração está interessada em todos os gêneros musicais e artistas”, concluiu a pesquisa.

Descobriu-se que, enquanto a geração do milênio é apaixonada por música (76% entre 13 e 17 anos afirmaram que não conseguiriam viver uma semana sem ela), 79% dos entrevistados entre 13 e 32 anos disseram seus gostos não se enquadravam em um gênero musical específico. Apenas 11% disseram que ouviram apenas um gênero de música. “Parece”, observou a Ypulse, quando publicou suas descobertas, “que a geração Z é uma geração sem gênero”.

Pesquisa apontou que 79% dos entrevistados entre 13 e 32 anos disseram seus gostos não se enquadravam em um gênero musical específico

Pesquisa apontou que 79% dos entrevistados entre 13 e 32 anos disseram seus gostos não se enquadravam em um gênero musical específico
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Se uma parte relevante dessa geração prefere não se rotular quando o assunto é gênero e deixar o assunto em aberto, com a música é a mesma coisa. Pedro Lucas, o Pe Lu, esteve à frente de um dos maiores fenômenos adolescentes da década passada, o Restart. Hoje, DJ, produtor de música eletrônica e um dos braços do grupo Selva, Pe Lu aprova a nova ordem: “Uma geração que não faz questão de levantar bandeiras vai estar mais aberta a aceitar que gêneros diferentes se misture. São pessoas mais criativas e flexíveis. Afinal, música é música. Se me toca de alguma forma, está valendo”.

Playlists

A estudante Julia Boggiss, de 16 anos, se vê como uma pessoa privilegiada por ter acesso à diversas plataformas pra ouvir músicas de todos os gêneros. Foi esta geração dela que também ganhou um ingrediente fundamental para este ecletismo: as playlists. Esse fenômeno influencia até os line ups de festivais pelo mundo todo.

Quando ouvíamos músicas por meio das rádios, buscávamos o gênero que mais nos agradava. Com o streaming, a seleção passou a ser temática. Escolhe-se uma lista para tomar café, escovar os dentes etc. A pesquisa da Sweety High também apontou que 92% das entrevistadas disseram que a música influencia no humor.

Maria Antonia Borges, de 17 anos, é daquelas que ouvem playlists a todo momento: “Eu tenho uma playlist pra cada momento/evento: uma festa, pra ouvir na academia, no caminho de casa até a escola, em viagens. Mas não tenho um gênero preferido, isso depende do momento”.

Não à toa, os festivais mais tradicionais, como Coachella (EUA) ou Primavera Sound (Espanha), se rendem a escalações com pop, rap, rock, metal e country. E muitas vezes esses artistas já até colaboraram entre si.

Nesta década, a fusão entre os rótulos foi tão grande que é difícil precisar quem está fazendo pop, rap, indie, r’n’b, sertanejo ou funk. Até porque é mais provável que todos estejam fazendo de tudo. O eletrônico Skrillex produziu o cantor Justin Bieber, por exemplo. Rihanna regravou Same Ol’ Mistakes dos indies do Tame Impala. Gal Costa e a sertaneja Marilia Mendonça gravaram juntas. A emo Fresno fez parceria com Caetano Veloso.

E se hoje, a geração Z busca referências nas sugestões das plataformas musicais, em playlists, séries e amigos, Marcus Preto coloca dois elementos anacrônicos e “fora da curva” nessa discussão “sem gênero”: “Eu nasci na zona norte de São Paulo e cresci ouvindo rádio. Adorava disco de novela, porque tinha todos os hits juntos num LP só. Então, minha cabeça sempre foi uma zona. De Paralamas e Marina Lima a Alcione e João Gilberto, passando por Titãs e Roberto Carlos, eu acabo chamando tudo de MPB. Acho que é tudo fruto de um raciocínio parecido em algum contexto, porque era tudo o que eu ouvia ao mesmo tempo no rádio nos anos 1980 e depois nos meus LPs e CDs nos 1980, 1990, 2000”.

Claramente, diferentes estilos de música continuam existindo. Mas os dias de se jogar um contra o outro, ou dispensar um porque você está proibido pela patrulha dos roqueiros de ouvir pop ou funk, parece ter passado. O importante é o quão divertido pode ser sua relação com a música.

O guitarrista Hugo Mariutti, 43, que toca com as bandas de heavy metal Shaman e Viper, vem de um gênero acostumado ao reacionarismo musical. “O heavy metal é bastante radical , porém mesmo neste gênero já vejo uma abertura bem maior do que no passado. Posso citar meus CDs solos como exemplo, pois não tem nada do estilo e muitos dos que me acompanham pelo heavy metal, gostam bastante do trabalho.”

A mesma batida

E o ponto de virada desta geração pode ter ocorrido quando Justin Bieber amadureceu e lançou o aclamado disco “Purpose” de 2015, onde se é possível ouvir as diversas influências dos novos tempos. Nessa virada, em que ele demonstra que poderia ir além no pop, Bieber colocou ouvintes e críticos numa encruzilhada: seria possível continuar a ser um hater só porque ele não tinha uma raiz musical, digamos, mais nobre?

Mesmo assim, misturar os gêneros não significa que todos estejam fazendo música diferente. A cantora Azealia Banks criticou as brasileiras Pabllo Vittar e Anitta, em 2018 nas suas redes sociais, após cancelar apresentações no Brasil: “Eu sinto que vários artistas brasileiros têm um estilo ‘audição de American Idol’ que é, honestamente, tão desnecessário. O Brasil tem uma cultura tão profunda, rica e única… A cultura americana é tão vazia e pobre. Meu maior desejo é que Pabllo ache sua verdadeira voz artística. Ela ainda não tem uma, copia o que vê”.

Dudu Borges, muitas vezes apontado como culpado por padronizar a música brasileira, explica: “Embora o acesso seja democratizado, as plataformas ainda exercem uma grande função perante a definição do que é tendência e o que não é, de acordo com as playlists editoriais e destaques de lançamentos”, aponta. “Isso faz com que alguns produtores, músicos e intérpretes se proponham a criar algo que já existe, com o intuito de melhorar o desempenho da música no mercado. As outras consequências, vamos descobrir em alguns anos.”