João Senise retorna às canções jazzísticas no álbum ‘Nice ‘n’ easy’


♪ João Senise volta aos standards do jazz no álbum Nice ‘n’ easy. Oitavo título da discografia do cantor carioca, o álbum Nice ‘n’ easy chega ao mercado fonográfico somente em edição digital, através da gravadora Fina Flor, com regravações de 12 joias da canção norte-americana.
Trata-se do primeiro álbum de João Senise desde Chama o Síndico (2018), disco com abordagens do repertório do cantor carioca Tim Maia (1942 – 1998). Só que, entre um álbum e outro, Senise fez incursão por músicas de acento mais pop em EP intitulado JS PopStar (2019).
Gravado em dezembro de 2019 no estúdio La Maison, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), o álbum Nice ‘n’ easy dialoga com dois discos anteriores do artista, Just in time (2013) e Love letters (2019), ambos com repertórios baseados no mesmo universo de standards jazzísticos da canção norte-americana em que se situou a criação de Nice ‘n’ easy.
Padrasto de João, Gilson Peranzzetta assina a direção musical e os arranjos de Nice ‘n’ easy, além de ter integrado – como pianista – o trio-base com o qual o cantor deu forma ao disco. Além de Peranzzetta, esse trio conta com Ricardo Costa na bateria e Zeca Assumpção no contrabaixo.
Pai de João, o saxofonista e flautista Mauro Senise figura em três faixas, tendo participado das gravações das canções That old feeling (Sammy Fain e Lew Brown, 1937), Nice ‘n’ easy (Alan Bergman, Marilyn Keith e Lew Spence, 1960) – música com o qual Senise batizou o disco, reproduzindo o nome escolhido por Frank Sinatra (1915 – 1998) para álbum lançado pelo cantor norte-americano em 1960 – e I’m beginning to see the light (Duke Ellington, Don George, Johnny Hodges e Harry James, 1944).
O repertório do álbum Nice ‘n’ easy também inclui as canções A foggy day (George Gershwin e Ira Gershwin, 1937), As time goes by (Herman Hupfeld, 1931), Beyond the sea (Charles Trenet e Jack Lawrence, 1945), Blue moon (Richard Rodgers e Lorenz Hart), But not for me ((George Gershwin e Ira Gershwin, 1930), Cheek to cheek (Irving Berlin, 1935) e Summertime (George Gershwin, Ira Gershwin e DuBose Heyward, 1935).

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Discos para descobrir em casa – ‘MPB4 e a nova música brasileira’, MPB4, 2000


Capa do álbum ‘MPB4 e a nova música brasileira’, do MPB4
Chico Audi
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – MPB4 e a nova música brasileira, MPB4, 2000
♪ Em 2000, na divisa entre os séculos XX e XXI, o grupo fluminense MPB4 tentou pegar novamente o bonde da história, com atraso, ao lançar o álbum MPB4 e a nova música brasileira.
A música não era assim tão “nova” como alardeava o título do disco produzido por Jair Oliveira para a Abril Music, gravadora que atuou no mercado fonográfico brasileiro de 1998 a 2003. A rigor, essa “nova” música brasileira aparecera e se desenvolvera ao longo dos anos 1990 nas vozes de cantores e compositores projetados naquela década. A partir do ano 2000, a música seria outra.
Mesmo já lançadas nos anos 1990, as músicas do álbum eram recentes – o que fez com que o disco MPB4 e a nova música brasileira simbolizasse movimento salutar do quarteto formado por Aquiles Reis, Miltinho, Antônio José Waghabi Filho (14 de novembro de 1943 – 8 de agosto de 2012) – o Magro – e Ruy Faria (31 de julho de 1937 – 11 de janeiro de 2018) em direção a uma outra era da música do Brasil.
Totalmente identificado com a MPB, premonitoriamente exposta no nome do grupo antes mesmo de a sigla ser efetivamente adotada pela mídia, o MPB4 procurou se reconectar nesse disco de 2000 com compositores de gerações mais jovens após série de projetos fonográficos temáticos e revisionistas, iniciada em 1987 com álbum dedicado ao cancioneiro do compositor Noel Rosa (1910 – 1937) e expandida ao longo dos anos 1990 com discos ao vivo e tributos a compositores.
Por mais que contenha títulos eventualmente bonitos, essa fase da discografia do quarteto fez o MPB4 perder a relevância obtida pelo grupo no período em que, de 1966 a 1984, o MPB4 lançou 20 álbuns antenados com o momento da música brasileira, lançando músicas inéditas ou então canções gravadas simultaneamente pelo quarteto com os autores.
Grupo profissionalizado em 1965, mas surgido por volta de 1962 na cidade fluminense de Niterói (RJ) em associação com movimento estudantil, o MPB4 se consagrou ao dar vozes a músicas de compositores como Chico Buarque (a quem sempre foi especialmente ligado, sobretudo em shows), Ivan Lins, Milton Nascimento – de quem lançou Fé cega, faca amolada (parceria do compositor com Ronaldo Bastos) no álbum Palhaços & reis (1974) – e Gonzaguinha (1945 – 1991), entre outros autores que, usando a canção como arma, lutaram contra toda forma de opressão.
Os repertórios dos 20 primeiros álbuns do MPB4 ofereceram amostras substanciais da resistente MPB produzida nos anos 1960 e 1970, décadas áureas do gênero. Em tempo de repressão, as vozes do MPB4 reforçaram o coro da resistência e se fizeram ouvir naqueles anos sombrios. E é curioso constatar que o fim da ditadura, em 1985, coincidiu com o início da diluição da discografia do grupo.
Convém ressaltar também que o MPB4 perdeu espaço no mercado fonográfico justamente quando a indústria do disco começou a fechar portas para quem fazia MPB, dando prioridade a artistas vinculados a gêneros como rock, pagode e axé music.
Com participação de Chico Buarque na única música inédita dentre as 12 faixas (Eu sou a árvore, versão em português de bolero cubano, escrita pelo próprio Chico), o álbum MPB4 e a nova música brasileira foi o último disco a ostentar as duas mais importantes marcas registradas do quarteto.
Essas marcas eram os arranjos vocais de Magro e a voz de Ruy Faria. Primeira voz do MPB4, Ruy Faria saiu do grupo em 2004 de forma ruidosa e o principal motivo da ruptura, como Ruy explicou publicamente na época, foi justamente a insatisfação do cantor com o (por Ruy alegado) conformismo dos outros três integrantes em retomar a série de projetos revisionistas após o fracasso comercial do álbum MPB4 e a nova música brasileira.
Mesmo sem a densidade dos discos da fase áurea do quarteto, o álbum de 2000 soou harmonioso. Em gravações de canções como as então recentes baladas Paciência (Lenine e Dudu Falcão, 1999) e Lenha (Zeca Baleiro, 1997), o uso de programações por Jair Oliveira e Max de Castro saltou aos ouvidos porque, naquele ano de 2000, grande parte da música brasileira já ganhava molduras eletrônicas e até nisso o disco contribuiu para que as vozes do MPB4 soassem mais atuais, embora os arranjos destoassem da natureza acústica da obra do grupo.
Nessa tentativa de sair da janela para ir passar com a banda na rua, o quarteto entrou no balanço pop do reggae Presente de um beija-flor (Alexandre Carlo, 1997) – sucesso inicial da Natiruts quando a banda ainda se chamava Nativus – e caiu no suingue do samba Posso até me apaixonar (Dudu Nobre, 1997), com a percussão de Da Lua sobressaindo na abordagem desse hit de Zeca Pagodinho.
Pode até ser que, ouvida 20 anos depois, a “nova” música brasileira do MPB4 tenha envelhecido mais do que os antigos discos lançados pelo quarteto nos anos 1960 e 1970. Só que, em 2000, havia certo frescor no álbum que dialogava com vãs tentativas anteriores do grupo de soar pop, como as incursões pelo cancioneiro de Guilherme Arantes, feitas no álbum Caminhos livres (1983).
Em MPB4 e a nova música brasileira, o grupo errou ao dissolver a fluência do pop reggae Onde você mora? (Nando Reis e Marisa Monte, 1994), sucesso da banda Cidade Negra, mas acertou ao arranjar os vocais da balada Resposta (Nando Reis e Samuel Rosa, 1998), canção que há dois anos iniciara transição na discografia do grupo Skank.
Dominado por baladas como À primeira vista (Chico César, 1995), Mentiras (Adriana Calcanhotto, 1992), Não vá ainda (Zélia Duncan e Christiaan Oyens, 1994) e O último dia (Paulinho Moska e Billy Brandão, 1996), esta ouvida com proeminente arranjo vocal de Maurício Maestro, o repertório do álbum MPB4 e a nova música brasileira teve o mérito de, em 12 faixas, dar boa amostra dos compositores que deram o tom mais pop da música brasileira nos anos 1990.
Talvez o maior problema do disco tenha sido a diluição das emoções reais tão entranhadas no canto do MPB4 em tempos idos – como se o sentimento fosse artigo já ultrapassado na era dos sons sintéticos. Ainda assim, Primavera (Marcelo Camelo, 1999) floresceu com o arranjo vocal de Magro.
No fim do disco, Eu sou a árvore reconectou o MPB4 com Chico Buarque, arquiteto de emoções históricas na trajetória do quarteto. Eu sou a árvore é versão do bolero Y tu qué has hecho? (1925). Chico entrou no meio da faixa para cantar a poética letra original em espanhol deste clássico do repertório do compositor cubano Eusebio Delfín (1893 – 1965).
Já o MPB4 deu vozes à versão em português escrita por Chico com dose igual de poesia. Brotou ali com maior nitidez, no último momento do disco, o sentimento enraizado no canto do MPB4, tronco caudaloso e frutífero da MPB politizada dos anos 1960 e 1970.

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