Como nascem as dancinhas dos maiores hits do Brasil? Por dentro de uma ‘TikTok house’


Músicas com coreografias no app bombam nas paradas, mas origem dos desafios nem sempre é a mesma.Tiktokers profissionais contratados por artistas e jovens amadores tentam ‘hitar’. Como nascem as dancinhas do TikTok
“Tipo gin”, “Não, não vou”, “Bipolar”, “Não nasceu pra namorar” são algumas das músicas que ganharam dancinhas simples, mas virais no TikTok. As coreografias projetaram seus artistas para o topo das paradas dos serviços de streaming.
As danças já são super conhecidas de quem usa redes sociais. Mas elas não têm uma origem única e não nascem da mesma maneira. Por trás dos fenômenos do TikTok, há desde criadores profissionais e casas especializadas em produção de conteúdo a dançarinos iniciantes ou usuários amadores.
O G1 já mostrou músicas que atingiram o topo das paradas por causa da viralização de dancinhas e como os artistas têm criado batidas tentando “caber” nas coreografias do app.
Agora, entenda que está por trás dessas criações de sucesso:
“Tipo Gin”, do Kevin o Chris, foi um dos maiores hits do primeiro semestre deste ano e mostrou o lado mais profissional do esquema de coreografias. Por trás da simplicidade dos passos está um contrato entre a agente do cantor e uma casa de tiktokers profissionais, que recebem para passar o dia pensando em dancinhas.
Também existem dançarinos com formação e/ou experiência que se aperfeiçoaram nos movimentos de sucesso do app e lançam danças em busca de hitar. Usuários comuns também criam passos por diversão ou em busca de seguidores.
O que ajuda a bombar é a repetição do “padrão TikTok”: mímica e movimentos literais que repetem o que diz a letra da música, facilidade, passinhos mais famosos do app e uma divulgação que desafie usuários. A origem dos passos vem do hip hop, mas funk tem ganhado espaço.
A entrada das TikTok houses no Brasil pode aumentar ainda mais a parceria entre cantores, empresários e produtores de conteúdo para a rede. Casas funcionam como um “BBB” da geração Z: têm processo seletivo, atividades planejadas e desafios.
1. ‘Tipo Gin’ e o contrato publicitário
Influenciadores da Nice House passam dia criando para o TikTok e são responsáveis pelo sucesso de ‘Tipo Gin’ no app
Marcelo Brandt/G1
Quem criou essa dancinha de “Tipo Gin” foi uma jovem de uns 20 anos que não revela nome, nem idade. Ela é conhecida como “cereja” e é uma das contratadas da Nice House Brasil.
Ela foi uma das selecionadas pelo processo seletivo para morar por 3 meses na casa e produzir conteúdo. Kamilla Fialho, empresária de Kevin, descobriu a Nice House e contratou uma “peça publicitária” do pessoal: algo que tivesse a cara do app e fizesse a música bombar.
“Começou comigo, né. A gente tinha que desenvolver e estava todo mundo muito ocupado, eu era a mais disponível no momento. E eu pensei em alguma coisa, no ritmo da música, que viralizasse, que fosse fácil, que seria replicável”, conta “cereja”.
Ela se inspirou em uma trend gringa. “Eu peguei essa ideia que o pessoal estava fazendo comparações. Por exemplo, eu vou pra escola, aí você tá triste. Aí quando eu vou pra escola e tem o menino que eu gosto, aí você tá feliz. É uma comparação que tem os dois lados.”
“Aí eu pensei em trazer pra música porque tem um momento mais calmo e tem um momento que fica mais intenso. E tem como você dançar e colocar as comparações, então é uma coisa muito replicável e muito fácil de fazer”, explica.
Ring light, celular e muito molejo são essenciais pra encarar dos desafios de dança do TikTok
Marcelo Brandt/G1
Depois disso, “cereja” saiu correndo pela casa e pediu pro pessoal fazer também. Deu certo e eles apresentaram para a empresa da Kamilla.
Do outro lado da casa, dois dançarinos trabalhavam em algo mais “elaborado”: uma dança de casal, que estava super em alta no começo do ano. E também apresentaram pra empresa.
A K2L aprovou as duas ideias e eles lançaram no mundo. Com 10 tiktokers dentro da casa, era “fácil” criar um burburinho assim que as dancinhas foram postadas. Mas o negócio ficou enorme, chegou a artistas, influenciadores, famosos e todo mundo estava “movimentando” ao som de Kevin O Chris.
2. Sucesso amador e profissional
Erika Tavares, João Pedro e Helloa Amaral são criadores de virais no TikTok
Reprodução/TikTok
Tem muito dançarino profissional no TikTok criando coreografias. Essa foi a origem dos principais “challenges” gringos no começo. Por aqui, pessoas com formação também aproveitaram a rede para crescer e mostrar o que sabem fazer.
É o caso de Erika Tavares, a responsável pela dança de “Não Nasceu pra Namorar”. A skatista Rayssa Leal repetiu os passinhos nas Olimpíadas de Tóquio. Antes de emplacar esse sucesso, Erika enfrentou muitos contratempos.
Hoje, ela tem mais de 570 mil seguidores e é procurada por artistas para fechar parcerias de criação de desafios para suas músicas.
Erika Tavares é dançarina e acumula milhares de seguidores
Reprodução/TikTok/Erika Tavares
O dançarino João Pedro Lima Machado, de 17 anos, espera o mesmo êxito. Ele viu os seguidores aumentarem e seus vídeos bombarem quando começou a fazer remixes de músicas antigas e danças mais “elaboradas”, diferentes das que costumam ir bem no app.
“Comecei a criar porque, na minha opinião, estava ficando a mesma mesmice. E pensei: por que não trazer uma coisa diferente, mais difícil? Então comecei a criar danças com uma pegada mais acelerada e vários movimentos.”
O dançarino João Pedro Lima Machado faz sucesso com danças no TikTok
Reprodução/TikTok/João Pedro
Helloa Amaral tem 13 anos e é dona de uma dança viral. Ela fez aulas de jazz por dois anos e a mãe é professora. Ela é uma tiktoker, acompanha tiktokers e passa horas no TikTok. De tanto ver, os passos se internalizam.
“Pensei em criar a dancinha depois que vi que talvez viralizasse, me veio na mente a música e naturalmente fui fazendo os passos, quando percebi que não havia nenhuma parecida, gravei e postei”, ela diz. Assim, Helloa fez o funk “Sua amiga deu” tocar em milhares de perfis da rede.
A postagem em que faz a coreografia com uma amiga da escola tem mais de 230 mil visualizações. E a música tem mais de um milhão de vídeos.
3. Passos e inspirações
Semana Pop explica como as dancinhas do TikTok estão mudando a música no Brasil e no mundo
Dança do TikTok não é bagunça: ela é muito mais padronizada do que parece e já conseguiu dar a alguns movimentos o status de “clássicos”.
O mais famoso é o Woah, uma movimentação circular com as mãos que pode ser adaptada e é encontrada em quase todas as dancinhas do app. É este aqui:
Woah é o passo mais famoso do TikTok
Marcelo Brandt/G1
A maioria dos movimentos é feita com a parte de cima do corpo: tronco, braços, mão e cabeça. A influência começou com o Hip Hop, por conta da movimentação estilizada e livre.
Não à toa, as primeiras músicas que viralizaram no app eram vertentes de hip hop e rap: a dança “Renegade” (o primeiro grande sucesso da rede) para a musica “Lottery”, de K Camp; “Wap”, de Cardi B; e “Savage”, de Megan Thee Stallion.
O mundinho BR tem importado movimentos do funk e incorporado o corpo inteiro à telinha. Os principais elementos são os passinhos e a rebolada, que estão em quase todo hit de funk na plataforma. Veja no GIF abaixo:
TikTok incorpora passinho do funk
Marcelo Brandt/G1
Outra característica é que os passos parecem mímica. Se a música falar de amor ou coração, faça um coração. Se falar de cabeça, aponte para a cabeça. Se falar de casa, junte as mãos em forma de telhado. Essa simplicidade faz com que as danças sejam fáceis, principalmente para crianças.
Mas um conteúdo pode também se tornar famoso justamente por sua dificuldade. É aí que entra o elemento do desafio. A jogada é arriscada, mas pode dar muito certo, como foi a complicada “Renegade”.
Por isso, os criadores capricham na descrição dos vídeos, sempre com legendas no estilo “quero ver vai conseguir fazer”. E, claro, MUITA hashtag.
4. Por dentro de uma TikTok house
11 TikTokers do Brasil inteiro foram selecionados para fazer parte da segunda temporada da Nice House, em São Paulo
Marcelo Brandt/G1
A Nice House é uma das casas de tiktokers do Brasil. Esse modelo de negócio ficou muito famoso lá fora e chegou ao país no ano passado.
A ideia é juntar vários produtores e somar as forças um do outro pra viralizar. Os perfis são distintos: existem os que fazem mais danças, os de humor, os que interpretam histórias, os maquiagem, e os que fazem de tudo um pouco.
Nas casas, eles têm aulas com coreógrafos, preparadores vocais, especialistas em dramaturgia e precisam completar algumas missões diárias e semanais, com mínimo de posts e desafios.
Há ainda outras casas que funcionam no país, como a Black House, em São Paulo, só com influenciadores negros. A Play House, por sua vez, começou e terminou antes de ficar mais conhecida.
Fora do país, as opções são muito maiores. Nos Estados Unidos, a multiplicação desses espaços levou a uma corrida por mansões em Los Angeles.
Segundo o jornal “The New York Times”, além do aumento pela procura de aluguel fixo de mansões, também cresceu a procura por aluguéis temporários via Airbnb e escritórios para produtores da rede social.
As casas precisam ser lindas, espaçosas, com piscina, muita luz natural e longe de vizinhos. Essa é uma tendência que dura há pelo menos seis anos com espaços que reúnem criadores de diversas plataformas: já foi de youtubers, gamers, usuários do Vine e por aí vai.
A mais famosa é a Hype House, pioneira do estilo para o TikTok. Ela acumula quase 20 milhões de seguidores na rede e já lançou estrelas como Charli D’Amelio (124 milhões), Addison Rae (84 milhões) e Chase Hudson (32 milhões).
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