Zeca da Cuíca, bamba original que decifrou o mistério do samba, morre aos 85 anos


Zeca da Cuíca
Reprodução / Facebook Escola Estácio de Sá
♪ OBITUÁRIO – “A música é infinita e a cuíca, um mistério”, poetizou certa vez o músico fluminense José de Oliveira (1935 – 2020), o Zeca da Cuíca.
Se a arte de tocar o instrumento que lhe deu o nome artístico é mesmo um mistério, o reconhecimento obtido por Zeca da Cuíca no mundo do samba foi o atestado de que ele começou a decifrar esse mistério desde que um dos maiores ritmistas do Brasil, Mestre Marçal, (1930 – 1994), ensinou José a seguir a cadência bonita do samba com o ronco da cuíca.
Morto aos 85 anos no sábado, 4 de setembro de 2020, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), de causa não revelada, Zeca da Cuíca teve a saída de cena lamentada em rede social da escola de samba Estácio de Sá, tradicional agremiação do Carnaval carioca à qual o músico, nascido em Friburgo (RJ), foi sempre associado.
Por ter morado no Morro de São Carlos desde os três anos de idade, Zeca acabou ingressando como ritmista na escola, no tempo em que a Estácio de Sá ainda se chamava Unidos de São Carlos.
Um dos 60 bambas laureados em 2007 pelo Ministério da Cultura como Baluarte do samba, Zeca ganhou a primeira cuíca das mãos de Djalma Sabiá, um dos fundadores da escola Acadêmicos do Salgueiro.
Com o ronco da cuíca, Zeca fez história. Foi um dos fundadores do grupo carioca Os Originais do Samba, criado em 1965. Como integrante do grupo, Zeca da Cuíca acompanhou Elis Regina (1945 – 1982) em 1968 na defesa de Lapinha (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1968), música concorrente na primeira Bienal do Samba.
À medida em que foi ficando (re)conhecido pela maestria no toque da cuíca, Zeca foi sendo convidado para tocar em discos e/ou shows de grandes nomes da música brasileira em time que foi dos pioneiros bambas Ismael Silva (1905 – 1978) e Cartola (1908 – 1980) até Martinho da Vila e Zeca Pagodinho, passando por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Aragão, Marisa Monte e Paulinho da Viola, entre muitos outros nomes.
Com tanta habilidade no manuseio do instrumento (“A cuíca requer ritmo e a mão sensível, pois a baqueta de bambu é fininha, pouco mais grossa do que palito de fósforo. Qualquer movimento em falso, quebra. Tudo depende da sensibilidade e do talento do instrumentista”, relativizou certa vez), ninguém duvidada que, sim, o original Zeca da Cuíca decifrou o mistério, não somente o da cuíca, mas o mistério do próprio do samba.