Zé Renato reverbera a modernidade de Orlando Silva em disco ao vivo


Álbum apresenta registro inédito de show feito pelo cantor em 2004 para reverenciar o colega antecessor da era do rádio. Capa do disco ‘Zé Renato em Orlando Mavioso sobre as interpretações de Orlando Silva’
Divulgação
Resenha de álbum
Título: Zé Renato em Orlando mavioso – Sobre as interpretações de Orlando Silva
Artista: Zé Renato
Edição: Discobertas
Cotação: * * * * 1/2
♪ Zé Renato em Orlando mavioso é álbum emergencial, mas nem por isso tem menor estatura na discografia de José Renato Botelho Moschkovich, cantor capixaba de alma musical carioca.
Posto no mercado fonográfico em formato de CD neste mês de fevereiro de 2021, na sequência imediata da edição digital disponibilizada em 29 de janeiro pelo selo Discobertas, o álbum ao vivo foi gerado em plena pandemia a partir da descoberta por Zé Renato da gravação do show de 2004 em que o artista abordou o repertório do referencial cantor carioca Orlando Silva (3 de outubro de 1915 – 7 de agosto de 1978), símbolo da modernidade do canto masculino brasileiro na era dos dós de peito.
Feita pelo engenheiro de som Sérgio Manso em junho de 2004 em apresentação do show Orlando mavioso no Centro Cultural Carioca, espaço da cidade do Rio de Janeiro (RJ) frequentado por Orlando quando a casa se chamava Dancing Eldorado, a captação do show resulta viçosa no CD e valoriza o álbum ao vivo, cuja edição foi viabilizada por produção executiva dividida entre Marcelo Fróes (diretor do selo Discobertas), Maurício Gouvêa e Memeca Moschkovich.
Ao longo das 15 músicas dispostas em 13 faixas, Zé Renato contextualiza o canto e a época de Orlando Silva com textos escritos por Flávio Marinho, diretor e roteirista do show.
Como observa o produtor Hermínio Bello de Carvalho em texto exposto na edição em CD de Orlando mavioso, cujo encarte também reproduz as letras das músicas, Zé Renato conjuga a habilidade de cantor e intérprete. Em bom português, Zé é afinado, tem emissão exemplar e, ao mesmo tempo, imprime as devidas emoções ao repertório que escolhe para cantar.
Essa múltipla habilidade é reiterada logo na interpretação da música que abre o disco, Sertaneja (René Bittencourt, 1939), cuja melancolia escorre do canto do artista em sintonia com o chamado pungente do toque do acordeom de Marcos Nimrichter.
Criados pelo próprio Zé Renato, diretor musical do show, os arranjos experimentam possibilidades para o repertório com o devido respeito às melodias, mérito do artista e da banda formada por músicos como João Castilho (violão e guitarra).
Se o pulso largo do baixo de Rômulo Gomes norteia o cantor ao remoer Mágoas de caboclo (J. Cascata e Leonel Azevedo, 1936), o toque do pandeiro de Beto Cazes fica especialmente evidenciado no registro do samba Errei, erramos (Ataulfo Alves, 1938) e dita o ritmo do estilizado samba-choro Curare (Bororó, 1940).
Até pela natureza carioca de Orlando Silva, o samba sempre marcou presença no repertório do Cantor das multidões – assim chamado quando passou a mobilizar numero público na cidade de São Paulo (SP), como lembra Zé Renato em um dos textos ouvidos no CD – e, por isso, o samba predomina na seleção do repertório de Orlando mavioso.
Alguns, como Meu romance (J. Cascata, 1938), talvez até soem conhecidos somente para estudiosos da obra de Orlando Silva. Também é o caso da marcha Cidade brinquedo (Silvino Neto e Plínio Bretas, 1939), revivida por Zé Renato ao lado de outra marcha, Cidade mulher (Noel Rosa, 1936), em medley com composições em que Orlando Silva homenageou o Rio de Janeiro natal. Detalhe: a marcha Cidade brinquedo sequer tinha sido registrada em disco por outro cantor até a edição deste Orlando mavioso.
Exceto pela interpretação acelerada de Nada além (Custódio Mesquita e Mário Lago, 1938), hábil do ponto de vista musical mas prejudicial à fruição do sentimento posto na letra do fox, nenhum reparo pode ser feito a este disco de Zé Renato, cantor afinado com o repertório da primeira era de ouro da música brasileira, como já mostrou em estupendo álbum, Arranha-céu – Sobre as músicas e interpretações de Sylvio Caldas (1994), que dialoga com o registro ao vivo do show Orlando mavioso.
E, para dar voz a esse repertório, é preciso ser cantor e intérprete. Zé Renato é ambos, seja cantando o choro-canção Carinhoso (Pixinguinha, 1917 / com letra de João de Barro, 1937), em interpretação de intensidade crescente que gera aplausos do público no meio do número do show, seja fazendo do samba Alegria (Assis Valente e Durval Maia, 1937) o momento de saudação final da apresentação, cujo roteiro, mesmo sem chegar ao disco na forma integral, faz sentido no CD.
Quando Zé Renato dá voz à valsa Caprichos do destino (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1938) com emoção contida, no arremate anticlimático do álbum ao vivo, fica claro que o cantor soube entender e preservar a modernidade do colega antecessor em Orlando mavioso.