Zé Renato amplia o recorte da nobreza de Paulinho da Viola no show ‘O amor é um segredo’


Em cena, cantor vai além do disco e adiciona ao roteiro belezas tristes do repertório do bamba. Resenha de show
Título: O amor é um segredo
Artista: Zé Renato
Local: Teatro Rival Refit (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 9 de fevereiro de 2011
Cotação: * * * * 1/2
♪ Foi nos saraus caseiros promovidos pelo pai boêmio e jornalista, Simão de Montalverne, cronista da noite, que Zé Renato travou o primeiro contato com a obra de Paulinho da Viola. Simão adorava cantar Coisas do mundo, minha nega (1968), samba que o então emergente compositor carioca inscrevera na Bienal do samba, festival dedicado ao gênero.
Lembrança desse contato inicial que cresceu, gerando no futuro artista um encantamento eterno pelo cancioneiro do bamba, Coisas do mundo, minha nega integra afetivamente o roteiro do show O amor é um segredo, apresentado por Zé Renato neste ano de 2020 com base no álbum que lançou em dezembro de 2019 com regravações de nove composições de Paulinho da Viola em seleção que priorizou sambas pouco ouvidos.
No show, que chegou à cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de sábado, 9 de fevereiro, em apresentação no Teatro Rival Refit, o cantor se mantém fiel à sonoridade minimalista do disco O amor é um segredo (2019) – calcado no toque do violão do próprio Zé com intervenções sutis de sopros e percussões – e amplia o recorte da nobreza da obra do compositor, acrescentando ao roteiro outras músicas da lavra de Paulinho e também temas alheios gravados pelo artista com elegância devidamente reproduzida por Zé Renato no disco e no show.
Afinado com a melancolia destilada com sofisticação na voz do compositor, o samba-canção Duas horas da manhã (Nelson Cavaquinho e Ari Monteiro, 1972) – lançado por Paulinho no álbum A dança da solidão (1972) – é umas das belezas tristes incorporadas ao roteiro do show O amor é um segredo.
O choro da cuíca de Paulino Dias, virtuose da percussão manuseada de forma aconchegante em cena, sublinha o desalento de Duas horas da manhã, número de tom climático. No show, Paulino Dias desempenha com maestria a função que, no disco, coube a Tostão Queiroga. Já os sopros, ouvidos no disco através do sax de Spok e do trompete de Fabinho Costa, ficam no show a cargo de outro virtuose, Eduardo Neves.
Nenhum músico pesa a mão nos toques dos instrumentos, cientes de que leveza é a senha que conduz ao universo nobre do samba de Paulinho da Viola. Cantor de emissão límpida, comprovada já no início do show com o canto a capella de Nas ondas da noite (1971) e a interpretação de Para um amor no Recife (1971), Zé Renato preserva essa leveza e a contenção ao iluminar Lua (1981) e ao reverberar a filosofia do reflexivo samba Só o tempo (1982) em abordagens introspectivas, emolduradas pelo cenário criado por Fabinho da Costa com cordas que evidenciam influência da estética do mestre Helio Eichabauer (1941 – 2018).
Dominante em cena, esse clima íntimo é naturalmente quebrado pelo coro do público em sambas mais famosos como Sei lá, Mangueira (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, 1969) e Pecado capital (1975). Os sambas mais conhecidos de Paulinho da Viola são tão sedutores que fica difícil resistir a cantarolar versos de Tudo se transformou (1970), por exemplo.
Ausente do disco, essa obra-prima é alocada por Zé Renato no show em bloco sobre o violão, instrumento presente como testemunha e confidente das paixões e desilusões do príncipe do samba. Meu violão (1982), outro samba ausente do álbum O amor é um segredo, também é surpresa do show em que Zé Renato faz em O meu pecado (Zé Kétti e Nelson Cavaquinho, 1965) – com a devida interiorização – o inventário sentimental da juventude boêmia, assunto do samba gravado por Paulinho no álbum Foi um rio que passou em minha vida (1970).
O samba em louvor à Portela que deu título a esse disco de 1970 está naturalmente incluído no roteiro, para deleite do público que se deixa levar pelo aliciante curso melódico da composição mais popular de Paulinho da Viola.
Entre partidos de alta estirpe como Pode guardar as panelas (1979) e No pagode do Vavá (1972), este revivido por Zé Renato no bis com versos improvisados para saudar a equipe do show, o cantor celebra a presença de Elton Medeiros (1930 – 2019), parceiro importante de Paulinho da Viola e artista ligado afetiva e profissionalmente à trajetória de Zé Renato, com quem Elton dividiu discos e shows.
Ame (1996) – joia da parceria dos bambas, celebrada por Zé Renato com lembranças de lados B como Vida (1975) e Sentimento perdido (1978) – encerra o show como apelo pela valorização de sentimento que, mesmo assombrado pela fantasma da desilusão, traz a felicidade almejada pelo espírito nobre do samba de Paulinho da Viola. Alma tão bem capturada em cena por Zé Renato, sob a luz sóbria de Pedro Altman, no show O amor é um segredo.
Zé Renato no show ‘O amor é um segredo’
Marcelo Castello Branco / Divulgação Produção Zé Renato
♪ Eis o roteiro seguido em 9 de fevereiro de 2020 por Zé Renato na estreia carioca do show O amor é um segredo no Teatro Rival Refit, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):
1. Nas ondas da noite (Paulinho da Viola, 1971)
2. Para um amor no Recife (Paulinho da Viola, 1971)
3. Só o tempo (Paulinho da Viola, 1982)
4. Lua (Paulinho da Viola, 1981)
5. Cidade submersa (Paulinho da Viola, 1973)
6. Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola, 1968)
7. Um caso perdido (Paulinho da Viola, 1989)
8. Meu violão (Paulinho da Viola, 1982)
9. Tudo se transformou (Paulinho da Viola, 1970)
10. Duas horas da manhã (Nelson Cavaquinho e Ari Monteiro, 1972)
11. Coração oprimido (Walter Alfaiate e Zorba Devagar, 1979)
12. O meu pecado (Zé Ketti e Nelson Cavaquinho, 1965)
13. Foi demais (Paulinho da Viola e Mauro Duarte, 1979)
14. Sofrer (Paulinho da Viola e José Carlos Capinan, 1978)
15. Minhas madrugadas (Paulinho da Viola e Candeia, 1965)
16. Sei lá, Mangueira (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, 1969)
17. Foi um rio que passou na minha vida (Paulinho da Viola, 1970)
18. Pode guardar as panelas (Paulinho da Viola, 1979)
19. Pecado capital (Paulinho da Viola, 1975)
20. Vida (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1975)
21. Sentimento perdido (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1978)
22. Ame (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1996)
Bis:
23. No pagode do Vavá (Paulinho da Viola, 1972)