Vídeo: Filha de Glauber Rocha relata ‘choro e desespero’ por descaso com acervo: ‘A gente tem que gritar junto’


Cineasta continua denunciando perda do acervo, que tinha mais de 100 caixas com material do cineasta. Ela diz que não tinha cópia do material que estava em galpão que queimou. VEJA VÍDEO. Filha de Glauber Rocha relata luta para salvar acervo do pai
Seis dias depois do incêndio do galpão da Cinemateca, a filha de Glauber Rocha ainda tenta alertar para o tamanho do estrago: “O que pegou fogo não tenho cópia. Só tenho cópia do que está no galpão que ainda não torrou”, diz Pamela Rocha sobre as mais de 100 caixas do material do pai que estavam na Vila Leopoldina.
No vídeo acima, feito após o incêndio, ela falou como G1 sobre o “choro e desespero” pela perda do acervo e disse: “A gente tem que gritar junto”.
‘Se houver possibilidade de salvar alguma coisa na Cinemateca, prazo termina nesta quarta’, diz presidente de associação
Parte do acervo do cineasta Glauber Rocha estava no galpão incendiado da Cinemateca Brasileira. Veja os 5 principais pontos logo abaixo, e leia a conversa a seguir:
Ela diz que 300 caixas do acervo de Glauber estavam com a Cinemateca. Destas, ao menos 100 estavam no galpão da Vila Leopoldina, que pegou fogo. O resto estava na sede da Cinemateca na Vila Clementino.
Mesmo antes do fogo, 100 caixas foram molhadas na enchente que ocorreu em 2020, na galeria da Vila Leopoldina, conta Paloma.
Paloma diz que tinha conversado duas vezes nos últimos meses com Mario Frias, secretário especial de Cultura, sobre o acervo, que estava sem documentação.
Entre essas conversas, ela descobriu que as caixas foram molhadas e, desde então, ligava para a secretaria toda semana, mas não conseguiu uma solução efetiva. “Até que ontem pegou fogo”.
Ela diz que ontem, ao saber do incêndio, ligou para Frias e ele não atendeu. “Em seguida, soube ele estava em Roma, falei com Hélio Ferraz [Secretário Especial Adjunto da Cultura] que não conseguiu dizer uma palavra, porque eu lhe disse boa parte do que eu te disse, só que aos urros”, diz a cineasta, inconformada.
Cartaz de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ fazia parte do material que estava em ao menos 100 caixas do acervo de Glauber Rocha que já estavam danificadas após enchente em 2020, e agora estavam em incêndio no prédio da Vila Leopoldina
Reprodução / Relatório do MPF sobre os danos do acervo em 2020
G1 em 1 Minuto: Famosos e autoridades lamentam incêndio em galpão da Cinemateca Brasileira
“Fiquei muito abalada. Ontem tive uma crise de choro e desespero sem saber o que estava acontecendo”, lamentou Paloma.
Na noite desta quinta-feira (29), um incêndio atingiu um galpão da Cinemateca Brasileira na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo. Segundo informações dos bombeiros, o fogo começou quando uma empresa terceirizada fazia manutenção do ar condicionado. Não houve vítimas.
Famosos e autoridades lamentam incêndio em galpão da Cinemateca Brasileira
A cineasta explicou que, em 2016, todo o material do Tempo Glauber foi enviado para a Cinemateca Brasileira após o instituto ser despejado de sua sede no Rio. Na ocasião, Paloma conta que fez a transferência de 300 caixas.
“Dentre elas, a biblioteca do Glauber e toda a documentação do Tempo Glauber. Todas as teses, cartazes originais, croquis dos cartazes do ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ desenhados por Glauber e Rogério Duarte. Estudos do ‘Cabeças Cortadas’, um material precioso de 1959, xilogravuras de Caribé, desenhos de Calazans Neto. Ou seja toda uma geração que foi formada naquela época com Geraldo Del Rey, Orlando Senna, por Helena Ines, a minha mãe”, citou Paloma, emocionada.
Parte desse material foi para o galpão da Cinemateca da Vila Leopoldina, que pegou fogo na noite desta quinta-feira (29). Outra parte, está na sede da Cinemateca na Vila Clementino.
“O Tempo Glauber era dividido em Fundo Glauber Rocha e Tempo Glauber. O Fundo Glauber Rocha tinha ido para a Cinemateca Brasileira [da Vila Clementino] e está preservado. Não queimou. Ainda. Pode queimar hoje”, lamentou, temendo que o acervo sofra nova perda.
Da perda atual, Paloma enumera: “O que pegou fogo ao que se refere ao Glauber: toda documentação do Tempo Glauber, o restauro dos filmes, os catálogos internacionais, as teses, cartazes originais, esse material todo da Bahia que já citei, isso tudo pegou fogo ontem.”
Paloma destaca que, no período entre 2003 e 2010, fez um trabalho de recuperação e digitalização do trabalho do pai.
“Eu tenho tudo digitalizado. Aqui, na [sede da] Cinemateca Brasileira, na casa de um amigo, no Arquivo Nacional e agora na Bahia. Porque eu sou paranoica. Paranoica, não. Eu trabalho com preservação.”
“A sorte é que eu tenho tudo isso guardado. Sorte ou resultado de anos do meu trabalho. Porque trabalho com preservação e trabalho com preservação da obra de meu pai, porque ela em si já é muita coisa.”
Apesar disso, na tarde desta sexta-feira (30), Paloma descobriu que o material que tem digitalizado é o que ainda está preservado na sede da Cinemateca da Vila Clementino. A parte queimada no incêndio foi perdida completamente
“A história do Brasil está queimada”
glauber rocha
Divulgação
Paloma afirma ainda que é necessário que se tome providências urgentes diante do que aconteceu. Mas questiona a ação anunciada por Mário Frias para uma investigação junto com a Polícia Federal.
Em uma postagem no Twitter, o secretário especial de Cultura do governo federal informou: “Já solicitei a perícia da Polícia Federal, que irá tomar as devidas providências para verificar se o incêndio na Cinemateca foi criminoso ou não. Tenho compromisso com o acervo ali guardado, por isso mesmo quero entender o que aconteceu.”
“Acho que é necessário que se tome uma providência realmente urgente em relação a isso. Agora, dizer que vai chamar a Polícia Federal, que vai recuperar, que vai fazer isso, aquilo, não interessa.”
“Ninguém recupera cinza. Queimou, tá queimado”, lamenta Paloma.
“A história do Brasil está queimada. A antropologia brasileira está queimada, porque lá você podia ver como as pessoas se vestiam, como é que se filmava, como é que os carros andavam como é que elas pensavam.”
Encontros com Mário Frias
Paloma contou também que nos últimos meses teve dois encontros com Mário Frias. Em um deles, informou que o Tempo Glauber estava sem contrato.
Segundo Paloma, o secretário disse que levantaria o que teria no acervo para dar sequência à documentação. Durante a espera pelo levantamento, a cineasta conta que recebeu, em março deste ano, “um processo do Ministério Público inventariando tudo o que tinha sido molhado em 2020, e que 100 caixas do Tempo Glauber estavam lá dentro molhadas.”
O incidente aconteceu durante enchente na região em fevereiro de 2020. Após fortes chuvas na cidade de São Paulo, a Cinemateca, o estúdio do fotógrafo Bob Wolfenson e alguns prédios residenciais da região ficaram alagados.
“Eu avisei a eles. A essa altura eu já estava bastante inflamada. Porque acho que esse incêndio é por conta dessa inflamação que esse governo está fazendo com os artistas brasileiros, com a saúde e tudo mais.”
“Então falaram: ‘a gente vai restaurar isso, não se preocupe’. Então toda semana eu ligava”, contou Paloma. Como resposta, ouviu que era necessário aguardar os “finalísticos”.
“Os finalísticos são os funcionários da Cinemateca que não teriam sido contratados por conta do dinheiro que estava preso, por conta de uma pendência ou por conta, talvez, de uma má vontade política.”
“E aí, foi ficando à mingua tudo isso e esses finalísticos nunca chegavam pra poder fazer esse bendito desse relatório. Até que ontem pegou fogo.”
Paloma contou ainda que na noite desta quinta-feira (29), após saber do incêndio na Cinemateca, tentou conversar com Mário Frias.
“Liguei pra ele, mas ele não atendeu. Em seguida, eu soube ele tava em Roma, eu falei com Hélio Ferraz [Secretário Especial Adjunto da Cultura] que não conseguiu dizer uma palavra, porque eu lhe disse boa parte do que eu te disse, só que aos urros.”
“Depois diz que a gente é inconformado. Agora, veja o que fazem com a gente? A gente tem que gritar junto. É como diz o ‘Terra em transe’: a gente tem que gritar. Aí o personagem pergunta: ‘gritar com o que?’. Aí, Flávio Migliaccio responde: ‘Com o que sobrou da gente, com as nossas vísceras com a nossa alma’. É o que sobrou… É isso.”

A cineasta Paloma Rocha, filha de Glauber Rocha
Reprodução/Facebook