Victor Berbara, pioneiro produtor de musicais brasileiros à moda da Broadway, morre no Rio


Também compositor, o artista multimídia deixa o nome na história do teatro ao sair de cena aos 92 anos. Victor Berbara é o autor das versões brasileiras de temas dos musicais ‘Evita’ e ‘Minha querida lady’
Reprodução / Livro ‘Victor Berbara – O homem das mil faces’
♪ OBITUÁRIO – “Não teria condições de chutar tudo para o alto para me dedicar somente ao teatro. Mas, com certeza, os momentos de maior alegria da minha vida me foram dados pelo teatro. E, embora não dirija mais no Brasil, continuo fazendo montagens na Argentina, no México, na Espanha, e só saio de um palco no dia em que morrer”, marcou posição Victor Berbara (18 de junho de 1928 – 7 de março de 2021) no capítulo dedicado ao teatro na biografia Victor Berbara – O homem das mil faces (2008), escrita por Tânia Carvalho, mas narrada na primeira pessoa por esse artista pioneiramente multimídia.
Aos 92 anos, Victor Berbara morreu neste domingo, 7, vítima de infarto sofrido na casa em que morava na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ).
Embora tenha se formado em psicologia e completado a faculdade de advocacia em 1952, o carioca Victor Berbara deixa legado vasto no campo das artes. Foi compositor – parceiro de Haroldo Eiras (1919 – 1980) em músicas lançadas no apogeu da era do rádio, casos de Porque voltei (1951), Adeus, meu amor (1952), Noite após noite (1952), Ruínas (1953) e Dizem por aí (1954) – e atuou no mercado publicitário, em emissoras de rádio (foi um dos redatores de Um milhão de melodias, programa que aglutinava as estrelas da Rádio Nacional) e na TV.
Contudo, foi no teatro, como pioneiro produtor e/ou diretor de musicais brasileiros encenados à moda da Broadway, que Berbara viveu as maiores alegrias enquanto também deu grandes alegrias ao espectador brasileiro.
“Minha vida se divide em antes e depois de My fair lady”, delimitou Berbara na narrativa autobiográfica. O produtor se referia à primeira montagem brasileira do musical norte-americano My fair lady (1956).
Em 1962, Berbara produziu a encenação de Minha querida lady em sociedade com três amigos, mas cuidou sozinho da parte artística, dirigindo o espetáculo estrelado por Bibi Ferreira (1922 – 2019) – atriz que o produtor de início achava inadequada para encarnar Eliza Doolittle até ser convencido do contrário pela mãe da artista – e assinando as versões em português de músicas como I could have danced all night (Frederick Loewe e Alan Jay Lerner, 1956), tornada Eu dançava assim no libreto brasileiro.
Minha querida lady ficou três anos em cartaz, entrou para a história do teatro e entronizou Victor Berbara como pioneiro rei dos musicais brasileiros à moda dos EUA.
Em 1965, Berbara trouxe Bibi de volta à cena em outro grande musical que seguia a receita norte-americana com produção dele, Alô, Dolly!, versão brasileira do então recente musical Hello, Dolly! (1964). A versão em português da música-título do espetáculo foi assinada por Berbara com o compositor Haroldo Barbosa (1915 – 1979).
Decorridos 18 anos, Berbara produziu um terceiro espetáculo que entraria para a história do teatro musical do Brasil, Evita (1983), protagonizado pela cantora Cláudia nos palcos nacionais cinco anos após a estreia, em 1978, do espetáculo original norte-americano.
Por triste coincidência, Claudia interpretou a música mais famosa da trilha sonora de Evita – Não chores por mim, Argentina, versão em português de Don’t cry for me, Argentina (Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, 1978) – na edição do programa The Voice + que foi ar pela TV Globo neste domingo, 7 de março, dia da saída de cena de Victor Gerbara, homem de mil faces que podem ser resumidas no amor pelo teatro, vivenciado com doses equilibradas de firmeza e paixão.
Cai o pano…