Urias faz pop eletrônico e canta sobre raiva em 1º álbum: ‘Gasolina para fazer minhas coisas’


Cantora mineira e ex-assessora pessoal de Pabllo Vittar diz que nem acredita que está lançando álbum: ‘Agora o rolê é sério’. Ouça podcast com entrevista. Urias custou a acreditar que as coisas estavam acontecendo para ela na música. “É um disco! Não é mais close, entendeu? Agora o rolê é sério”, diz ao G1, como se precisasse repetir para si mesma.
Não é que ela duvidasse do seu potencial, longe disso, é que uma carreira na arte, de maneira geral, costuma exigir resiliência. Ouça podcast com entrevista abaixo.
“Quando você é artista em ascensão ou não, tudo te leva a pensar que a arte não vai ser um meio de vida, a pensar que isso não vai te sustentar, não vai ser a sua primeira fonte de renda”, diz e comemora que, mesmo com a pandemia, vive de música.
“É muito louco pensar que com todos os meus recortes sociais, estou realizando sonhos”, continua a cantora de 27 anos, que é transsexual.
Urias é de Uberlândia (MG) e foi assessora pessoal de Pabllo Vittar, sua amiga até hoje. Ela começou fazendo covers em 2018 e no ano seguinte lançou o EP com seu nome.
Em “Fúria”, seu primeiro álbum que está sendo lançado em duas partes, ela optou por cantar sobre a raiva, um sentimento com o qual convive há muitos anos.
Urias dividiu o lançamento de ‘Fúria’ em duas partes: uma em maio e a outra no segundo semestre
Divulgação/João Arraes
“Primeiro que nunca achei na minha vida que fosse gravar um álbum. Depois, eu pensei: ‘O que eu tenho para falar?’. Pensei muito nessa coisa de querer falar de algum sentimento e entendi que era sobre a raiva e tudo que vem junto com ela, o modo como uso esse sentimento como gasolina para fazer minhas coisas”, diz.
“Você passa pelo medo de sair de casa e sofrer qualquer tipo de preconceito primeiro. Outro momento é a solidão, e, depois, chega a hora você cansa de sentir mal e percebe que não é com você. Não adianta eu me mudar todinha, mudar meu jeito de vestir, de me portar.”
“Você começa a entender que passa por isso, mas a culpa não é sua, você não fez nada e começa a te dar uma grande raiva. Foi a partir daí que eu peguei a raiva como combustível e fui fazendo as coisas acontecerem.”
Pop eletrônico e R&B
Urias canta sobre a raiva na primeira metade de “Fúria”, seu álbum de estreia
Divulgação
Depois de mostrar como os corpos trans são demonizados no 1º EP, Urias se aproxima dos animais na parte visual do 1º álbum “como forma de representar o jeito que a sociedade e o sistema animalizam seu corpo”.
Na capa da primeira metade lançada no final de maio, ela aparece ao lado de um touro, animal escolhido porque representa a raiva e a agressividade.
Como se trata do álbum de estreia, tanto ela quanto o produtor Rodrigo Gorky dizem que se sentiram livres para explorar caminhos diversos.
As músicas “Racha”, “Peligrosa” e “Cadela” são exemplos do pop eletrônico da primeira metade do disco. Já “Maserati” vai mais para o lado do rap, gênero que Urias gosta e escuta muito.
Embora as músicas sejam mais combativas, há espaço também para um R&B em forma de pedido de desculpas a um ex-namorado em “Foi Mal”.
“Queria mostrar que sou humana, que eu sinto. Ainda me coloquei em uma posição que meninas como eu não estão: a que magoou alguém”, diz.
“Nunca tinha sido amada, sabe? E quando aconteceu isso era um tipo de afeto e carinho que eu não sabia retribuir”, explica.
A segunda parte sai ainda neste ano com mais 5 ou 6 músicas. A ideia de Urias é deixar os sentimentos mais nas entrelinhas e fazer seu público refletir sobre o que está querendo dizer.
As mais fortes feitas até o momento foram colocadas neste primeiro lançamento, segundo Gorky. O objetivo era dar gás para a equipe compor e produzir faixas ainda mais interessantes depois.
Começo da carreira
Gorky e Urias em estúdio
Reprodução/Instagram/Rodrigo Gorky
Produtor também de Pabllo Vittar, Gorky lembra do momento em que a mineira falou que iria tentar começar uma carreira na música.
“Ela trabalhava com a gente, é uma das melhores amigas da Pabllo. Chegou um momento em que ela falou que ia largar a gente para correr atrás dos sonhos. Nós só falamos ‘opa, não seja por isso, vamos trabalhar juntos'”, fala.
A parceria se estabeleceu desde o EP de 2019. O produtor enxerga Urias como uma cantora pop, mas reconhece que o som é diferente do que emplaca no topo das paradas do Brasil.
“Na minha visão, a Urias é uma artista extremamente pop, mas é um pop não muito fácil. Não é um produto, uma artista que você consegue logo de cara falar ‘gostei’. Não… tem que ouvir, tem camadas”, explica.
“Acredito que a torna especial é exatamente isso: fugir desse lugar comum e desse óbvio.”
Essa fuga é um dos objetivos de Urias desde sempre. Ela já chegou a falar que procura fazer um som “estranho” propositalmente.
“Não enxergava ninguém fazendo o que eu queria fazer no Brasil, então falei que queria criar isso que vai soar estranho em um primeiro momento, mas todo mundo vai entender que é uma possibilidade”, defende Urias.
“Queria me destacar mesmo e me distanciar de tudo que estava acontecendo. Queria criar uma coisa que é só minha mesmo e com uma identidade que me representasse”.
Amiga de Pabllo
Pabllo Vittar e Urias
Reprodução/Instagram/Pabllo Vittar
Amigas de longa data, Urias e Pabllo se falam todos os dias, mas não costumam conversar sobre suas músicas que ainda serão lançadas.
“A gente continua do mesmo jeitinho, conversa muito, fala sobre os trabalhos que a gente faz. Só que a gente não mostra muito as coisas uma para a outra. A gente guarda o elemento surpresa”, diz.
“Quero ver quando lançar porque, senão, não tem mais a emoção, entendeu?”
Bom, então emoção não vai faltar porque, enquanto a parte final do álbum da Urias não fica pronta, “Batidão Tropical”, o quatro disco de Pabllo Vittar, sai na próxima sexta (25).
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