Um adeus


Maputo banhada pelo Oceano Índico
Domingos Guimaraens/Acervo Pessoal
Difícil dizer adeus quando a despedida é verdadeiramente para sempre. Se o adeus tem de ser feito a mais de sete mil quilômetros de distância não há como mitigar o sofrimento. O adeus desta vez foi para uma pessoa enorme, física e espiritualmente, se isso se pode dizer, Célia Diniz.
Conheci Célia Diniz em 1989 quando fui pela primeira vez a Moçambique para organizar, junto com o Ministério da Educação do país, um programa financiado pela Fundação Ford (FF), cujo objetivo era trazer estudantes das suas cinco províncias para cursar ciências sociais no IFCS/UFRJ, onde eu era professora titular.
Tudo era novo porque eu nunca havia me aventurado em convênios internacionais. Não estava sozinha. Fui acompanhada por Peter Fry, representante da FF e grande incentivador do projeto, e Marco Antônio Gonçalves, meu colega de departamento e do Programa de Iniciação Científica do IFCS/UFRJ, do qual eu era coordenadora. O PIC do IFCS/UFRJ foi especialmente desenhado para integrar os estudantes às pesquisas realizadas pelos professores e os moçambicanos fizeram parte do grupo que aliava o estudo à pesquisa.
Chegamos bem cedo no campus da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a única instituição de ensino superior naquela altura no país e nos dirigimos à sala onde Célia trabalhava como diretora de Planificação da UEM. Uma espécie de galpão refrigerado. A sala estava muito organizada e a “marechala”, como carinhosamente foi por nós apelidada, comandava tudo com grande eficiência.
Célia, uma mulher alta e forte, filha de Goeses, nos recebeu com um enorme sorriso e muita simpatia. Organizou nossa viagem pelas províncias em poucos minutos ligando para as pessoas certas; tarefa extraordinariamente difícil por causa da guerra civil entre o partido do governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO). Só era possível chegar às capitais de província por avião pois a guerra isolava todas as cidades das zonas rurais. Sem o planejamento logística e os valiosos conselhos da Célia o nosso projeto teria sido de fato impossível.
Ficamos amigas e mais próximas quando em 1992 fui convidada como professora visitante do departamento de História da UEM onde permaneci por três meses aprendendo a viver sozinha em uma capital da África Subsaariana. Mais uma vez Célia me salvou organizando a minha estadia e fazendo sentir-me em casa. Disponibilizou um motorista para me ajudar na locomoção e volta e meia me convidava para um lanche ou para visitá-la em sua casa.
Moçambique mudara muito. A guerra civil tinha acabado junto com o regime marxista-leninista. Moçambique havia adotado uma nova constituição liberal-democrática. Mesmo assim, Célia continuava, como até seus últimos dias, a participar da vida moçambicana com sua atuação honesta e segura na Ong Aprender sempre. Não mudou em nada sua maneira de ser. Era dessas pessoas cujos valores e atitudes são inteiramente coerentes e independem do contexto, da política ou das ideologias.
Ao longo dos anos fomos nos correspondendo mais ou menos uma vez por ano. Célia me enviava uma carta-relatório com muitos detalhes e com sua verve de sempre. Uma vez esteve no Brasil, porém não conseguimos nos ver. A viagem, organizada pela UEM, foi, segundo ela, uma experiência e tanto. Conheceu o interior de São Paulo e ficou impressionada com a nossa “opulência e riqueza”.
Recebi uma última mensagem no final do ano passado contando sobre sua vida e sempre me informando a respeito do sucesso de nosso Programa, pois os estudantes estavam tendo uma excelente atuação como professores da UEM. Foi uma alegria enorme saber que ela aprovava nosso trabalho e estava colhendo os frutos.
No domingo 19 de janeiro à noite recebemos a triste notícia de seu falecimento em 15 de janeiro último. Uma perda imensa para Moçambique e para os muitos amigos que a admiravam tanto. Meu adeus sentido e meu abraço afetuoso para Blandina Barbosa, familiares e amigos neste momento de profunda dor.