Tropicália, Bossa Nova, Clube da Esquina e… Poesia Acústica. Rap de barzinho é mais um hit coletivo


Sucesso do canal carioca Pineapple Storm confirma tradição brasileira de compor e cantar em grupos. Podcast ouve quem está por trás do projeto e explica esta tendência do hip hop. Tem gente que ama e tem gente que odeia o Poesia Acústica. Mas ninguém nega o sucesso deste projeto que une rappers em um som mais acústico e por vezes romântico, na ativfa desde 2017.
E tem mais: você já parou pra pensar que ele tem algumas semelhanças com movimentos que ditaram rumos da música brasileira, como a bossa nova, por exemplo? A comparação não é assim tão absurda e o podcast acima acima explica isso.
Mas que rap é esse?
O Poesia Acústica é uma série de vídeos musicais do canal carioca pineapple storm, que também faz o Poetas no Topo. Esse também tem times de rappers, mas sem a pegada acústica.
POESIA ACÚSTICA: G1 já explicou como é o projeto
Com esses dois projetos como principais frentes, o canal tem hoje mais de 2 bilhões de visualizações. Só os nove vídeos do Poesia Acústica já foram vistos mais de 1 bilhão de vezes.
São números excelentes, ainda mais quando se pensa que vários dos artistas são desconhecidos do grande público.
Poesia Acústica 9 com Djonga, Filipe Ret, Xamã e outros rappers
Reprodução
“Eu acho que é um dos projetos mais relevantes em questão de alcance, de visibilidade, da música hoje em dia no brasil, especialmente por ser algo orgânico”, analisa Paulo Alvarez, o criador do Poesia Acústica, em entrevista ao G1.
“Não tem nenhum tipo de envolvimento com uma gravadora grande, investimento em publicidade, apoio da grande mídia. Especialmente em relação ao youtube. Com certeza, no youtube, é o maior projeto musical no brasil.”
Rap acústico não é novidade
Mas ele não inventou o rap acústico, é claro. Nos anos 90, a mtv americana já fazia um acústico com rappers no programa “Yo”. E, aqui no brasil, esse sub gênero já vinha crescendo desde 2012, 2013, com a força de grupos como o oriente e o 3030.
Esse formato com MCs reunidos alternando rimas numa mesma base também já existia. Ele se chama cypher.
Lord, Choice, Maria, Sant e Tiago Mac durante sessão do projeto Poesia Acústica
Divulgação
“Assim como o acústico, os cyphers também estavam numa tendência forte entre a metade de 2016 e o final de 2017. Nessa época, surgiram alguns dos projetos que marcaram essa geração, como o Favela Vive, que também participei da criação”, recorda Alvarez.
“Em 2017, na verdade, estava existindo essa tendência dos acústicos de novo. A gente não pensou: ‘vamo fazer um som comercial, um bagulho pra estourar. Vamo fazer um acústico pra seguir a moda’. A gente só, como a maior galera, sentiu vontade de fazer.”
Ele diz que o Poesia Acústica e o projeto logo “caiu no gosto popular”. “Não acho que tenha mudado a cena, eu acho que se tornou uma nova vitrine bem diferente pros MCs, com alcance bizarro.”
Ele lembra que quando criou o Poetas no Topo queria mostrar a união de então novos nomes como BK e Djonga. “O BK já mais consolidado, com o primeiro álbum dele, e o Djonga surgindo avassalador ali, na segunda metade de 2017.”
“Eu sabia que essa união tanto eu quanto todo fã de rap queria ver. Eu tinha acesso aos dois e diz acontecer.”
Rap para quem não é fã de rap?
Rappers cantam no projeto Poesia Acústica
Divulgação
No Poesia Acústica, letras de amor, um tema universal, ajudam a atrair muitos fãs de outros estilos. A mistura das rimas do rap com o funk, samba, MPB também contribui com isso. Tem até quem diga que é o rap de barzinho.
O fato é que esse potencial agregador dos cyphers deu muito certo no Brasil, porque está inserido em uma tradição da música brasileira.
Desde o começo da Bossa Nova, nos anos 50, artistas do Brasil já se reuniam em turmas pra criar as rimas que mudariam para sempre a música.
“O poesia acústica reverbera uma tradição que vem desde sempre na música brasileira”, analisa Mauro Ferreira, crítico e blogueiro do G1.
“Dá pra citar a Bossa Nova porque, apesar da figura proeminente do João Gilberto, o movimento em si surgiu em grupo, em apartamentos. As pessoas se reuniam pra ouvir músicas, trocar informações, ouvir novidades e também compor. Já era um indício que a música brasileira é um pouco gregária. ”
O Clube da Esquina veio mais tarde, no início dos anos 70, tendo o álbum duplo de 1972 como marco. O coletivo mineiro é outro bom exemplo:
“Milton Nascimento é a figura central, mas o Clube da Esquina só existe por ser um coletivo. Tanto que o disco fundamental, a pedra fundamental de 72, é assinada pelo Milton com o Lô Borges, que era um artista iniciante na época. Milton já era um artista consagrado. E eles assinam de igual pra igual, e outros músicos, compositores, estava todo mundo integrado num movimento.”
Mauro cita outros combos como o Pessoal do Ceará, surgido mais ou menos na mesma época. “É um movimento cultural que teve Ednardo, Belchior, Rodger Rogério, e também englobava artes plásticas, música… todo mundo ali junto. É uma tradição que eu acho que o Poesia Acústica leva adiante.”
O Paulo Alvarez, criador do Poesia, é cauteloso ao falar desse assunto, mas acha que essas semelhanças vão se provar com o tempo:
“Eu não faria comparações desses movimentos com projetos específicos na cena do rap, mas acho que a própria história do rap no brasil, quando for analisada com mais distanciamento, quando o tempo tiver passado, vai ter semelhanças com esses movimentos por causa do posicionamento de contracultura, o posicionamento político. Além disso, várias pessoas que marcaram a cena do rap vão ter seu nome marcado pra sempre na história da música brasileira.”
Ele cita Sabotage, Mano Brown, Emicida, Rashid e nomes da geração atual como Froid, Djonga e BK. “Eu acho que não só o poesia acustica ou qualquer outro projeto específico, a Pineapple vai estar lá também, com a sua parcela de contribuição.”
Como em outros casos já citados, a participação no Poesia Acústica costuma dar muita visibilidade e acabou alavancando a carreira de alguns artistas.
A hora de Orochi
Orochi
Pedro Darua / Divulgação
Orochi, nome artístico de Flávio César Castro, já era conhecido no meio do rap quando participou do Poesia Acústica 6, no fim de 2018. Mas foi logo depois, no início de 2019, que ele estourou de vez com a música “Balão”. A letra cita um episódio em que ele foi detido pela polícia por porte de maconha e desacato à autoridade.
Hoje, Orochi é um fenômeno do rap, e um dos brasileiros mais ouvidos do gênero no Spotify. “O Poesia Acústica se tornou o maior projeto do rap nacional, sem dúvidas, o projeto com maior visibilidade, que fez os números mais absurdos. É um marco no rap nacional”, diz ele ao G1.
“O público do Poesia vai muito além do rap, ultrapassou totalmente a bolha”, explica Orochi. “Muitas pessoas não entendem, ele mudou a música. É uma parada tão grandiosa que é mais fácil dizer: mudou a música, mudou o rap.”
Ele diz que o projeto é “uma forma de se tornar um artista superior, de ser visto”. “Os números não mentem”, resume.
Um banquinho e uma rima
Rapper Hungria conquistou o público com suas músicas de batida forte
Rick Miura
O sucesso do Poesia também abriu caminho pra que o rap acústico se consolidasse como um gênero bem popular por aqui. Isso acabou beneficiando outros artistas que seguem essa linha, como o Hungria Hip Hop.
“A molecada que cantava um rap mais underground, como eu, quando eles entraram com o projeto acústico, a gente começa a provar pras pessoas que a gente tem potencial de músico, potencial de fazer mudanças, de tocar com banda”, garante Hungria. “Eu acho de uma relevância extremamente importante porque a gente consegue quebrar paradigmas.”
Um outro cypher que tem crescido se chama Vergonha pra Mídia, que une funk e rap de protesto. Ele já teve duas edições.
‘Vergonha pra mídia 2’ busca repetir fenômeno que uniu funk ao rap de protesto
O rapper Salvador da Rima, um dos nomes por trás desse projeto, conta que fazer música em grupo, tem vantagens, mas os artistas também têm que saber se posicionar sozinhos no mercado.
“Junta vários nomes fortes, o pessoal vai querer escutar. Um conjunto de energias e ideias trabalhando por aquele projeto, tá ligado? Quanto mais pessoas envolvidas com energia positiva torcendo pro projeto dar certo, melhor. Fica um som bom de escutar, não fica repetitivo… Você junta vários nomes e dá uma pedrada na cara da mídia”, explica Salvador.
Ele diz que artistas também tem que investir em suas carreiras próprias. Lançar singles e clipes fora do projeto coletivo tem que fazer parte da estratégia.
Mas o coletivo não está só no rap, no funk hoje, quase todo canal grande tem seus próprios cyphers. Um para ficar de olho é o Love Acústico, que segue bem a linha do Poesia Acústica.
Com fé em Deus e ode às motos, novo ‘funk consciente’ supera letras sexuais e renova o estilo
É um projeto da Love Funk, uma produtora que ganha força no novo funk consciente de São Paulo, de mcs como o Paulin da Capital.

Arte/G1