Triunfo do coreano ‘Parasita’ abre uma nova era no cinema


Vitória de Bong Joon-ho quebrou 92 anos de tradição em Hollywood ao premiar filme não falado em língua inglesa na categoria principal neste domingo (9). Filme sul-coreano Parasita é o maior vencedor do Oscar 2020
A vitória inédita no Oscar alcançada pelo filme sul-coreano “Parasita”, do diretor Bong Joon-ho, quebrou 92 anos de tradição em Hollywood e abre uma nova era para filmes coreanos e estrangeiros no primeiro plano do cinema mundial.
“Parasita”, que conta a infiltração de uma família pobre em uma casa rica, conquistou no domingo (9) quatro prêmios no Oscar – melhor filme, melhor diretor, melhor filme internacional e melhor roteiro original – tornando-se o primeiro filme de língua não-inglesa a levar o principal prêmio de Hollywood, desde que esses prêmios foram criados em 1929.
“O diretor Bong não apenas muda a história cultural sul-coreana, mas também a história de Hollywood”, afirmou nesta terça-feira em editorial o maior jornal do país, Chosun Ilbo.
A Academia tem estado “obcecada com filmes em inglês feitos por brancos”, acrescenta, tornando “mais difícil para um coreano ganhar um Oscar com um filme falado em coreano do que ganhar o Prêmio Nobel de Literatura”.
Filme ‘Parasita’ abre a programação que ocorre até quarta-feira (15) no CIC
Divulgação
Os prêmios recebidos por “Parasita” anunciam a “chegada de uma nova era” e isso gera “um tremendo potencial” para filmes estrangeiros nos Estados Unidos, afirma Gina Kim, professora da UCLA e diretora de cinema.
Hollywood “continua a prevalecer e domina a indústria cinematográfica mundial”, afirma à AFP. “É notório que não permitia que filmes em língua estrangeira entrassem em seu pátio. Com o sucesso de ‘Parasita’, isso muda”.
Trailer de ‘Parasita’
Após sua vitória, o diretor sul-coreano disse à imprensa que as pessoas do planeta estão cada vez mais conectadas.
“Assim, um dia chegaremos a uma situação em que não importa se um filme é falado ou não em uma língua estrangeira”, acrescentou.
Presença crescente
O histórico prêmio a Bong coroa o ano de 2019, no qual se comemorou o 100º aniversário do cinema sul-coreano.
A Coreia do Sul possui a quinta maior indústria cinematográfica do mundo, e sua presença está crescendo nos últimos anos e décadas no circuito de festivais ao redor do planeta.
Coreia do Sul celebra Oscar de ‘Parasita’ com choro e agradecimentos a Bong Joon-ho
Em 2004, o filme de ação de Park Chan-wook, “Oldboy”, venceu o Grand Prix em Cannes. Além disso, o drama do diretor Kim Ki-duk, “Pieta” (2012), ganhou o Leão de Outro de Veneza.
Sul-coreanos celebram conquista de “Parasita” no Oscar 2020. Longa se tornou o primeiro não falado em língua inglesa a vencer como Melhor Filme.
AP Photo/Ahn Young-joon
O cinema sul-coreano também foi convidado para Hollywood em 2013, com o terror psicológico de Park Chan-wook “Segredos de Sangue”, com Nicole Kidman e Mia Wasikowska, e com “Expresso do Amanhã”, do próprio Bong, um filme de ficção científica distópico com Tilda Swinton e Ed Harris.
A indústria cinematográfica do país teve um renascimento nos anos 90, com o surgimento da democracia após décadas de ditadura militar.
O Oscar de Bong “é uma ocasião inesperada para o cinema sul-coreano valorizar todos os talentos que viu nos últimos anos”, observa Jason Bechervaise, professor da universidade sul-coreana Soongsil Cyber.
A receita sul-coreana é, sem dúvida, uma homenagem à liberdade e ousadia de seus artistas. Em 2007, o ex-presidente Kim Dae-jung havia insistido com o governo: “Ofereça apoio financeiro a artistas, mas acima de tudo nunca intervenha em seus trabalhos. Assim que o governo interfere, as indústrias criativas quebram”.
Elenco de ‘Parasita’ faz selfie no tapete vermelho do Oscar 2020
REUTERS/Mike Blake
O sucesso de “Parasita” também despertou grande entusiasmo na diáspora asiática da América do Norte, causando grandes reações de alegria pelo autor coreano-americano Min Jin Lee e pela atriz Sandra Oh.
A representação de asiáticos nos filmes de Hollywood “ainda é muito esporádica”, apesar do sucesso em 2018 da comédia romântica “Podres de Ricos”, com apenas atores asiáticos, lembra Michael Hurt, sociólogo da Universidade de Seul.