Trio The Baggios se ilumina no álbum ‘Tupã-Rá’ quando o discurso tem o mesmo peso do som


Grupo sergipano cai no samba e conecta o nordeste do Brasil à África no quinto disco de músicas inéditas. Capa do álbum ‘Tupã-Rá’, do grupo The Baggios
Esculturas de Marlon Delano em foto de Marcelinho Hora
Resenha de álbum
Título: Tupã-Rá
Artista: The Baggios
Edição: Toca Discos / Alfafonte
Cotação: * * * 1/2
♪ Quinto álbum de estúdio do trio The Baggios, Tupã-Rá expande o território musical deste grupo sergipano, hábil na conexão do blues-rock norte-americano com a rítmica arretada da música do nordeste do Brasil.
A batida de samba que embasa Espelho negro (Júlio Andrade) – sem diluir a incisiva pegada do power trio formado por Gabriel Perninha (bateria), Júlio Andrade (voz e guitarra) e Rafael Ramos (piano, órgão e baixo) – exemplifica a disposição do grupo The Baggios para entrar em outras rodas com Tupã-Rá sem perda da contundência do discurso que, no caso da letra de Espelho negro, reflete sobre a injustiça que vitima o povo preto e pobre do Brasil.
Na abertura de Tupá-Rá, disco gravado entre março e julho de 2021 em estúdios de Aracaju (SE) com produção musical capitaneada por Júlio Andrade, a faixa Chegança (Júlio Andrade) cai em suingue que remete à música tradicional da Etiópia, erguendo ponte entre a África e o nordeste do Brasil.
No caso, a inspiração de Chegança é manifestação popular de São Cristóvão, cuja dança representa antigo embate entre os mouros, vindos do norte da África, e os cristãos que habitavam o nordeste brasileiro.
A propósito, por mais que se espraie por outras latitudes, Tupã-Rá é álbum enraizado no sertão nordestino, como já sinalizara em maio o primeiro single, Baggios encontra Siba (Júlio Andrade e Siba Veloso), acelerada música de título autoexplicativo que efetivamente junta o trio com o cantor e compositor pernambucano Siba Veloso, artista projetado nos anos 1990 como guitarrista e rabequeiro da banda Mestre Ambrósio, cujo som ecoa em Tupã-Rá.
The Baggios lança o quinto álbum, ‘Tupã-Rá’, na quinta-feira, 4 de novembro
Marcelinho Hora / Divulgação
Mais reconhecível na discografia da banda, a incisiva pegada roqueira de Barra pesada (Júlio Andrade e Chico César) embute repente, as vozes dos paraibanos Chico César e Cátia de França e a aguda consciência da fratura social que aniquila o povo brasileiro em inglória luta de classes. Barra pesada é o maior destaque da safra autoral dos Baggios em 2021.
Já o coro de Avia menino! (Júlio Andrade) remete de longe ao canto das benzedeiras que povoam a região nordeste. A faixa dura pouco mais de um minuto.
Após pistas dadas por quatro singles, entre eles Clareia trevas (apresentado em julho com música de Júlio Andrade) e Deixa raiar (lançado em setembro com outra composição de Júlio Andrade), o álbum Tupã-Rá chega ao mundo digital na quinta-feira, 4 de novembro, em edição do selo Toca Discos distribuída via Altafonte, com capa que expõe esculturas de Marlon Delano em foto de Marcelinho Hora.
Apresentado como o último título de trilogia formada pelos álbuns Brutown (2016) e Vulcão (2018), Tupã-Rá mantém afiada a pegada sonora do trio ao longo das 12 músicas do disco.
A coesão do som fica clara na roqueira Senhor dos passos (Júlio Andrade) e na solar Sun rá (Júlio Andrade), mas o trio ameniza o tom do discurso em músicas como Digaê! (Julio Andrade, Gabriel Perninha, Rafael Ramos), faixa em que o grupo deixa a politização momentaneamente de lado para esboçar afago fraterno em tempos de isolamento.
A intenção é boa e louvável no momento delicado da humanidade, mas é quando o som fica tão pesado quanto o discurso que o trio The Baggios mais se ilumina no álbum Tupã-Rá.