Trio Não Recomendados potencializa o discurso libertário com a sonoridade pop eletrônica de EP sobre o mundo gay


Capa do EP ‘Não Recomendados’, do trio Não Recomendados
André Hawk com arte de Flávio DX
Resenha de EP
Título: Não Recomendados
Artista: Não Recomendados
Edição: Edição independente do artista / Altafonte
Cotação: * * * *
♪ Formado pelo cantores Caio Prado, Diego Moraes e Daniel Chaudon, o trio Não Recomendados vem marcando posição política na frente LGBTQIAP+ desde que entrou oficialmente em cena em 2014, impulsionado pelo hino queer Não Recomendados (Caio Prado, 2014), nome do grupo e do disco que chega esta semana ao mundo digital com capa que expõe arte criada por Flávio DX a partir de foto de André Hawk.
Em rotação a partir de quinta-feira, 15 de julho, o EP Não Recomendados firma a atitude do trio ao longo de seis músicas que totalizam 17 minutos. No disco, o carioca Caio Prado, o brasiliense Daniel Chaudon e o paulista Diego Moraes versam sobre liberdades e lacrações com foco no universo gay masculino.
A diferença é que, no disco, o trio se distancia da MPB – mote de parte do repertório dos shows do grupo – e se alinha com o miscigenado pop eletrônico que domina a indústria da música.
Geralmente vibrante, a sonoridade do EP Não Recomendados é mérito da produção musical orquestrada por Juliano Valle com programações e synths harmonizados com o toque da guitarra de Jackson Almeida. O som potencializa a atualidade do discurso.
Trio Não Recomendados dá voz a seis músicas em EP programado para quinta-feira, 15 de julho
André Hawk / Divulgação
“Vou impitimar você”, avisa o trio com a latinidade que embala o refrão de Impitimá (Caio Prado, Daniel Chaudon, Diego Moraes e Fequim), mix de reggaeton e pagodão eletrônico. Reforçando o tom crítico do trio, a letra da música versa sobre incompatibilidade de casal de ideologia política divergente. “Eu quero você, mas você acha que bandido morto é bom”, argumenta o parceiro descontente com o conservadorismo político do companheiro.
Sobre a batida do funk Discreto, fora do meio (Caio Prado, Daniel Chaudon e Diego Moraes), o trio perfila gay preconceituoso que discrimina homossexuais mais afeminados, tentando se enquadrar visualmente no padrão heteronormativo masculino. Na música Em nome do tesão (Daniel Chaudon), o assunto é a liberdade sexual em relacionamento que se abre para outras possibilidades de prazer fugaz sem deixar de provocar dissonâncias no casal.
Única regravação do EP, Avesso (Ceumar e Alice Ruiz, 2003) ressurge com a bela harmonização vocal já vista em shows do trio, com evocações do grupo Doces Bárbaros, uma das inspirações musicais e libertárias do grupo.
Reforçando o viés político do repertório, Pink money (Caio Prado, Diego Moraes e Rael Barja) lembra que o colorido do arco-íris gera renda na sociedade. “Fossa gay é pink money”, alerta o trio em faixa que embute citação da balada Over the rainbow (Harold Arlen e Edgar Yipsel, 1939).
Enfatizando o tom pop eletrônico do disco, Baile (Caio Prado) acena para o universo dance no fecho do EP Não Recomendados, batendo mais uma vez na tecla da liberdade. “Teu ranço não vai censurar minha voz, meu corpo”, avisam Caio Prado, Diego Moraes e Daniel Chaudon, com a atitude que legitima e sustenta o empolgante disco do trio.