Tributo a Jorge Salomão se justifica quando parceiros traduzem em música a fúria e a folia do poeta pop


Áurea Martins, Chico Chico, Dani Black, Mônica Salmaso, Wanderléa e Zeca Baleiro sobressaem no disco gravado sob direção artística de Luiz Nogueira. Capa do álbum ‘Poéticas – Jorge Salomão’
Elena Moccagatta com arte gráfica de Claudia Lammoglia
Resenha de álbum
Título: Poéticas – Jorge Salomão
Artistas: Almério, Áurea Martins, Chico Chico, Dani Black, Jorge Salomão, Jussara Silveira, Khrystal, Mônica Salmaso, Patricia Mellodi, Renato Braz, Roberto Frejat, Wanderléa, Zeca Baleiro e Zélia Duncan
Edição: Selo Sesc
Cotação: * * * 1/2
♪ “Viver é fúria e folia / Rumo ao mágico”, sentenciou Jorge Salomão em versos do rock Fúria e folia (1992), composto com Roberto Frejat e apresentado pelo Barão Vermelho como a faixa de abertura de álbum, Supermercados da vida (1992), lançado pela banda carioca há quase 30 anos.
Esses versos sintetizam a alma inquieta do baiano cosmopolita Jorge Dias Salomão (3 de novembro de 1946 – 7 de março de 2020), poeta e letrista de música projetado na década de 1980.
Morto no ano passado, o artista chegou a acompanhar em novembro e dezembro de 2019 as gravações do álbum Poéticas – Jorge Salomão, tributo feito sob a direção artística de Luiz Nogueira e lançado pelo Selo Sesc em edição digital que aporta nos aplicativos de música a partir de sexta-feira, 13 de agosto.
No disco, formatado sob direção musical de Mario Gil, o rock Fúria e folia ressurge sedutor com a voz e a guitarra de Dani Black, um dos 13 cantores convidados a gravarem músicas com letras de Jorge Salomão. Fúria e folia é música cuja melodia está em sintonia com a poética incandescente de Salomão.
Abordado com propriedade por Zeca Baleiro, o blues Comendo vidro (1992) – de melodia composta por Guto Goffi e lançada pelo Barão Vermelho no mesmo álbum Supermercados da vida que o grupo apresentou o rock Fúria e folia – é outro exemplo feliz de afinidade entre música e letra.
Contudo, entre as 15 faixas do álbum Poéticas – Jorge Salomão, há casos em que o pulso das letras parece (bem) mais forte. Aquela estrada – música inédita que abre a parceria de Alexandre Rabello com Jorge Salomão – se alonga na interpretação de Zélia Duncan, em arranjo do guitarrista Webster Santos, cujo violão aponta a trilha folk da faixa.
Em contrapartida, Só quero cantar (1991) – música obscura da parceria de Nico Rezende com letra de Salomão, mas não inédita em disco, como informa erroneamente o release do tributo – se espalha pela mente do ouvinte através da garganta privilegiada de Áurea Martins, aberta e vocacionada para o canto dessa música que acende o fogo da obra do poeta.
Nico Rezende, cabe lembrar, é o parceiro de duas das mais conhecidas composições da obra musical de Jorge Salomão. Lançada na voz de Marina Lima, intérprete precisa da letra em que Salomão faz poéticas divagações existencialistas, Pseudoblues (1987) é composição elevada por Mônica Salmaso a outro patamar em gravação arranjada por Webster Santos e apresentada em 9 de julho como primeiro single do disco.
Pseudoblues é do mesmo ano em que Zizi Possi propagou Noite (1987), joia de alto quilate pop da obra de Nico com Salomão. No disco Poéticas – Jorge Salomão, Renato Braz ambienta Noite em clima que aproxima a canção do universo da música de câmara com arranjo de Mario Gil. Por maior cantor que seja, Braz encara Noite sem reverberar “toda a explosão” do refrão.
Já Almério espalha o fragmento da sensibilidade do poeta que embala Sudoeste (Adriana Calcanhotto e Jorge Salmaso, 1994), faixa cujo toque da sanfona de Guilherme Ribeiro sopra o vento para o nordeste, terra do artista pernambucano.
Único intérprete que marca dupla presença no disco, Almério também dá voz a uma música, É tudo ficção (Nico Rezende e Jorge Salomão, 1989), em que o letrista pareceu ecoar a poética mais crua e incisiva de Cazuza (1958 – 1990), então no auge da criatividade. Pena que o pulso da letra de Salomão soe mais forte do que a música de Nico.
Nessa mesma frequência entre música e letra, Sou um anjo (Zé Ricardo e Jorge Salomão, 1989) é faixa valorizada pela interpretação de Wanderléa, à vontade no suingue sinuoso da música. Da mesma forma, o canto cristalino de Jussara Silveira é o farol que ilumina o percurso da música Do sertão ao mar (1999), outro título pouco ouvido da parceria de Salomão com Zé Ricardo, também coautor de Vários em um (2011), música que cai em suingue tropical com vibrante arranjo de Webster Santos e com a voz de Patrícia Mellodi.
Já Chico Chico faz valer o d.n.a. da mãe Cássia Eller (1962 – 2001) ao descortinar Olhos fechados, música inédita que abre parceria de Laura Finocchiaro com Jorge Salomão em gravação que contrasta o canto vigoroso de Chico com o delicado salpicar de notas do piano de Guilherme Ribeiro. Com arranjo de Cezinha Oliveira, a cantora Khrystal faz Política voz (1990), rock da obra do poeta com Roberto Frejat.
Tributo que se tornou póstumo e que propaga a voz do homenageado, ouvida na récita de versos de Poéticas sobre a percussão de Guello e a flauta soprada por Daniel Allain, o álbum Poéticas – Jorge Salomão fecha com Todas as manhãs, música composta por Frejat a partir de versos de Salomão e gravada pelo próprio Frejat neste tributo a um poeta que, a cada amanhecer, gritava por “viver alegre feito um moleque” com a fúria e a folia nem sempre traduzidas em música pelos parceiros do artista.