Tones and I critica ‘hits para mexer a bunda’ e explica veto a versão funk de ‘Dance monkey’


Australiana virou revelação mundial após ‘Dance monkey’ estourar com dancinhas virais no TikTok. Mas, ao G1, ela diz que moda do app afeta ‘brutalmente’ a música ‘séria’; ouça podcast. As dancinhas virais que ajudaram a transformar “Dance monkey” em hit mundial não têm graça para a dona da música. O podcast G1 Ouviu descobriu que a australiana Tones and I não está satisfeita com essa história de “sucesso de TikTok”. Ouça acima a entrevista.
Em entrevista ao G1, Tones and I reclamou da onda de “hits para mexer a bunda” que fazem sucesso no aplicativo de vídeos. “Se você escreve qualquer coisa que é séria de verdade e tem sentido, isso não importa”, ela desabafa.
A cantora também explica por que vetou todos os remixes de “Dance monkey” – inclusive a versão brega-funk que sua gravadora tinha encomendado para o DJ brasileiro JS O Mão de Ouro. Ela queria testar onde a música chegaria do jeito dela. E “Dance monkey” foi longe…
A australiana Tones and I
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A música chegou ao primeiro lugar em mais de 30 países. No Brasil, foi uma das mais tocadas do semestre, um feito raro na competição com sertanejos. O clipe já foi visto mais de um bilhão de vezes no YouTube.
Hoje, ela diz, “tudo é remixado e acaba soando do mesmo jeito”. A cantora, que começou tocando na rua e virou uma das grandes revelações do pop nos últimos anos, diz que a fama não é sua escolha. “Não ligo se nunca mais tiver outro hit”, ela afirma.
A conversa ajuda a conhecer a contestadora Tones and I, mas também indica dilemas de todo artista hoje: Tentar ou não embarcar na nova moda viral? Apostar numa fórmula vencedora ou mudar? Dá para dizer não para gravadoras e executivos?
Leia a entrevista completa abaixo:
G1 – Você postou no Instagram outro dia que sente falta de Byron Bay, a praia em que você tocava na rua e onde vivia na sua van. Do que sente mais falta?
Tones and I – De tudo. Eu amava viver na minha van, era uma escolha. Saí do meu trabalho e arrumei uma van para fazer isso. E eu queria pedir dinheiro na rua, era o que planejei. Não fiz uma decisão de ficar famosa. Eu fiz isso por mim mesma.
Não foi para ter uma música número 1, ou algo assim. A única coisa que eu queria era viver na minha van na minha bela cidade e tocar música na rua.
Sei que, olhando para trás, muita gente pensa que era doideira. Mas é isso que te faz feliz: fazer o que você quer, não o que os outros pensam que é certo.
G1 – Aqui no Brasil você ficou muito marcada por essa música dançante, mas não se fala muito das suas letras, que são sérias. Existe essa intenção de fazer dançar e pensar?
Tones and I – Minha primeira música, “Johnny run away”, é sobre o meu amigo saindo do armário para o pai dele quando era novo. “The kids are coming” é sobre aquecimento global, antirracismo, anti-bullying. Acho importante escrever músicas com conteúdo.
“Dance monkey” é sobre quando eu tocava na rua. Eu só repetia o que as pessoas diziam para mim. Literalmente toda a música são anotações. Não sei como ficou tão dançante. Eu queria fazer um refrão com “bass drop” [recurso comum na música eletrônica, em que o contrabaixo é destacado], um refrão minimalista com uma linha de baixo. Acabou sendo nessa música. E funcionou.
G1 – Então a mensagem veio primeiro, e a parte dançante depois?
Tones and I – Exato. Pelo fato de eu escrever minhas músicas e letras, toda as faixas que lancei começaram como baladas. Escrevo ao piano e depois adiciono o resto. “Dance monkey” começou como uma balada. Tem uma versão dela no meu Spotify, no começo era assim.
Tones and I: australiana chega ao 1º lugar do Spotify com ‘Dance Monkey’
G1 – Você apresenta uma geração nascida nos anos 2000 em ‘The Kids are Coming’. Como ela é diferente das outras?
Tones and I – É difícil, pois eu não escrevi a palavra “geração” nessa música. Há uma alusão a ela, mas eu acredito que há muitas pessoas mais velhas que não tiveram uma chance de se expressar e se assumir, e é importante não excluí-los dessa música.
Há muitas pessoas que têm 70 anos e só agora podem falar “eu fui gay durante toda a minha vida, mas nunca disse nada”.
Mas, sim, a música mostra que eu acredito que as gerações mais novas vão mudar o mundo. Não necessariamente esta, mas também a que vem depois, e a outra. Está tudo louco agora. Mas acho que a gente evolui, as coisas mudam. Espero que a gente vá na direção correta.
G1 – E eu espero que você esteja certa. Sobre outra música ‘Never seen the rain’, você canta com uma voz diferente. Mais calma, menos alta. Por quê?
Tones and I – Não acho que eu tenha vozes diferentes… [ela começa a cantar pedaços de Dance Monkey e de Never seen the rain para testar]. Na verdade “Never seen the rain” é mais alta.
Tones and I
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G1 – Mas você acha que é mais calma?
Tones and I – É uma música mais lenta, mais triste do que feliz. Eu posso cantar de um jeito maior, ou menor, arranhado, limpo, mas o som da minha voz vai ser sempre o mesmo, porque eu não imponho uma voz. Ela é assim. Se eu fosse cantar “Dance Monkey” com a voz que eu falo seria [canta de novo, de um jeito não muito diferente da música]. É a única voz que eu tenho.
G1 – Seu EP tem personagens que aparecem em várias músicas, como o Jimmy, que tem uma música com o nome dele e também está em ‘Johnny Run Away’. De onde surgiu isso?
Tones and I – Na verdade, meu EP todo era para ter nomes de personagens, com histórias reais sobre pessoas. Seja eu mesma, com nomes diferentes, ou pessoas que eu conheço. E elas iam estar em músicas diferentes.
Como o Pete, que aparece em “Johnny Run Away” – ele ia ter sua própria música. Escrevi uma sobre uma garota chamada Georgia. Mas o que aconteceu foi que escrevi “Kids are coming” e “Never seen the rain”, e isso ferrou tudo [risos]. Porque eu queria elas no EP, e aí não poderia ser só com os nomes.
G1 – Dance Monkey foi hit no TikTok antes de estourar em outros serviços. Por que as pessoas gostaram tanto lá?
Tones and I – Para ser sincera, eu nunca tinha usado o TikTok, e quando as pessoas me falaram o que era e que a música estava lá, eu não tinha ideia. Comecei a ver mais recentemente, mas não entendo. Até sei como funciona.
Mas o que eu não entendo é porque você bota milhares de pessoas para fazer a mesma coisa, a mesma dança, um milhão de vezes, e chama isso de entretenimento. Não entendo esse conceito.
G1 – Mas você tentou entender?
Tones and I – Sim, de verdade… Sei que de alguma forma você acha que eu deveria ser grata por ele.
O app em si é ok. Mas ele virou algo que está afetando brutalmente a indústria musical. De um jeito que, se você escreve qualquer coisa que é séria de verdade e tem sentido, isso não importa. Só escreva uma música sobre mexer a bunda e você tem um hit.
E não é essa a influência que quero ter no estúdio. Sei que “Dance monkey” foi uma música séria que eu escrevi e que viralizou no TikTok, mas não posso pensar nisso. Preciso escrever para mim mesma. Acho que tem muita música no TikTok sem conteúdo, então quando você escreve, não pode pensar nisso.
G1 – Mas parece que tem muita gente pensando nisso. Para você, isso pode tornar a música pop mais superficial?
Tones and I – Acho que sim. Se eu pensar: “Humm, tenho que escrever uma música viral no TikTok”, eu poderia fazer outra se quisesse. Mas ia ter que viver comigo mesma. Não vale a pena.
Porque eu não me respeitaria se eu escrevesse uma música só para o TikTok, então eu nunca vou fazer.
G1 – Aqui no Brasil, no final do ano passado, sua gravadora encomendou um remix oficial em ritmo de funk de ‘Dance Monkey’. Passou por você? Porque, no fim, a música nunca saiu…
Tones and I – O motivo é que eu disse pessoalmente que se a minha música chegasse a algum lugar, seria 100% por causa de mim e do jeito que escrevi. Acho que é completalmente justo. A música alcançou tantas coisas, e tenho certeza que nunca foi por causa de um remix.
Foi a segunda música que eu lancei, e eu queria ter algo para mim. Mesmo que nunca tivesse chegado onde chegou, pelo menos eu saberia que o jeito que eu escrevi a música, o jeito que eu cantei, que eu gravei, foi o que levou ao sucesso. Então eu disse não para todos os remixes.
Tones and I
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G1 – E foi difícil, para uma artista tão jovem, nos seus primeiros passos, dizer não? Qual foi a reação quando você disse não? Porque parece uma coisa importante e difícil de dizer, para uma artista que se tornou grande como você. Como foi?
Tones and I – Aí é que está. Eu ouvi que ninguém no Reino Unido ia ouvir minha música no rádio a não ser que eu fizesse um remix. E eu disse não, falei que eu confiava na música. E quatro semanas era número um. Isso antes de entrar no rádio.
Ter um pouco de fé em si mesmo e no que você faz e na autenticidade é importante. Porque tudo é remixado e acaba soando do mesmo jeito (risos).
Se alguém quiser escrever uma música como “Dance Monkey”, vai lá, faça. Mas não pegue minha música, aceite como ela é. Se alguém quiser escrever uma música bombante para beber e dançar, tem um milhão por aí. Há muitos remixes honestos feitos que muitas pessoas amam. Outras odeiam.
Mas em termos do que eu quero fazer por mim mesma, e o que é importante para mim, acho que tomei a decisão certa. Agora que eu já lancei oito músicas, posso fazer algum remix. Mas aquela era só a segunda. E eu provei que posso fazer algo por mim mesma.
G1 – Você disse que não escreve música para o TikTok. No fim das contas, por que você faz músicas?
Tones and I – Tento tirar um sentimento ou emoção de mim. Mas é para mim, ou para os meus amigos, para as pessoas que eu amo, para meus fãs.
Não ligo se não tiver nunca mais outro hit. Eu queria ser uma uma artista de rua, esse era meu sonho. Então estou orgulhosa, e não quero me sentir pressionada.
Estou escrevendo um disco, todo dia, e não é para ninguém a não ser eu mesma.
G1 – E como a pandemia afetou esse trabalho?
Tones and I – Estava fazendo minha primeira turnê mundial, já estava tudo vendido. E aí eu tive que voltar. Mas também queria escrever um disco enquanto estava em turnê, então agora tenho a chance de fazer.
Nós escrevemos todo dia, uma música por dia, às vezes duas. E finalizamos, voltamos para as que já fizemos, pensamos nas que gostamos mais. Quando digo nós, digo eu e meus melhores amigos.
G1 – E para finalizar, você é muito querida no Brasil. O que você sabe sobre nosso país?
Tones and I – Meu artista favorito é o Macklemore, e eu vejo todos os vídeos de shows dele. Quando ouço “Brasil”, a primeira coisa que penso é que, o show dele no Lollapalooza no Brasil foi o meu favorito, de longe.
O jeito que ele fala como estava animado de estar no Brasil e de ver como as pessoas são incríveis e loucas quando se fala de shows e festivais, de se divertir… Adorei. Eu queria ir ao Brasil, e isso é um saco. Aqueles vídeos ótimos ficaram na minha cabeça, então agora fico na expectativa de cantar aí.