Tequileiras do Funk viram hit global no TikTok, mas ficam sem direito autoral


‘Sentadão’, funk obscuro de 2008, renasce em remix misterioso, faz milhões de gringos dançarem sem entender a letra e pega de surpresa as Tequileiras, que ainda não ganharam um centavo. Da esquerda, no alto: Cecília Gaspar, Débora Fantine (de cabelo rosa) e Juliana Abujanra, junto com dançarinas do clipe de “Sentadão”. O trio correu para produzir material novo de divulgação após a faixa ‘Sentadão’ estourarem um remix que elas nem sabem quem fez e como foi parar no TikTok
Divulgação / Bê Caviquioli
“Pode me dar sua sequência de pente, mas quero que aguente meu sentadão”, canta Débora Tequileira. Ao ouvir os versos, um gringo que não faz ideia do que a letra significa levanta os braços e balança as pernas. Essa cena já se repetiu milhões de vezes no TikTok.
É mais uma dancinha viral do aplicativo chinês de vídeos. Mas se as outras danças ajudaram a revelar jovens astros pop, essa esconde o nome dos autores atrás de um remix misterioso e revela falhas do TikTok nos direitos autorais.
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“Sentadão” foi lançada em 2008 pelas Tequileiras do Funk, grupo de São José dos Campos (SP). Elas queriam repetir “Surra de bunda”, que teve certa repercussão na época com dançarinas que literalmente surravam homens com a bunda. Mas a sequência não emplacou.
Doze anos depois, o funk obscuro foi parar no TikTok, com a voz das brasileiras e um remix electro assinado por um DJ desconhecido chamado Shun, intitulado “Bass da da da”. O nome das Tequileiras não aparece nos vídeos e elas não ganharam um centavo por eles.
Mesmo assim as Tequileiras celebram o sucesso com delay. O grupo já tinha desistido de se sustentar com música e entrou no mercado erótico em 2018. Agora, corre atrás de ser reconhecido por “Sentadão” – em termos musicais e financeiros.
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Já foram publicados mais 2,6 milhões de vídeos com a música – alguns com poucos views, outros tocados milhões de vezes. Os primeiros registros são de 2019 e, pelas compilações no YouTube, a mania começou entre usuários chineses.
Há famosos brasileiros na onda, como Neymar (veja acima). Mas o grosso é de anônimos estrangeiros, como um senhor fazendo aniversário de 99 anos (veja abaixo). Só uma dança de soldados do exército dos EUA foi vista 5,8 milhões de vezes.
Usuários do TikTok pelo mundo repetem meme com remix de ‘Sentadão’
Tequileiras: euforia e ressaca
Débora Fantine trabalhava servindo tequila em bares de São José dos Campos quando o funk carioca pegou forte no interior de SP, no começo dos anos 2000. Com ajuda do marido e empresário, Jorge Curi, ela criou um grupo de funk e dança.
As Tequileiras do Funk chegaram à TV do Brasil e sites dos EUA com “Surra de bunda”. Na dança, “uma mulher apoia seus pés sobre os ombros de um homem para, em seguida, marretar o bumbum em seu rosto”, descreveu o extinto site Gawker.
Elas viajaram pelo Brasil e até outros países da América Latina dando as tais “surras”. A primeira dose de sucesso subiu logo, mas depois veio a ressaca. As tentativas de emplacar outras músicas, como “Sentadão”, nunca funcionaram.
Matéria sobre a ‘surra de bunda’ no extinto site Gawker em 2010
Reprodução
“Quando chegou o funk ostentação em São Paulo, no começo da década passada, o estilo das Tequileiras não combinava, e a gente começou a fazer menos shows”, conta Jorge ao G1.
Mesmo fora dos holofotes, o grupo continuou. A formação do grupo de dançarinas e cantoras foi mudando, mas sempre com a vocalista principal Débora e o empresário e compositor Jorge. O casal se sustentava com a renda deste trabalho.
“Os shows não estavam vingando, mas a gente viu que o público tinha muito interesse pela parte sensual”, diz Jorge. Em 2018, eles decidiram lançar um site em que vendem fotos e vídeos eróticos das Tequileiras.
No site, elas se apresentavam como atrizes, não mais como um grupo musical. “Foi um sucesso e graças a isso a gente conseguiu se manter, ainda mais neste momento de pandemia”, explica Jorge.
‘Sentadão’ atrasadão
Há dois meses, Débora recebeu de um amigo a notícia de que o sonho do segundo hit, que já tinha ficado de lado após mais uma década, aconteceu sem ela saber: “Sua música está tocando sem parar no TikTok”.
O casal ainda está desnorteado com o hit acidental. Correram para gravar um clipe, que deve sair na semana que vem. “Uma produção simples, por causa da quarentena”, avisa Jorge. “Fechamos contrato com uma agência musical de Portugal”, ele diz com orgulho.
Eles também tentam descobrir quem é o tal DJ que fez o remix e colocou no TikTok, se a pessoa está arrecadando algo com a faixa e que tipo de acordo podem fazer. “Já entrei em contato com editores, com um monte de gente, mas até agora nada”, ele diz.
As Tequileiras do Funk junto com dançarinas do clipe de “Sentadão”. A líder, Débora Fantine, é a de cabelo rosa
Divulgação
Um labirinto no TikTok
No TikTok, não há mais informações sobre o tal Shun, que assina o remix de “Sentadão” com o título de “Bass da da da”. No Spotify, há um perfil verificado no nome de Shun, em que foi adicionada em março de 2020 a faixa “Bass da da da”.
A única informação no perfil no Spotify é o link para uma página privada no Instagram de um americano chamado Jason Abdo, que trabalha com redes sociais. O G1 entrou em contato com ele para saber se ele é Shun ou sabe algo sobre o artista, mas não teve retorno.
No YouTube, o primeiro perfil de “Bass da da da” é do início de 2019, da página de um DJ do Vietinã, que diz na descrição ter pegado a música do TikTok. O G1 também entrou em contato para tentar saber a fonte original do remix, mas não teve resposta.
A única pista de quem pode ser Shou foi dada ao G1 por um DJ da Bélgica que se apresenta como Discandy. Ele diz que é o autor de outra faixa que está no perfil de Shou no Spotify, chamada “Tasty carrots”, publicada sem sua autorização após viralizar no TikTok.
A informação do DJ belga indica que Shou pode nem ser o autor do remix, mas apenas uma pessoa que republicou a música depois que ela já estava circulando. Nada mais é certo sobre a origem da versão de “Sentadão” que viralizou no TikTok.
O G1 também entrou em contato com a assessoria de imprensa do TikTok no Brasil para saber quem publicou o remix. Eles apenas confirmaram que o nome do artista é Shou, da editora Headass Records, e que a música também está publicada em outras plataformas.
A assessoria também disse que o TikTok também só trabalha com conteúdos musicais licenciados ou com conteúdos gerados pelos usuários em que as faixas musicais que estejam cadastradas no serviço são identificadas automaticamente, e que há um canal para reivindicar direitos.
As Tequileiras do Funk (da esquerda): Juliana Abujanra, Débora Fantine e Cecília Gaspar
Divulgação / Bê Caviquioli
Bilhões sem remuneração
Em fevereiro de 2019, o site americano Pitchfork publicou a reportagem “O grande golpe do meme musical: como o TikTok fica rico enquanto paga centavo aos artistas”. Ela descrevia como era fácil para os usuários incluírem músicas no serviço e difícil para os autores serem pagos por isso.
A Pitchfork contou como o grupo de rap iLoveFriday emplacou um dos primeiros virais globais do TikTok com a música “Mia Khalifa”, incluída no app por um fã. A empresa tinha recebido investimento de US$ 3 bilhões, mas o empresário do grupo se frustrava por não receber nada pelo hit lá.
Em 2020, o TikTok parece querer rebater essas críticas e fecha grandes acordos internacionais com editoras e distribuidoras musicais (inclusive a dona da empresa Tunecore, que tem “Mia Khalifa” no repertório) para remunerar os artistas.
Sou tequileira e não desisto nunca
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) disse ao G1 que “está em negociação com a plataforma TikTok para regularizar o uso de músicas por meio do pagamento de direitos autorais de execução pública” no Brasil.
“Temos total comprometimento com direitos autorais desde o primeiro dia de operação da plataforma TikTok no Brasil. No Brasil, temos acordos ou estamos em negociações com os titulares dos diversos direitos que envolvem o uso de música na plataforma”, diz a assessoria do TikTok.
Mesmo já fechando acordos, o TikTok é visto como trampolim para ganhar fama e chegar a outros serviços que já remuneram artistas há mais tempo, como YouTube e Spotify. O problema para as Tequileiras é que o nome delas não aparece no TikTok, nem há créditos nas outras plataformas.
“Bass da da da” teve mais de 600 mil audições no Spotify e tem centenas de vídeos que somam milhões de visualizações no YouTube, sem citar os autores brasileiros da música original.
Jorge e Débora deixaram de lado o site erótico para produzirem o clipe e voltarem a investir na música. Eles dizem que não vão desistir de esclarecer o crédito do remix e nem de seguirem a trilha do segundo hit que demorou, mas chegou.
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