Taylor Swift lança ‘Folklore’, com indie folk melancólico e letras muito bem escritas; G1 Ouviu


Oitavo álbum da cantora foi composto na quarentena, com parceiros ligados ao rock alternativo (The National e Bon Iver). Força do disco está nas narrativas que misturam vida pessoal e ficção. Muita gente disse que “Lover”, álbum de 2019, seria uma volta ao começo da carreira, com algo de country e folk. Taylor Swift daria mais atenção às letras e melodias do que às fofocas, aos clipes, à lojinha virtual. Era o primeiro disco da fase pós-pop.
Mas o que foi ensaiado no disco anterior ganha força em “Folklore”, lançado nesta sexta-feira, 17 horas após ela ter anunciado o projeto. O primeiro “álbum surpresa” da cantora americana de 31 anos dá novo rumo à carreira. É menos comercial. Apoia-se mais nas narrativas que ela canta, dos que nas que ela vive.
O oitavo álbum de Taylor nos faz lembrar o porquê de o jornal inglês “The Guardian” tê-la comparado a Bruce Springsteen. O gosto por boas narrativas aparece revigorado em “Folklore”.
Musicalmente, tirando os ótimos vocais, dava para forçar um pouco e dizer que passaria como um álbum do Death Cab for Cutie, do Wilco ou do The National.
Aaron Dessner, músico dessa banda de indie rock arrastado com vocal grave, coassina com Taylor 11 das 16 novas músicas. Parceiro da cantora desde 2014, Jack Antonoff (Lorde, Lana Del Rey) assina a coprodução geral.
Taylor Swift anuncia lançamento ‘Folklore’, seu oitavo álbum de estúdio
Reprodução/Instagram
A força está nas letras
Mas a força e a coesão de “Folklore” não estão no som, estão nas letras. Taylor parece disposta a falar mais de outras pessoas, como quando conta uma história de adolescentes em um triângulo amoroso, tema que permeia o álbum.
Mas ela, claro, segue falando de si mesma. “This is me trying” parece uma confissão de culpa por provocações e tretas do passado (com Katy Perry e Kanye West, por exemplo).
Mas nada é tão simples, tão compartimentado. “As linhas entre fantasia e realidade se confundem e as fronteiras entre verdade e ficção tornam-se quase indiscerníveis”, comentou ela, em texto que acompanha o álbum.
“My tears ricochet” é um pop fantasmagórico sobre insonia, depressão, lágrimas que ricocheteiam. Difícil dizer se a personagem é a própria cantora, tendo os tão comuns pesadelos de quarentena.
“Cardigan”, primeira ganhar clipe, é sobre um amor adolescente cantado com desesperança. “Quando você é novo, eles presumem que você não sabe de nada”, canta ela.
Em faixa com uma pegada bem Lana Del Rey, ela relembra beijos em carros, em bares no centro, dançando na rua. Agora, porém, diz se sentir como “um cardigan velho jogado embaixo da cama de alguém”.
Ainda mais melancólica, em “Seven”, ela fala de uma criança que “viveu o auge aos sete anos”. A tal criança tinha tempo para contemplar o céu de Pensilvânia, estado em que ela nasceu.
O único ‘feat’ do álbum
Bon Iver, cantor de folk eletrônica, empresta sua interpretação solene e grave para “Exile”. A música narra um reencontro entre dois ex-namorados, nas perspectiva de um homem e uma mulher.
“Eu posso te ver, querida / Com os braços dele ao redor de seu corpo / Rindo, mas a piada não é nem um pouco engraçada”, canta ele. “Eu posso te ver encarando, querido / Como se ele fosse apenas seu substituto / Como se você fosse trocar socos por mim”, canta ela. “Acho que vi esse filme antes / E não gostei do final”, cantam os dois juntos.
Dado o talento de todos os envolvidos, era de se esperar mais da colaboração. No fim, “Exile” é mais mais pueril do que emocionante.
Cada vez mais indie
A cada lançamento, Taylor Swift mais se afasta de produtores associados ao pop de rádio americano, com DNA da Suécia.
Foi Max Martin (Britney, Katy Perry, boy bands e popstars em geral) quem ajudou a cantora a ir do country pop para o pop pop mesmo. Das 22 músicas do produtor sueco que chegaram ao primeiro lugar do top 100 da revista “Billboard”, três eram cantadas e coescritas por Taylor.
Jack Antonoff auxiliou Swift em outra migração: ela vem se deslocando de um pop mais histriônico para um som mais alternativo, com mais camadas. Antonoff passou a trabalhar com ela em “1989”, de 2014.
A presença de Bon Iver e Dessner, parceriso desde 2016 na banda de indie folk Big Red Machine, reforça esse papo de que Taylor está cada vez mais indie.
Não é o primeiro caso de parceria entre indies e popstars que deu liga. Em temporadas anteriores, Shakira & Bravery, Rihanna & Tame Impala e Miley Cyrus & Flaming Lips foram algumas das colaborações improváveis desse tipo.
Feito na quarentena
Taylor Swift lança clipe de ‘Cardigan’, faixa que integra seu novo álbum ‘Folklore’
Reprodução/Instagram
Taylor tem costume de lançar álbuns uma vez a cada dois anos. Para ter mudado essa estratégia, há pelo menos duas explicações:
A quarentena pela pandemia da Covid-19 trouxe uma inquietude como compositora;
Ela entendeu que “Lover” não teve a performance esperada (comercial e artisticamente);
O mais provável, porém, é que a decisão tenha um pouco de cada.
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“Muitas das coisas que eu planejei neste verão acabaram não acontecendo, mas está aí algo que eu não planejei e aconteceu”, escreveu a cantora no Instagram, ao apresentar “Folklore”, na quinta-feira (23). “Escrevi e gravei essas canções em isolamento, mas com a colaboração de alguns dos meus heróis musicais.”
Taylor também deixou os fãs curiosos com outro comentário: “Tem uma coleção de três músicas que eu chamo de ‘O triângulo amoroso adolescente’. Essas três músicas exploram um triângulo amoroso entre três perspectivas diferentes de pessoas em três diferentes épocas da vida delas”. Não se sabe quais seriam essas músicas.