Silva refresca cancioneiro autoral brasileiro com bossas, brisas e sopros no show do álbum ‘Cinco’


Transmitida ao vivo de Vitória, com arranjos primorosos, a live confirma o ótimo momento do artista. Resenha de live-show
Título: #silvacincolive
Artista: Silva
Local: Vitória (ES)
Data: 8 de maio de 2021, das 17h às 19h
Cotação: * * * *
♪ A obra e a carreira de Silva estão divididas em duas partes que quase já não se comunicam. Existe o Silva que foi até o segundo álbum, Vista pro mar (2014), com som indie e introspectivo, influenciado pelo tecnopop da década de 1980.
E existe o Silva descaradamente pop e romântico que se insinuou a partir de Feliz e ponto (2015), canção autoral do álbum Júpiter (2015) que ampliou o público do artista pela força do clipe que hasteou a bandeira da liberdade sexual.
Esse movimento do artista capixaba rumo ao mainstream foi estendido em 2016 com o disco e o show em que Silva abordou o repertório de Marisa Monte, tendo sido consolidado com os álbuns Brasileiro (2018) e Cinco (2020), discos afins, separados na obra do artista pela passagem do Bloco do Silva, aliciante show populista calcado no repertório da era de ouro da axé music.
Estreado no fim da tarde de sábado, 8 de maio, o show de lançamento do álbum Cinco – a rigor, uma live, apresentada com vista para o mar de Vitória (ES), cidade natal de Lúcio Silva – deixou bem claro a cisão na trajetória do artista, parceiro do irmão Lucas Silva na criação da obra autoral.
Quem estava ali – alternando-se no violão e nos teclados para desfiar o cancioneiro mais recente com primorosos arranjos executados pela big band formada pelos músicos Anderson Xuxinha (percussão), Betinho Barcellos (trombone), Bruno Santos (trompete), Gabriel Ruy (bateria), Hugo Maciel (baixo), Juninho Preto (guitarra) e Tiago Veloso (saxofone) – era o Silva pop, mas já sem a fragilidade do irregular álbum Júpiter, ponto da cisão da obra.
Silva vem evoluindo como compositor desde o álbum Brasileiro – sim, fazer boa música pop é dom que poucos têm – e o sucessor Cinco flagrou o artista em ponto de maturação.
Silva na live-show do álbum ‘Cinco’
Reprodução / Vídeo
Haters de Silva poderão encontrar munição para atacá-lo pelo canto cool, por vezes esmaecido. Mas esse é o tom de Silva e, na live-show de Cinco, a voz se harmonizou com as canções. O que impressionou positivamente é que o cantor refrescou o repertório autoral pós-Brasileiro – e, sim, também alguns hits de Marisa Monte, como Beija eu (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, 1991) e Bem que se quis (E po’ che fà, Pino Danielle, 1982, em versão em português de Nelson Motta, 1989) – com bossas, brisas e os sopros do trio de metais.
O frescor com que Silva embutiu o tema jazzístico Take five (Paul Desmond, 1959) em Infinito particular (Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, 2006), por exemplo, evidenciou a evolução contínua do artista. Quase etéreo, o número sobressaiu no roteiro que encadeou 28 músicas em 26 números.
Mesmo recentes, posto que quase todas foram lançadas entre 2018 e 2020, várias músicas do cancioneiro autoral de Silva já soaram renovadas na live pelos arranjos.
Dentro do arco pop brasileiro desse repertório, Silva gravitou basicamente em torno do samba e da canção. O canto e a o arranjo de Duas da tarde (2018) mostrou que Silva, por mais distante que esteja do tempo da bossa nova, também é herdeiro indireto da revolução de João Gilberto (1931 – 2019).
Filha musical de João que se expandiu além da bossa, Gal Costa fez conexões com Silva em 2020, o que justificou a citação de Baby (Caetano Veloso, 1968) ao fim do samba Guerra de amor (2018).
E o fato é que a composição Você (2020) – meio samba, meio canção – gerou momento de grande beleza na apresentação, confirmando a “tristeza esteticamente bonita” alardeada por Silva antes de dar voz à música do álbum Cinco. Outra música do disco, Não vai ter fim (2020) também evoluiu lindamente na suave levada black soprada pelo trio de metais.
Ecos da axé music repuseram o bloco do Silva na rua, mas em atmosfera mais refinada, se ambientando no clima leve de Brisa (2018) – saudação à Bahia feita em single avulso lançado após o álbum Brasileiro – e no tom vivaz de A cor é rosa (2018).
A felicidade também é esteticamente bonita no cancioneiro de Silva, como já sinalizara Passou, passou (2020) na abertura do show e ratificara momentos depois a lembrança de Um pôr-do-sol na praia (2019), pagode gravado pelo cantor com Ludmilla, funkeira que caiu no samba pop.
A única lembrança do Silva indie pré-felicidade pop foi Cansei (2012), música do álbum Claridão (2012), revivida sem brilho especial no show.
Reminiscência do repertório de João Gilberto, Disse alguém (All of me, Gerald Marks e Seymor Simons, 1931, em versão de Haroldo Barbosa, 1980) fez Silva cair com bossa no suingue, com espaço para o brilho cool do trompete de Bruno Santos, e foi a boa novidade de roteiro que fluiu bem, mas que ainda pode ser mais bem ajustado se aproximadas, por exemplo, as duas músicas afins – Fica tudo bem (2018) e o ska pop Facinho (2020) – gravadas por Silva com Anitta.
Entre evocação do balanço latino de João Donato em Furada (2020), o momento voz-e-violão de Não sei rezar (2020) e a partilha entre os toques de samba e ijexá que praticamente dividiram Soprou (2020) – parceria dos irmãos Silva com Criolo – em dois números distintos, Silva confirmou ao vivo o ótimo momento artístico revelado pelo álbum Cinco.
A live de Silva foi um sopro de leveza no entristecido Brasil.
Silva canta ‘Disse alguém’, versão de ‘All of me’, na live do álbum ‘Cinco’
Reprodução / Vídeo
♪ Eis as 28 músicas dos 26 números do roteiro seguido em 8 de maio de 2021 por Silva na live em que o artista estreou o show do álbum Cinco :
1. Passou, passou (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
2. Sorriso de agogô (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
3. Feliz e ponto (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2015)
4. Duas da tarde (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018)
5. Brisa (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018)
6. No seu lençol (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
7. Pausa para a solidão (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
8. Guerra de amor (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018) /
9. Baby (Caetano Veloso, 1968)
10. Caju (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018)
11. Você (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
12. Facinho (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
13. Não vai ter fim (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
14. Um pôr-do-sol na praia (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2019)
15. Cansei (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2012)
16. Beija eu (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, 1991)
17. Infinito particular (Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, 2006) /
18. Take five (Paul Desmond, 1959)
19. Disse alguém (All of me, Gerald Marks e Seymor Simons, 1931, em versão de Haroldo Barbosa, 1980)
20. Furada (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
21. Jogo estranho (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
22. Quimera (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
23. Bem que se quis (E po’ che fà, Pino Danielle, 1982, em versão em português de Nelson Motta, 1989)
24. Júpiter (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2015)
25. Não sei rezar (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)
26. Fica tudo bem (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018)
27. A cor é rosa (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2018)
28. Soprou (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2020)