Separar ou não separar o artista da obra, eis a questão política reposta em pauta pelo caso de Sérgio Reis


Há quem prefira, como Guilherme Arantes, dissociar a parte artística do ‘terreno extramusical’. ♪ ANÁLISE – Em reflexo da polarização que vem pondo artistas e seguidores em campos por vezes opostos, o universo pop cada vez mais discute questão que se tornou urgente com manifestações controvertidas de astros da música em relação à política e à pandemia de covid-19. Separar ou não separar o artista da obra, eis a questão política que movimenta o tribunal inflamado das redes sociais.
No mundo, admiradores de Eric Clapton manifestaram decepção com as declarações negativistas do guitarrista inglês sobre a pandemia e a vacina.
No Brasil, país onde artistas e público se posicionam à direita ou à esquerda no campo político, a questão foi reposta em pauta na segunda-feira, 16 de agosto, com a decisão do cantor Guarabyra de se retirar do próximo álbum de Sérgio Reis – do qual participaria com regravação da música Sobradinho (Luiz Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra, 1977) – por conta do vazamento do áudio em que Reis defende paralisação dos caminhoneiros para pressionar o Senado a afastar ministros do Supremo Tribunal Federal.
Guarabyra alegou incompatibilidade com a postura política de Sérgio Reis. No dia seguinte, 17 de agosto, Guilherme Arantes se manifestou e afirmou que, embora discordasse das falas de Reis, jamais iria solicitar a retirada da gravação da canção Planeta água (Guilherme Arantes, 1981) do disco do cantor para não misturar o “terreno artístico” com o “terreno extramusical”.
Na mesma terça-feira, 17 de agosto, tributos aos 70 anos de Elba Ramalho postados em redes sociais foram alvos de ataques à cantora, associada por muitos internautas ao time dos artistas que apoiam o presidente do Brasil Jair Bolsonaro, repudiado por quase toda a classe artística e pela maioria do povo brasileiro.
A questão é polêmica. É fato que qualquer ataque à democracia deve ser combatido com rigor, sob as penas da lei, venha de quem vier.
“A democracia é um bem conquistado a duras penas. A música é uma arte democrática. Portanto, jamais usarei o meu prestígio para tentar usurpar o nosso sistema democrático”, se posicionou na quarta-feira, 18 de agosto, Renato Teixeira, cantor que gravou com Sérgio Reis os álbuns Amizade sincera (2010) e Amizade sincera II (2015).
Guilherme Arantes afirma que manterá a participação no disco de Sérgio Reis com gravação de ‘Planeta água’
Márcia Gonçalez / Divulgação
A questão a debater é se a obra de um artista deve ser avaliada com base da postura desse artista na sociedade. É nesse debate que muitas vezes soam divergentes as visões de pessoas que estão do mesmo lado político, a favor da democracia.
No caso dos críticos musicais que avaliam discos e shows (trabalho exercido pelo colunista neste espaço no portal G1), o único caminho aceitável é o da honestidade. Ao resenhar um disco ou show, o que deve estar em questão é somente a obra em si, julgada com o senso estético de cada crítico, sem influência de qualquer outro fator externo.
Essa postura honesta impede injustiças legadas para a posteridade, como as feitas com o estupendo álbum lançado por Roberto Carlos em 1969, disco de grandeza minimizada por parte da mídia da época, muito mais pelo fato de o cantor ser considerado “alienado” no campo político do Brasil de 1969 do que pelo repertório formado por canções do quilate de As curvas da estrada de Santos e Sua estupidez, obras-primas da parceria de Roberto com Erasmo Carlos.
No caso dos artistas, é legítimo o posicionamento de Guarabyra. Até porque muitos artistas se expressam através da obra e, por isso mesmo, têm todo o direito de repudiar qualquer associação com colega posicionado do lado oposto do campo político.
Mas também é prudente, em nome da própria democracia, evitar condenar de antemão nos tribunais das redes sociais os artistas, como Guilherme Arantes, que preferem dissociar a obra de um colega das tais questões “extramusicais”.
Sérgio Reis errou feio e deve responder pelo ataque à democracia – aliás e a propósito, 29 subprocuradores gerais pediram ontem à Procuradoria da República, no Distrito Federal, a abertura de investigação a respeito do caso.
A questão a discutir é se a pena aplicada ao cidadão na Justiça e/ou nas redes sociais deve ser estendida à obra artística construída por esse cidadão ao longo da vida. Como enfatizou Renato Teixeira, a música é uma arte democrática.