Samba militante do compositor paulista Geraldo Filme é reavivado em tributo majestoso


Obra do bamba de Sampa é valorizada nas vozes de 22 cantoras negras em gravações inéditas de álbum duplo que inclui textos sobre a vida do artista conhecido como Tio Gê. Resenha de álbum
Título: Tio Gê – O samba paulista de Geraldo Filme
Artista: Vários intérpretes
Gravadora: Selo Sesc
Cotação: * * * * *
♪ Geraldo de Souza Filme (25 de agosto de 1927 – 5 de janeiro de 1995) tinha somente 10 anos, mas se indignou como gente grande ao ouvir do pai a sentença de que “Em São Paulo não se faz de samba de respeito como no Rio de Janeiro”.
O garoto transformou a indignação em ação e compôs o samba Eu vou mostrar (1938), marco inicial de obra grandiosa e militante, calcada tanto no orgulho negro e na origem paulistana quanto na denúncia das injustiças sociais que, no Brasil, oprimem sobretudo pretos e pobres.
A história é contada por Aílton Graça no texto O negrinho das marmitas, narrado pelo ator no álbum duplo Tio Gê – O samba paulista de Geraldo Filme, editado em CD pelo Selo Sesc neste mês de março (a edição digital foi lançada em 28 de fevereiro). Na sequência do texto, o samba Eu vou mostrar é ouvido na voz de Leci Brandão, militante bamba carioca abraçada nas rodas paulistanas do samba.
No disco, gravado e produzido sob direção musical de Ogair Júnior, o samba do bamba paulistano ganha tratamento à altura da importância da obra do compositor.
Ao longo de 26 faixas, essa obra monumental é valorizada nas vozes de 22 cantoras negras de diferentes gerações – Alaíde Costa, Amanda Maria, Áurea Martins, Clarianas (Martinha Soares, Naloana Lima e Naruna Costa), Cleide Queiroz, Ellen Oléria, Eliana Pittman, Fabiana Cozza, Graça Braga, Graça Cunha, Lady Zu, Leci Brandão, Luciah Helena, Maria Alcina, Paula Lima, Rosa Marya Colin, Sandra de Sá, Teresa Cristina, Virgínia Rosa e Xênia França – em gravações inéditas ouvidas entre textos de Léo Lama narrados pelos atores Aílton Graça, João Acaiabe e Sidney Santiago Kuanza.
A alta qualidade do tributo fica perceptível já na majestosa gravação do samba Que gente é essa? – ode à dinastia negra, valorizada pela africanidade de arranjo que cita até o toque do ijexá – que abre o disco 1 na voz viçosa de Graça Braga.
Geraldo Filme (1927 – 1995) é compositor identificado com o samba de São Paulo
Reprodução da capa do álbum ‘Geraldo Filme’, de 1980
Enraizado na geografia de São Paulo (SP), como ilustra Tebas, samba sobre o escravo que construiu a Praça da Sé (marco zero da cidade) revivido por Cleide Queiroz, o cancioneiro de Geraldo Filme faz a crônica do crescimento da metrópole em São Paulo menino grande (samba confiado a Amanda Maria) e louva rodas matriciais da cidade em Samba da Barra Funda, Último sambista e Lava-pés, composições agregadas em pot-pourri defendido por Eliana Pittman com combinação precisa de alegria e melancolia.
Contudo, o perfil realista de Garoto de pobre, samba (bem) interpretado por Teresa Cristina, extrapola o enredo paulistano e se enquadra na desajustada moldura social do Rio de Janeiro, celeiro de bambas diplomados na arte da sobrevivência.
Mesmo orgulhosamente paulista, o samba de Geraldo Filme também soa universal no tom seresteiro de Cravo vermelho, lustrado pelo verniz vocal de Áurea Martins. “Em toda parte da terra / A saudade segue a gente”, reconhece o compositor em versos de Amigo, samba em que Rosa Marya Colin versa sobre desilusão amorosa.
Entranhada no coração dos bambas desde que o samba é samba, a sofrência é propagada por Xênia França em Anúncio depois que Ellen Oléria alerta sobre a vaidade que move O luxo da cidade com letra que alude ao samba-canção Conceição (Dunga e Jair Amorim, 1956).
Raro samba composto por Geraldo Filme em parceria (no caso, com Jorge Costa), Baiano capoeira abre o disco 2 com os vivazes histrionismos de Maria Alcina. Na sequência, Graça Cunha evoca a ancestralidade negra ao cantar / contar História de capoeira.
Já o trio Clarianas – formado pelas cantoras Martinha Soares, Naloana Lima e Naruma Costa – expõe em Tradições e festas de Pirapora a influência dos sambas rurais na obra do bamba. No mesmo terreiro, Virgínia Rosa ecoa Batuque de Pirapora em arranjo que combina o toque da sanfona com o baticum das percussões.
Em solo urbano, Sandra de Sá louva Tradição (Vai no Bexiga pra ver) em tom esfuziante que contrasta com a resignada tristeza que é senhora em Silêncio no Bexiga, samba-canção sobre a morte de um poeta, cujo luto é amaciado pelo veludo vocal de Alaíde Costa.
Fabiana Cozza interpreta ‘A morte de Chico Preto’, samba propagado na voz de Clementina de Jesus
Marcos Hermes / Divulgação
Com a notória autoridade de ser uma das mais nobres damas do samba paulistano, escorada em arranjo que ecoa ruralidades sertanejas, Fabiana Cozza dá o devido valor ao samba-afro A morte de Chico Preto, propagado além das fronteiras de Sampa na voz de Clementina de Jesus (1901 – 1987) em gravação de 1975.
Já Paula Lima cai no suingue samba soul em Vá cuidar de sua vida em gravação turbinada com o rap de Dexter. Voz disco do samba soul, Lady Zu mantém o suingue e a bossa na cadência sacudida de Vamos balançar.
No arremate do disco 2, Luciah Helena faz o inventário da vida do bamba em Reencarnação, sambas de versos autorreferentes ouvido em registro camerístico de voz-e-piano. Na letra, Tio Gê louva o samba e a negritude que pautaram a vida e obra do artista, ansiando por vir de novo ao mundo com a mesma cor e o mesmo dom de bamba.
Geraldo Filme saiu de cena há 25 anos, aos 67 anos, deixando obra que, mesmo momentaneamente abafada por outros sons e ritmos, atravessará gerações.
A amostra dessa obra do compositor apresentada no álbum duplo Tio Gê – O samba paulista de Geraldo Filme é expressiva o suficiente para atestar que a indignação do menino diante da sentença do pai serviu para mostrar que, sim, também se faz samba de respeito em São Paulo.