‘Samba de santo’ documenta o sagrado poder negro que emana dos blocos afros da Bahia


Filme de Betão Aguiar está em cartaz na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Cartaz do filme ‘Samba de santo – Resistência afro-baiana’
Divulgação
Resenha de documentário musical
Título: Samba de santo – Resistência afro-baiana
Direção: Betão Aguiar
Roteiro: Betão Aguiar e Cauê Bravim
Trilha sonora original: Junix 11 e May HD
Produção: Zapipa Produções
Cotação: * * * *
♪ Filme em exibição na 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
♪ No quarto dos 81 minutos do documentário Samba de santo – Resistência afro-baiana, atração da programação online da 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o presidente e fundador do Ilê Aiyê – Antonio Carlos dos Santos, conhecido como Vovô do Ilê – relaciona a criação do bloco afro de Salvador (BA) ao movimento black power que eclodiu nos Estados Unidos na década de 1960.
O levante norte-americano ecoou no bairro soteropolitano da Liberdade, berço do Ilê Aiyê, bloco criado em 1974 na comunidade do Curuzu somente com integrantes negros – tradição mantida há 46 anos. Vovô conta que o Ilê quase se chamou Poder Negro.
Lapidar, o depoimento de Vovô do Ilê sintetiza o que se vê e ouve ao longo do filme dirigido por Betão Aguiar. Parte do acervo do projeto Mestres Navegantes, criado há dez anos por Betão para documentar a cultura popular do Brasil através da música, o filme Samba de santo – Resistência afro-baiana expõe o (con)sagrado poder negro que emana dos blocos afros da Bahia.
Betão Aguiar foca três blocos ao longo dos preparativos para os desfiles e dos desfiles propriamente ditos das entidades no Carnaval deste ano de 2020. Além do Ilê Aiyê, o cineasta acompanhou o Bankoma – bloco afro que foi para a rua em 2000, tendo surgido na comunidade de Portão, situada em Lauro de Freitas, município da região metropolitana de Salvador (BA) – e o Cortejo Afro, bloco criado em julho de 1998 na comunidade de Pirajá.
Matéria-prima do filme, o desfile de depoimentos de integrantes dos três blocos afros – todos associados direta ou indiretamente a terreiros de candomblé – costura discurso calcado na autoestima de população negra baiana que jamais se deixou calar diante do racismo estruturado na sociedade do Brasil.
Dificuldades são expostas sem tom de lamentação, enfatizando o poder de união das comunidades negras para vencer os obstáculos cotidianos. E o que salta da tela em Samba de santo é a força política dos blocos afros. Tanto que, no arremate da costura, o artista plástico e figurinista Alberto Pitta, fundador do Cortejo Afro, vislumbra mundo ainda onírico em que o povo negro de Salvador (BA) já não precisasse botar literalmente o bloco na rua para dar o recado político de resistência.
“Ser negro é lindo”, sintetiza Aloísio Menezes, cantor do Cortejo Afro. “É de extrema importância poder falar para as nossas crianças e mulheres que elas são deusas, que nosso cabelo é lindo, que ela pode mesmo deixar o seu black todo ouriçado, passar um batom vermelho, uma roupa colorida”, especifica Gleicy Ellen, eleita a Deusa de Ébano do Ilê Aiyê em 2020.
Ao longo de Samba de santo, a questão espiritual se eleva no mesmo patamar da força social dos blocos, expondo a importância (inclusive política) de ialorixás guerreiras como Altarina Maria Conceição Souza (1924 – 1989), a Mãe Mirinha do Portão, hábil na negociação de melhorias para a comunidade com as autoridades da Bahia. “Bloco afro é o candomblé de rua”, caracteriza Aloisio Menezes.
Da confecção dos figurinos até os desfiles propriamente ditos, o filme Samba de santo documenta o percursos dos blocos afros com devoção ao tema. E os closes dos entrevistados – focados parados com os olhos direcionados para as câmeras – corrobora, em belas imagens, a ideologia dos discursos.
Samba de santo – Resistência afro-baiana embeleza o (con)sagrado poder negro que emana dos blocos afros da Bahia.