Saiba quem é Fabiano, personagem de ‘Vidas secas’ citado por Renan Calheiros na CPI ao criticar ministro da CGU

‘Diante do patrão, fala fino, obedece, é puro servilismo e se borra de medo do Soldado Amarelo. Aqui, do Capitão Amarelo’, disse o senador nesta terça ao falar do depoente da vez, o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário. Renan compara ministro da CGU a Fabiano, de Vidas Secas: ‘Para o poderoso, fala fino’
“Eu não quero fazer nenhuma comparação com ninguém. Mas, há pouco, eu estava fazendo um esforço aqui para lembrar o Fabiano, que é um personagem do livro ‘Vidas secas’, do Graciliano Ramos.”
O comentário foi feito nesta terça-feira (21) na CPI da Covid pelo relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), e tinha como alvo o depoente da vez: ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário.
Renan justificou: “Dentro de casa, Fabiano grita, xinga, bate na mulher, nos filhos e até na cachorra Baleia. Mas, diante do patrão, fala fino, obedece, é puro servilismo e se borra de medo do Soldado Amarelo. Aqui, do Capitão Amarelo […]. É assim: para o desamparado, para o Estado, para o município, ele ruge e rosna; para o poderoso, mia e abana a cauda”.
Publicado em 1938 por Graciliano Ramos (1898-1953), alagoano como Renan, “Vidas secas” é um clássico da literatura brasileira e um clássico das obrigatórias sinopses de livros livros didáticos e apostilas pré-vestibulares. É aquilo: muita gente conhece a história de cor – mesmo sem ter nunca pegado a obra na mão (até porque já teve filme).
Resumo da ópera: uma família miserável vive (ou sobrevive) em andanças e fugas da estiagem. Tem o pai, a mãe, dois filhos e a cachorra mais célebre da nossa literatura, a Baleia. O pai é o Fabiano mencionado ali em cima pelo Renan Calheiros. O personagem é um vaqueiro bruto e silencioso. E que toma uma surra violentíssima do tal Soldado Amarelo, seu rival na trama.
É uma humilhação física e uma sujeição psicológica absoluta (e cometida por uma “autoridade”, assim, entre aspas, porque o termo significa muita coisa).
Na sessão desta terça na CPI, o senador achou certo mudar a patente de soldado para “capitão”, no que parece ser uma referência ao presidente Jair Bolsonaro. Vale lembrar que o depoimento de Rosário mais tarde virou tumulto, quando ele chamou a senadora Simone Tebet de “descontrolada” (veja mais no vídeo abaixo).
Ele fez o comentário após Tebet criticar a postura do depoente em relação a Bolsonaro e ao processo de compra pelo governo federal da vacina Covaxin. A senadora tinha acabado de afirmar que “a CGU não foi criada para ser órgão de defesa de ninguém”, uma sugestão de que Rosário atuaria para atender a interesses do presidente.
“Temos um controlador que passa pano, deixa as coisas acontecerem”, disse ela, para quem o ministro não pode se comportar como “advogado do governo”.
Voltando a “Vidas secas”. Cabe citar o evidente componente político da obra de Graciliano Ramos, ele que entre 1928 e 1930 foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL) e também se filiou ao Partido Comunista. Sobre isso, falou ao g1 o curador da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2013, Miguel Conde – aquela edição teve justamente Graciliano como homenageado.
Para Conde, Graciliano se ocupava “diretamente nos livros desse lugar problemático do intelectual e do artista num país em que o ‘letramento’ pode se tornar muitas vezes uma maneira de reiterar e marcar a divisão do país”.
Essa conduta se revelava num texto que era tudo, menos empolado e excessivo. “A própria escrita concisa e irônica do Graciliano tem algo de uma recusa de certo virtuosismo mais rebuscado da linguagem. Porque a linguagem pode se tornar, na verdade, um bem simbólico que reafirma em vez de questionar as divisões e as desigualdades do país”, avaliou o curador na época.
Quer dizer: tem gente de classe social superior que fala e escreve “difícil” para reiterar determinada posição social e econômica. Ou por ter acesso a uma instrução negada a outros grupos. Graciliano Ramos buscava aparência de simplicidade precisamente para evitar contribuir com a manutenção desse cenário e para questioná-lo.
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