Saiba que André Abujamra preserva a identidade artística ao cantar músicas ‘duzoutruz’ em álbum de intérprete


Capa do álbum ‘Duzoutruz volume 1’, de André Abujamra
Divulgação
Resenha de álbum
Título: Duzoutruz ‧ Volume 1
Artista: André Abujamra
Edição: Edição independente do artista / Tratore
Cotação: * * * 1/2
♪ Gravar disco como intérprete de músicas já conhecidas é tarefa de que poucos cantores se desincumbem com personalidade. A maioria perde a identidade artística ao dar voz a hits alheios, como se estivesse no palco de um bar, com a única missão de entreter o público.
André Abujamra preserva a identidade no primeiro álbum como intérprete, Duzoutruz, disco em que toca todos os instrumentos, além de cantar.
Em rotação desde quarta-feira, 25 de agosto, o primeiro dos dois volumes do álbum mostra o cantor imprimindo a própria assinatura em 15 músicas de outros compositores – fato que jamais chega a surpreender quem conhece o histórico desde artista paulistano que entrou em cena em 1985 como metade da dupla Os Mulheres Negras, formada com Maurício Pereira (pai de Tim Bernardes, para quem dissocia o nome da pessoa).
Mesmo em abordagens feitas sem brilho especial, há centelha de originalidade na gravação. É o caso de Refazenda (Gilberto Gil, 1975), canção revivida por Abujamra em ritmo veloz, quase agalopado, em gravação que embute guitarra de pegada roqueira.
Por falar em velocidade, Beat acelerado (Alec Haiat, Vicente França e Yann Laouenan, 1984), primeiro hit da banda Metrô, ressurge com batida sintética que evoca a década de 1980 sem soar vintage.
Destaque do álbum, a recriação de Saiba (Arnaldo Antunes, 2004) tem toque oriental e ênfase apropriada na letra e na melodia singela. Béradero (Chico César, 1991) põe a voz de Abujamra em primeiro plano na mixagem do disco (feita pelo próprio artista), deixando que os ruídos sugiram faixa ambientada no sertão nordestino ou em deserto do Oriente.
A propósito, há ao longo do álbum alusões mais ou menos sutis ao universo musical árabe – perceptíveis em faixas como Lágrimas de diamante (Paulinho Moska, 2003), Nos lençóis desse reggae (Zélia Duncan e Christiaan Oyens, 1994) e Oração ao tempo (Caetano Veloso, 1979) – que conectam o álbum Duzoutruz à discografia pregressa desse artista também conhecido por estar à frente da banda Karnak desde os anos 1990.
De toda forma, o primeiro disco de intérprete de Abujamra segue sempre por caminhos menos previsíveis, como atesta a parede sonora que sustenta Miséria S.A. (Pedro Luís, 1996) e Gentileza gera gentileza (Leoni, 2015).
Bom tradutor dos sentidos das canções dos outros, Abujamra enfatiza o tom mântrico dos únicos quatro versos que compõem a letra de Coração tranquilo (Walter Franco, 1978) e reconta a pouco ouvida Lenda do pégaso (Moraes Moreira e Jorge Mautner, 1980) com delicadeza, inclusive nas partes declamadas da gravação.
Aliás, há também versos falados na abordagem de A paz é inútil para nós (Paulo Miklos, 1994), exemplo da habilidade do intérprete para fugir do óbvio na escolha de repertório alheio – seleção que inclui uma música inédita, Nuvens, de autoria de Marisa Brito.
Em sintonia com a ideologia pacifista que pauta o repertório da banda Karnak, Abujamra fecha o álbum com Uh, uh, uh, lá, lá, lá, lé, lé! (John Ulhoa, 2005), lado B do cancioneiro do grupo Pato Fu.
Enfim, a refazenda do álbum Duzoutruz ‧ Volume 1 é contraindicada para a trilha sonora dos barzinhos, como toda a obra fonográfica de André Abujamra, intérprete que canta a música dos outros sem perder a própria identidade artística.