‘Round 6’: diretor e acadêmicos explicam como série ‘sangrenta e estranha’ virou fenômeno


Hwang Dong-hyuk terminou roteiro do seriado há uma década, mas produtoras se recusaram a apostar no projeto. História distópica é mais uma produção de sucesso vinda da Coreia do Sul. Hwang Dong-hyuk, diretor de ‘Round 6’, conversa com o elenco da série
Netflix/Divulgação
Trama afiada, alegoria social e cenas de violência contundente são os ingredientes do sucesso de “Round “, a distópica série da Netflix que se tornou o mais recente fenômeno global a surgir da Coreia do Sul.
Assim como em “Parasita”, que em 2020 se tornou a primeira produção não inglesa a ganhar o Oscar de melhor filme, seus protagonistas são das camadas mais marginalizadas da sociedade.
Pessoas se afundando em dívidas, um precário trabalhador imigrante, ou uma desertora da Coreia do Norte competem em jogos infantis para ganhar 45,6 bilhões de won (US$ 38 milhões). Se perderem, pagam com a vida.
Escrita e dirigida por Hwang Dong-hyuk, a série confirma a crescente influência da cultura popular sul-coreana, com fenômenos mundiais como o grupo K-pop BTS, ou o próprio “Parasita”, do cineasta Bong Joon-ho.
Assista ao trailer de ‘Round 6’
Para os críticos, além da origem da produção, a explicação para seu sucesso está nos temas abordados e em sua crítica aos males do capitalismo, universais, especialmente com uma pandemia que aumentou a desigualdade.
“A tendência crescente de priorizar os benefícios sobre o bem-estar do indivíduo” é “um fenômeno que vemos nas sociedades capitalistas de todo mundo”, disse Sharon Yoon, professor de Estudos Coreanos na Universidade Notre-Dame, nos Estados Unidos, à agência France Presse.
‘Sangrenta, estranha e difícil’
O diretor de “Round 6”, Hwang Dong-hyuk, terminou seu roteiro há uma década, mas ele contou que as produtoras se recusaram a apostar em uma história que consideravam “muito sangrenta, estranha e difícil”.
Segundo ele, a trama é “uma história sobre perdedores”. Os trabalhos anteriores de Dong-hyuk tratavam de questões como abuso sexual, adoção internacional, ou deficiência – todos eles inspirados livremente em fatos.
Nesta primeira produção para a televisão e o streaming, ele seguiu incluindo referências a experiências coletivas traumáticas que ficaram gravadas na memória do país.
A crise financeira asiática de 1997 e as demissões de 2009 da montadora Ssangyong Motor, por exemplo, ganham destaque no roteiro.
“A Coreia do Sul se tornou uma sociedade muito desigual de forma relativamente rápida e recente, nas últimas duas décadas”, explica Vladimir Tijonov, professor de Estudos Coreanos na Universidade de Oslo, na Noruega, à agência France Presse.
A mobilidade social se tornou “muito menos possível” agora do que era em 1997, e “o trauma da crescente desigualdade transborda para as telas”, diz ele.
‘Round 6’
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A Netflix oferece a série em versão dublada e legendada em vários idiomas, expandindo seu público potencial.
Brian Hu, professor de cinema da Universidade de San Diego (EUA), comenta que o fato de ser um sucesso em quase 100 países mostra que não foi feita apenas para um público ocidental.
“O público ocidental associou, em grande medida, produções estrangeiras com descrições da pobreza, e isso se tornou uma forma de menosprezar o resto do mundo”, disse ele à agência France Presse.
“O que é único em ‘Parasita’ e ‘Squid Game’ é que, embora mostrem pobreza e desigualdade de classes, fazem isso de uma forma que realça a modernidade técnica e cinematográfica da Coreia”, completou.
Guerra e pobreza
Biscoito Dalonga é uma das brincadeiras infantis mostradas em Round 6.
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Em fevereiro, a Netflix anunciou planos de investir US$ 500 milhões somente neste ano em séries e filmes produzidos na Coreia do Sul.
“Nos últimos dois anos, vimos o mundo se apaixonar pelo incrível conteúdo coreano, feito na Coreia”, disse o codiretor-executivo da plataforma Ted Sarandos.
“Nosso compromisso com a Coreia é forte. Continuaremos investindo e colaborando com narradores coreanos em uma ampla gama de gêneros e de formatos”, acrescentou.
A história do país está repleta de guerras, pobreza e governos autoritários, temas e fenômenos diante dos quais seus seus artistas responderam explorando o poder, a violência e as questões sociais. Isso criou uma cena cultural vibrante que, em diferentes formatos, atingiu um amplo público internacional.
No início, os dramas coreanos eram muito populares nas televisões asiáticas. Depois, seu cinema foi premiado em vários festivais europeus, e grupos de K-pop ganharam fãs no mundo inteiro.
A coroação veio com o Oscar de “Parasita”, uma ácida crítica sobre a desigualdade entre ricos e pobres que explora o lado sombrio da 12ª economia mundial.