Rodrigo Amarante faz ‘Drama’ com apatias e belezas de álbum solo que enfatiza o universo particular do artista


Capa de ‘Drama’, segundo álbum solo de Rodrigo Amarante
Arte de Hernan Paganini
Resenha de álbum
Título: Drama
Artista: Rodrigo Amarante
Edição: Polyvinyl Record Co.
Cotação: * * * 1/2
♪ Na gravação da faixa-título Drama, primeira das onze músicas na disposição do segundo álbum solo de Rodrigo Amarante, ouve-se o som de cordas suntuosas, entrecortado por aplausos entusiásticos de plateia, como se o artista estivesse armando jogo de cena.
Na gravação da música The end, alocada no fecho do álbum Drama, o canto grave do carioca ecoa a arquitetura de obras imortais – como a do cantor e compositor canadense Leonard Cohen (1934 – 2016) – em instante de encanto provocado por faixa pautada pelo toque de piano e aditivada com violinos, violas e violoncelos tocados por Danny Bensi.
Entre uma faixa e outra, Amarante faz Drama com as apatias e belezas de repertório inteiramente autoral. Cidadão do mundo que reside atualmente em Los Angeles (EUA), o hermano carioca habita universo particular. É como se, mesmo acompanhado por nomes como a cantora Cornelia Murr (mulher do artista, responsável pelas segundas vozes de várias músicas do álbum), vivesse em intencional isolamento musical.
Disco lançado nesta sexta-feira, 16 de julho, Drama se conecta com o trotar lento de Cavalo (2013), o introspectivo primeiro álbum solo de Amarante, lançado já há distantes oito anos.
Rodrigo Amarante lança o segundo álbum solo, ‘Drama’, nesta sexta-feira, 16 de julho
Eliot Lee Hazel / Divulgação
Para quem se ambienta no mundo de Amarante, a apatia do canto do artista no samba Tara pode soar como mero detalhe em faixa que, já na introdução, insinua clima de bossa nova, mantido ao longo da gravação, ainda que os sopros dos metais bafejem ar mais vintage, remetendo aos salões antigos em que evoluíam os sambas pré-bossa da década de 1940.
Em águas mais agitadas, Maré se levanta com levadas estilizadas de carimbó e com o vocal de Moreno Veloso. Maré foi o single que anunciou o álbum Drama em 5 de maio.
Na sequência, Amarante lançou outros dois singles – I can’t wait e Tango, faixa que evolui em levada sedutora, mas em passo diferente do gênero musical argentino, como o artista enfatiza em nota do libreto da edição em LP e CD de Drama – antes de apresentar o álbum, cuja capa expõe colagem de Hernan Paganini, intitulada Manuscript (The internal landscape series) e apresentada em 2018.
Foi, aliás, no fim de 2018 que Amarante começou efetivamente a gravar o álbum Drama em Los Angeles (EUA), em sessões de gravações no estúdio de Mario Caldato Jr. que reuniram os músicos Andres Renterias (congas), Paul Taylor (bateria) e Todd Dahlhoff (baixo), além do próprio Amarante na guitarra.
Com o processo de criação e gravação do disco tendo sido concluído somente em 2020, Drama é álbum que, afinal, soa coerente com o universo particular que vem sendo construído por Amarante em carreira solo.
Fica nítido, com a audição repetida do disco, que a sonoridade por vezes vibrante de Drama em algum momento sobressai demais em relação à música em si, desequilíbrio percebido, por exemplo, em Tanto, canção de menor estatura na obra do compositor.
Entre música bilíngue de inspiração filosófica (Tao, com letra inicialmente em português que se desenvolve com versos em inglês), samba torto (Eu com você) e composição já tocada em shows do grupo Los Hermanos (Um milhão, até então inédita em disco), Amarante revolve memórias e sentimentos com pretensa teatralidade diluída pela atmosfera de faixas como Sky beneath.
Embora no todo menos interiorizado do que o antecessor Cavalo, Drama é álbum com enredo que parece fazer mais sentido para o artista do que para o ouvinte. E essa estranheza faz parte do show de Rodrigo Amarante…