Rio de Janeiro faz 455 anos e continua lindo na geografia musical da cidade


Obra ainda em progresso, trilha sonora da metrópole já enfatiza desde os anos 1990 as contradições entre a beleza e o caos carioca. Capa da coletânea ‘…E o Rio continua lindo’
Reprodução
♪ ANÁLISE – “O Rio de Janeiro continua lindo”. A sentença proferida por Gilberto Gil em 1969 – no verso inicial do samba Aquele abraço (1969), com o qual o artista baiano se despediu da cidade que o abrigava antes do exílio forçado na Europa – continua atual.
Mesmo com a água impura e a violência que explode cotidianamente em becos escuros e até em ruas iluminadas, a cidade do Rio de Janeiro (RJ) completa 455 anos neste domingo, 1º de março de 2020, com a beleza preservada na natureza e na geografia musical.
Poucas cidades foram tão (de)cantadas quanto o Rio. A moldura sonora extrapola a cadência natal do samba e dá voz à miscigenação alardeada pela garota carioca Fernanda Abreu em Rio 40 graus (Fernanda Abreu, Carlos Laufer e Fausto Fawcett, 1992), hino extraoficial da cidade-maravilha tão bem resumida no verso lapidar “purgatório da beleza e do caos”.
Sim, nem todo mundo canta o Rio com o romantismo lírico propagado pelo o cantor Lúcio Alves (1927 – 1993) na gravação original da Valsa de uma cidade (Ismael Netto e Antônio Maria, 1954), retrato dos anos dourados.
Em 1997, por exemplo, a banda carioca Planet Hemp mandou a real hardcore em Zerovinteum (Marcelo D2, BNegão, Black Alien e Formiga), crônica de cidade assombrada por medos e desesperos. Sim, desde os anos 1990, já há quem aponte com mais ênfase, na trilha da cidade, as contradições entre a beleza e o caos.
Entre a nostalgia idealizada do samba Rio antigo (Como nos velhos tempos) (Nonato Buzar e Chico Anísio, 1979) e a verve manhosa perfilada pela gaúcha Adriana Calcanhotto em Cariocas (1998), a trilha sonora da cidade abarca a leveza soberana de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), arquiteto de modernas paisagens musicais como o Samba do avião (1962).
Com Vinicius de Moraes (1913 – 1980), parceiro na criação de muitas dessas modernidades, Tom perfilou a Garota de Ipanema, apresentada ao mundo em show de 1962, e exaltou a beleza das mulheres da cidade em Ela é carioca (1963).
Seguidores da bossa de Tom & Vinicius, os compositores Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994) também formaram dupla que exaltou a cidade com maravilhas sempre contemporâneas como Rio (1963). Sim, Rio é mar, é sal, é céu, é sol e é (zona) sul, habitat do Menino do Rio (1979) decantado por Caetano Veloso na voz de Baby Consuelo.
Mas o Rio é também mais amplo geograficamente. E musicalmente. Em rota distante dos cartões postais cariocas, os MCs Junior & Leonardo mapearam em 1995 o Endereço dos bailes, funk situado em regiões menos exaltadas da cidade partida.
Atento aos sinais da segregação musical e social, Chico Buarque procurou retratar a miscigenação no samba Carioca (1998), ampliando o mapa musical da cidade em Subúrbio (2006), composição lançada em álbum sintomaticamente intitulado Carioca.
Enfim, por mais que mudem os olhares e que os perfis do Rio sejam constantemente atualizados por antenados compositores, os “encantos mil” da cidade dão boa música desde a marcha Cidade maravilhosa (André Filho, 1934), hino de velhos Carnavais.
Obra ainda em progresso, a trilha sonora do Rio de Janeiro sempre acaba se rendendo às belezas da cidade hoje celebrada pelo 455º aniversário.