Relançamento em CD de álbum venezuelano de Miltinho expõe face sentimental do ‘rei do ritmo’


Disco gravado pelo cantor carioca em 1964, ‘El diablo y yo’ está de volta ao catálogo. Na primeira metade de 1960, o cantor carioca Milton Santos de Almeida (31 de janeiro de 1928 – 7 de setembro de 2014) já era uma voz (re)conhecida no universo do samba sincopado quando extrapolou as fronteiras do Brasil.
Contratado pelo selo venezuelano Sonus, Miltinho – como o cantor era conhecido pelo público – gravou série de discos em espanhol que foram editados não somente na Venezuela, mas em países de língua hispânica como Argentina, Colômbia e México.
Um desses discos, El diablo y yo, está sendo editado no Brasil pela primeira vez no formato de CD, através do selo Discobertas, ao lado de reedições de álbuns em espanhol de outros artistas (Agostinho dos Santos, Elizabeth e Martinha) que chegaram ao mercado na segunda quinzena de janeiro de 2020.
Gravado em 1964 e lançado em janeiro de 1965, o álbum El diablo y yo apresenta Miltinho – ou Miltiño, nome com o qual o cantor foi apresentado no mercado fonográfico de língua hispânica – às voltas com repertório de tom mais sentimental.
Capa do álbum ‘Dulce veneno’, do cantor Miltinho, apresentado como Miltiño no mercado de língua hispânica
Divulgação
A edição em CD de El diablo y yo tem valor mais documental do que musical, assim com a edição em CD de Dulce veneno (1964), lançada no Brasil em julho de 2019 pelo mesmo selo Discobertas.
No Brasil, Miltinho também transitou por repertório romântico. O Miltinho (bem) mais interessante – não por acaso o Miltinho incensado por discípulos como Zeca Pagodinho – é o que cantava sambas sincopados em bom português, explorando o ritmo ao deslocar os acentos da melodia.
Miltinho sabia improvisar e cantar atrasado, o que fez dele um craque do sambalanço. Não por acaso, o cantor – que se lançou na carreira solo após integrar grupos vocais como Anjos do Inferno, Namorados da Lua e Quatro Ases e um Coringa – gravou discos com Elza Soares, cantora associada ao sambalanço nos anos 1960.
Nessa década, Miltinho imortalizou sucessos como Mulher de trinta (Luis Antônio, 1960), tendo ficado entronizado como um dos reis do ritmo, mestre nas divisões espertas. Essa discografia brasileira do cantor – sobretudo os álbuns feitos pelo artista na gravadora Odeon entre 1966 e 1976 – é o suprassumo da obra fonográfica de Miltinho. O que enfatiza o valor meramente documental da edição em CD de El diablo y yo.