Relação abusiva: o que é o controle coercitivo e por que ele entrou para o currículo escolar britânico


Para aumentar a conscientização sobre todas as formas de abuso, o governo britânico tornou a ‘educação sobre relacionamento’ obrigatória nas escolas — o que entrou em vigor em setembro de 2020. A diferença entre um relacionamento saudável e um relacionamento abusivo nem sempre é óbvia
BBC/ Emma Lynch
*Esta reportagem contém relatos impactantes
A diferença entre um relacionamento saudável e um relacionamento abusivo nem sempre é óbvia — especialmente quando o impacto duradouro não é tão visível quanto uma agressão física — mas pode ser tão prejudicial quanto. Em setembro, o governo do Reino Unido tornou obrigatório o ensino sobre controle coercitivo na escola.
Quando Sarah* tinha quase 16 anos, ela começou a se aproximar de um menino do mesmo ano que ela na escola, chamado Zach*.
Depois de conversar por algumas semanas, ele a convidou para ir a um show com ele. Ela ficou nervosa no início porque não estava acostumada a sair sozinha — então ela perguntou se seus amigos poderiam ir também.
“Eu quero só nós dois”, ela se lembra dele dizendo. “Esta é uma oportunidade única de estarmos juntos.”
Sarah estava realmente começando a gostar de Zach e quando ele ficava convidando-a para fazer coisas, apenas os dois, ela sabia que ele se sentia da mesma maneira. Então, embora ela estivesse com medo de andar sozinha à noite, ela iria passar um tempo com ele.
Poucos meses depois, eles eram oficialmente um casal.
Antes de uma festa para a qual os dois iriam, Sarah estava experimentando roupas. “Esse é um pouco revelador demais”, disse ele. Confiando na opinião de Zach, Sarah optou por um vestido diferente.
Quando Sarah falava com outros garotos na escola, Zach dizia que ela estava tentando deixá-lo com ciúmes. “Por qual outro motivo você estaria falando com ele?”
Identificar o padrão de abuso por si mesmo pode ser incrivelmente difícil e, em alguns casos, quase impossível
Getty Images via BBC
Ela tinha certeza que era uma conversa inocente, mas talvez ele estivesse certo, já que a situação o fazia se sentir assim, ela pensou.
Zach então começou a experimentar drogas, enquanto tirava notas máximas, e Sarah disse a ele que estava preocupada. “Pare de ser tão controladora”, Zach disse.
Cada vez que ela tocava no assunto, Zach a acusava de tentar controlá-lo. Uma noite, ela pesquisou no Google: “Sou uma pessoa controladora?”
Quanto mais tempo Sarah passava com Zach, menos ela via seus amigos. Zach disse que isso era normal no início de um novo relacionamento.
“E eu não gosto dos seus amigos, de qualquer forma.”
Então vieram os resultados dos A-levels (exames britânicos que ajudam estudantes a ingressar na universidade). Zach obteve dois As e um B, Sarah tirou um A e dois Bs.
“Você sabe, isso era esperado.”
Sarah entrou na universidade que escolheu, enquanto Zach decidiu refazer alguns exames, o que implicaria em passar mais um ano sem ir para a faculdade. Ele pressionou Sarah a não ir para universidade também. “Não vá, por que você quer me deixar aqui?”, ele perguntou.
À medida que ficava mais desesperado para que Sarah não fosse para a universidade, Zach dizia que não fazia sentido ela ir.
“É um desperdício de dinheiro. Eu vou ser o ganha-pão.”
A autonomia e a autoconfiança das vítimas de controle coercitivo desaparecem
Getty Images via BBC
Sarah, agora com 23 anos, diz que os primeiros anos de seu relacionamento “não foram ruins”.
“O que quero dizer é que não foi tão ruim quanto virou depois”, diz.
O que é controle coercitivo?
O controle coercitivo muitas vezes não pode ser atribuído a um acontecimento específico em um relacionamento, mas é o acúmulo de palavras, comportamentos e ameaças que humilham, isolam e controlam a vítima — deixando-a sem liberdade e com muito pouco “de si mesmas” sobrando.
As vítimas descrevem a experiência de abuso emocional como se o senso de autoconfiança e autonomia fossem destruídos, até o ponto em que a única “normalidade” que você conhece é o agressor.
Pela natureza do controle coercitivo, ser capaz de ver o padrão de abuso por si mesmo pode ser incrivelmente difícil e, em alguns casos, quase impossível.
Então, como saber quando ciúme torna-se controle e coerção? E quando isso se torna um crime?
‘Ele disse que poderia quebrar meu pescoço se quisesse’
Para aumentar a conscientização sobre todas as formas de abuso, o governo tornou a ‘educação sobre relacionamento’ obrigatória nas escolas — com o início em setembro de 2020. O programa inclui ensinar os alunos a identificar abusos financeiros, emocionais e físicos em relacionamentos de adolescentes e de adultos.
Isso é algo que Sarah diz que gostaria de ter tido conhecimento antes de seu relacionamento com Zach. Para ela, o “você é linda” logo se transformou em “você tem sorte de eu estar com você porque ninguém mais iria querer você”.
O impacto duradouro do controle coercitivo não é tão visível quanto uma cicatriz ou hematoma
Getty Images via BBC
Sair da cama e se vestir exigia uma aprovação detalhada de Zach em relação aos trajes dela. “Ele realmente me convenceu de que era errado eu não mostrar a ele o que ia vestir.”
E ver os amigos tornou-se algo inexistente para ela, depois que o namorado secretamente mandou uma mensagem para eles dizendo: “Sarah te odeia e fala sobre você pelas costas.”
Zach costumava dizer que não tinha dinheiro para comida ou para viver, então Sarah diz que sempre enviava grandes somas de dinheiro para ele. Mas então ela era punida.
“Você só está fazendo isso para me fazer sentir mal comigo mesmo”, disse ele.
Na universidade, se ela quisesse sair à noite, Zach dizia que ela não poderia ir e repetidamente disse que se ela fosse “seria estuprada e drogada por um estranho” e causaria a Zach muita preocupação e insônia.
Se ela resolvesse sair, o que era raro, seria sobrecarregada com mensagens e ligações perguntando onde ela estava e o que estava fazendo.
“Comecei a perceber que minha vida era muito restrita na universidade”, lembra Sarah.
“Senti que não poderia participar das coisas ou fazer amigos. Pude perceber que meus colegas de apartamento achavam (nosso relacionamento) estranho, porque eu sempre pedia permissão a ele, mas achava que era normal. Ele me convenceu de que era normal.”
Antes que Sarah percebesse, as críticas que a incomodavam se tornaram temores por sua segurança.
A época em que ela mais se lembra é quando Zach a estava visitando na universidade. Ela pagou para ele ir vê-la e eles passaram o dia juntos. Ela estava abraçada no peito de Zach na cama. E ele disse a ela: “Eu poderia simplesmente quebrar seu pescoço agora, se eu quisesse.”
Sarah diz que a pressão para ela obedecer a pedidos infiltrou-se nas partes íntimas do relacionamento deles. “Ele falava muito sobre como assistia pornografia bastante explícita e abusiva”.
O abuso continua muitas vezes após o término do relacionamento
Getty Images via BBC
“Você não vai fazer isso na cama, então tenho que buscar em outro lugar”, disse ele.
Sarah temeu por sua vida em mais de uma ocasião.
Em seus momentos de raiva, Zach jogava cadeiras, quebrava coisas e a ameaçava como se isso fosse tão normal quanto beijá-la.
“Se eu estendesse a mão e o tocasse para tentar acalmá-lo, ele me empurraria para fora do caminho dele”, diz Sarah. “Eu não queria mais ir vê-lo. Estava com medo dele.”
Só depois de seu terceiro ano de universidade, quando seus momentos de “liberdade” estavam se esgotando, Sarah sentiu que deixar Zach era uma opção.
Sarah lembra de quando a colega que dividia casa com ela sentava para conversar com ela e dizia que estava realmente preocupada que o relacionamento arruinasse a vida de Sarah.
“Eu estava realmente infeliz e não sabia disso. Um relacionamento não deveria fazer você duvidar de si mesmo todos os dias”, diz. “Eu realmente pensei: ‘Eu quero isso para o resto da minha vida?'”
Infelizmente, como ocorre em muitos relacionamentos abusivos, o abuso não parou quando o relacionamento terminou.
O que diz a lei no Reino Unido?
Duas mulheres são mortas a cada semana em consequência da violência doméstica no Reino Unido. Esses casos às vezes estão ligados a controle coercitivo, de acordo com a especialista em criminologia Jane Monckton Smith.
E é importante dizer que o controle coercitivo pode afetar qualquer gênero ou sexualidade.
O controle coercitivo tornou-se ilegal em 2015 no Reino Unido sob a descrição de “comportamento controlador ou coercitivo em um relacionamento íntimo ou familiar”.
O controle coercitivo tornou-se ilegal no Reino Unido em 2015
Getty Images via BBC
Para se caracterizar como criminoso, o controle coercitivo deve fazer com que uma pessoa tema que a violência será usada contra ela em pelo menos duas ocasiões; ou causar-lhe inquietação grave ou angústia que tenha um efeito adverso substancial em suas atividades habituais do dia-a-dia.
Embora seja principalmente processado junto com outros crimes, como violência doméstica, mais casos individuais estão começando a chegar aos tribunais.
A advogada Clare Ciborowska disse à BBC que está vendo cada vez mais casos de controle coercitivo envolvendo jovens a partir de 16 anos.
“Quando você é jovem, ninguém entra em um relacionamento esperando que seja abusivo, mas qualquer um pode se encontrar nessa posição. Às vezes, esses pequenos sinais sutis podem começar a se infiltrar e isso pode acontecer por um longo período de tempo.”
“Nesse ponto, você está no relacionamento quando as coisas pioram. Portanto, é importante que os jovens saibam o que é controle coercitivo, possam identificar o que está acontecendo logo no início e se sintam capazes de falar sobre isso.”
Em alguns casos, Clare diz que o perpetrador evita a violência física porque ela deixa uma marca óbvia.
“Eles são bastante manipuladores e procuram não cometer crime físico, porque é muito mais difícil de ser detectado se for apenas o aspecto do controle coercitivo, embora ainda tenha um enorme efeito adverso psicológico na vítima.”
Quando Sarah viajou para terminar com Zach, ela ficou apavorada: “Eu me senti tão responsável pela vida dele.”
Sem ter ideia de como ele reagiria ao término, Sarah conversou com ele na rua porque queria estar em público, com outras pessoas ao redor, assim ele não poderia machucá-la.
Por meses depois que ela terminou o relacionamento, Zach continuou a assediá-la.
“Se eu não respondesse a ele, ele ameaçava se matar.”
Quando ela bloqueou o número dele, Zach apareceu na porta de sua casa. E outra vez, na casa da mãe dela.
“Eu percebi que não conseguiria escapar completamente até que me mudasse e ele não soubesse mais meu endereço.”
Mais de um ano desde o fim de sua experiência, Sarah se lançou à socialização, está em um relacionamento feliz e, diz ela, está começando a se sentir ela mesma novamente.
Como saber se sou vítima de controle coercitivo?
De acordo com uma instituição especializada em casos de abuso doméstico, alguns exemplos comuns de comportamento coercitivo são:
Isolar você de amigos e familiares
Privar você de necessidades básicas, como alimentos
Monitorar seu tempo
Monitorar você por meio de ferramentas de comunicação on-line ou de espionagem
Assumir o controle de aspectos de sua vida cotidiana, como onde você pode ir, quem você pode ver, o que pode vestir e quando pode dormir
Privar você de acesso a serviços de suporte, como serviços médicos
Colocá-la repetidamente para baixo, como dizer que você não vale nada
Humilhar, degradar ou desumanizar você
Controlar suas finanças
Fazer ameaças ou intimidar você
Como denunciar violência doméstica no Brasil?
No Brasil, o 190 é número de telefone da Polícia Militar que deve ser acionado em casos gerais de necessidade imediata ou socorro rápido. A ligação é gratuita. Outros números são o 192, do serviço de atendimento médico de emergência, e o 193, do Corpo de Bombeiros.
Por meio do Ligue 180, é possível entrar em contato com a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, que é um serviço gratuito e confidencial. Ele funciona para “receber denúncias de violência, reclamações sobre os serviços da rede de atendimento à mulher e para orientar as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente, encaminhando-as para outros serviços quando necessário.”
Pelo Disque 100, que também é uma ligação gratuita e funciona 24 horas, é possível fazer denúncias de violações de direitos humanos — entre elas, as que têm crianças e adolescentes como vítimas. Segundo o governo, o serviço “pode ser considerado como ‘pronto-socorro’ dos direitos humanos pois atende também a graves situações de violações que acabaram de ocorrer ou que ainda estão em curso, acionando os órgãos competentes, possibilitando o flagrante”.
* Os nomes foram alterados.
Playlist: Educação