Recuo no preço do diesel coloca em dúvida agenda liberal do governo, dizem analistas; ENTENDA

Nesta sexta-feira, em defesa da manutença do preço do combustível, Jair Bolsonaro afirmou que não defende práticas intervencionistas. A decisão da Petrobras de rever o aumento do preço do diesel trouxe incerteza com relação ao perfil liberal da administração Jair Bolsonaro e coloca em dúvida os passos futuros do governo na agenda econômica, segundo os analistas ouvidos pelo G1.
Desde a disputa eleitoral no ano passado, Bolsonaro e a equipe econômica liderada por Paulo Guedes têm adotado um discurso reformista, o que sempre foi bem visto pelo mercado – mas que pode ter sofrido um abalo.
“Vai caindo a ficha de que a perspectiva liberal do governo pode não ser tão segura como se esperava”, afirma o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.
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Risco de perdas
A principal preocupação dos investidores é que o governo Bolsonaro adote medidas similares às que foram praticadas em gestões passadas, quando o governo optou por não reajustar preços administrados, como dos combustíveis e da energia elétrica, gerando perdas às empresas desses setores.
Os reflexos do recuo para a companhia ficaram evidentes. O papel da companhia teve forte queda na bolsa de valores, de mais de 8%, e o dólar chegou a bater em R$ 3,90 nesta sexta-feira.
“O governo ainda não conquistou toda a credibilidade na economia e, portanto tomar uma decisão de natureza intervencionista reforma uma percepção de risco”, afirma o analista político da consultoria Tendências, Rafael Cortez.
Na noite de quinta-feira (11), a Petrobras informou que desistiu de subir o preço do diesel em 5,74%. O novo valor passaria a vigorar a partir desta sexta-feira. O aumento chegou a ser anunciado durante a tarde. A decisão de recuar de um aumento partiu do próprio presidente.
“Sempre houve algum receio do mercado sobre o comprometimento do Bolsonaro com a agenda liberal, e o que ele falou coloca isso em dúvida”, diz o economista economista-chefe da Necton, André Perfeito.
Perfeito acredita que, se não fosse o cenário externo positivo dos mercados nesta sexta-feira, a reação por aqui seria bem mais complicada. “As cotações [da bolsa] podem continuar caindo bem mais por conta disso.”
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Práticas intervencionistas
Nesta sexta-feira, ao defender a decisão, Bolsonaro afirmou que não defende práticas “intervencionistas” nos preços da estatal, mas pediu uma justificativa baseada em números, argumentando que a alta definida – e derrubada – estava acima da inflação esperada para este ano.
Durante a campanha presidencial, no entanto, um dos compromissos de Bolsonaro para a economia era “fazer com que os preços praticados pela Petrobras seguissem os mercados internacionais”. Como a Petrobras importa uma parte relevante dos combustíveis consumidos no Brasil, os custos da companhia estão mais fortemente ligados aos preços internacionais que à variação da inflação doméstica.
“O sinal dado não foi positivo, mas na verdade mostra que o presidente queria uma explicação, queria ser convencido (sobre a política de reajustes da Petrobras)”, diz o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira.
Na avaliação dele, no entanto, a intervenção de Bolsonaro no reajuste do diesel é diferente do que ocorreu em governos anteriores. “No governo Dilma, existia uma intervenção literal nos preços dos combustíveis.”
Para o gestor de investimentos Henrique Bredda, no entanto, a intervenção do presidente pode ter efeitos positivos para a economia brasileira. Ele aponta que, ao defender preços mais baixos para os combustíveis, Jair Bolsonaro reforça o apoio da população ao seu governo, ganhando mais capital político para aprovar a reforma da Previdência.
“O que a gente precisa agora é de um governo com mais força para [aprovar] a reforma da Previdência”, aponta. “Acho que é um cálculo político de curto prazo”.
“O mercado assustou, mas no final não muda nada para a Petrobras e ele (Bolsonaro) meio que sai com uma empatia maior pra população. Mudar mesmo o valor da Petrobras por causa disso acho um exagero”, diz Bredda.
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Política de preços
A Petrobras vem adotando uma política de repasse das variações de preços dos combustíveis no mercado internacional, adotando intervalos entre os reajustes e usando mecanismos de hedge (proteção cambial).
Em 26 de março, a companhia anunciou que os preços do diesel passariam a ser reajustados por períodos não inferiores a 15 dias para evitar sucessivos aumentos.
No ano passado, os preços do diesel tinham outra regra, e variavam quase diariamente. Além da alta dos combustíveis, os caminhoneiros criticavam as mudanças de preços constantes, que prejudicavam o planejamento de custos.
Diante da situação, a categoria iniciou uma greve histórica, que durou 11 dias, paralisou transportes e prejudicou o abastecimento. Para encerrar a paralisação, o governo Temer criou um programa de subsídios com o objetivo de conter a alta do preço do combustível. O subsídio foi encerrado no fim do ano.
Controle da inflação
Até o governo de Dilma Rousseff, a variação dos preços internacionais era repassada de forma defasada aos valores praticados no país, um mecanismo usado para tentar segurar o aumento da inflação.
Agindo assim, o governo evitava que a elevação do preço dos combustíveis se espalhasse pela economia, afetando os outros produtos que dependem diretamente de transporte rodoviário e de insumos derivados do petróleo, capitalizando o impacto na inflação geral.
Mas isso praticamente obrigou a Petrobras a vender os produtos a preços abaixo do mercado, o que teria causado grandes prejuízos à empresa.