‘Quero que a elite entenda a favela antes de julgar’, diz MC Cabelinho, o Farula de ‘Amor de mãe’


Ator e MC lança disco sobre a vida na favela, feito na pausa da novela. Ele fala ao G1 de funk consciente, amizade com Humberto Carrão e influência de MC Orelha a Amy Winehouse. Victor Hugo, o MC Cabelinho, é aposta do funk para 2020 e atua em ‘Amor de mãe’
Divulgação
Na pausa de “Amor de mãe”, dentro de casa durante a quarentena, o MC Cabelinho não parou. Desde março, o cantor e ator que interpreta o Farula na novela prepara o álbum “Ainda”.
Na contramão do som acelerado e sensual do Rio, Cabelinho lança funks mais lentos sobre as cenas reais que assiste há 24 anos na PPG, o complexo do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo.
Conheça a trajetória do MC Cabelinho
“Quem é favelado vai se identificar. Quem não é vai entender o que é a favela. Eu canto a realidade, o que vejo de perto, da minha janela”, diz Cabelinho ao G1.
‘Eu quero que a elite entenda como é a favela antes de julgar”, diz. Antes de ser ator, ele já fazia sucesso no “funk consciente”, com letras sobre a realidade social e influências de rap.
Ele canta “Liberdade” na voz de um pai preso que chora de saudade do filho. A letra é inspirada em um amigo que acabou caindo no mundo do crime. “Quem pode julgar é Deus”, diz Cabelinho.
Já “Reflexo”, com o rapper BK, tem um verso marcante: “O governo brasileiro na visão do favelado é uma piada”. Ele cita as operações policiais nos morros durante a pandemia como um dos motivos do verso.
Cabelinho também falou ao G1 sobre a amizade nos bastidores com Humberto Carrão, as influências de MC Orelha a Amy Winehouse, e a nova geração do funk consciente em SP. Leia abaixo:
Initial plugin text
G1 – Como foi fazer um disco nesse momento de pandemia?
Cabelinho – Eu já tinha um álbum, “Minha raiz”, mas esse só tinha catado músicas que lancei antes. Agora foi tudo do zero. Começou quando o DJ Juninho, que me acompanha, fez o beat da música “Maré”. Ouvi e falei que queria fazer um álbum só nesse ritmo de funk mais lento.
Como “Maré” falava do jovem que entrou para o crime por falta de oportunidade, eu quis que as outras faixas abordassem, cada uma, um tema da favela. A gente aproveitou que eu fiz um estúdio agora em casa. E na pandemia, sem fazer show, focamos tudo no disco, desde março.
G1 – Você já fazia funk consciente antes no Rio. E nos últimos meses esse estilo está crescendo muito em São Paulo também. Você acompanha?
Cabelinho – É, o funk consciente nesse tempo de pandemia cresceu muito. Eu fico feliz de estar crescendo. Os MCs de São Paulo estão tirando onda nisso. Meu álbum também tem umas referências de lá. Acho bom, quanto mais consciente, melhor.
É bom para a criançada e o jovem pegar a visão de como é mesmo a favela. Como funciona tudo, aprender, tirar o melhor da música e levar aquilo para a vida.
MC Cabelinho, cantor de funk e ator que interpreta o personagem Farula, de ‘Amor de mãe’
Divulgação
G1 – E por que acha que justo agora ele cresceu de novo?
Cabelinho – O funk é de fases. Anos atrás tinha Cidinho e Doca, os sucessos eram conscientes. Aí caiu, teve o funk melody, pop, ostentação, putaria, e agora o consciente está voltando. Daqui a pouco vem outro, está sempre atualizando. O funk é imortal, mas tem vários tipos.
G1 – Você canta consciente, mas também passa pelos outros estilos. Na música “Ainda”, você fala de baile, mas também cita o vendedor da barraquinha da comunidade. Como é essa mistura?
Cabelinho – Essa música relata o que a gente vê no baile. A gíria que vem da pista, as pessoas que caem para a favela para curtir. É isso, cada faixa tem um lance que rola na comunidade.
G1 – Em “Liberdade” você canta na voz de um cara preso falando com o filho. Qual foi a inspiração?
Cabelinho – Tenho um amigo que estudou comigo e sempre teve tudo na vida. Tudo que você pode imaginar. Tanto que quando eu comecei a fazer show, eu falava: “Me arruma vinte reais para eu cortar o cabelo?” Porque eu não tinha na época. Ele me fortalecia.
Eu fui crescendo no funk. E conforme fui conquistando a minha parada, ele se perdeu. Teve um dia que ele se revoltou, brigou com a família dele. Aí ele foi para a pista, assaltou e foi preso. Está lá há três anos. Ele me inspirou muito nesse som.
E não me envergonho disso. Quem pode julgar é Deus. Não importa o erro dele, eu não posso julgar. Todo mundo erra. O que eles mais precisam nessas horas é um amigo, a família, trocando uma ideia, dando conselhos. Tanto que ele falou: “Nunca mais quero essa vida, aqui é horrível. Não volto para cá”.
Isso que eu quero escutar dele. E o que eu puder fazer para ajudar quando ele sair de lá, vou fazer. É isso. Cada faixa teve um sentimento.
Cabelinho e BK, parceiros na música ‘Reflexo’
Divulgação
G1 – Os funks de SP estão cheios dessas histórias . Acha que isso ajuda a dar outra visão da favela?
Cabelinho – É essa a inteção. É chato ter que provar toda hora que na favela só tem traficante. Quem é favelado vai se identificar. Quem não é vai entender o que é a favela. Canto a realidade, o que eu vejo de perto, da minha janela.
De um amigo que desceu para procurar emprego e não foi aceito pela cor ou pela origem. Aí vê um cara no morro com um cordão de ouro, bem vestido, cheiroso. O que ele vai fazer? Vai para o crime. Eu quero mais oportunidade para os favelados, para as crianças.
Meu álbum é nessa intenção. Eu quero que a elite entenda como é a favela antes de julgar. Ficar rotulando todo mundo que mora lá como traficante? Não é assim.
G1 – A música “Reflexo” tem um verso forte, “o governo brasileiro na visão do favelado é uma piada”. O que te levou a escrever isso?
Cabelinho – Em plena pandemia e o governo autorizando a polícia a fazer operação dentro de favela? Todo mundo dentro de casa, aí sobe e faz operação no morro. Favelado não tá trabalhando, vários precisando de oportunidade de emprego.
Muitas são faxineiras e o patrão falando que não precisa. Por que o governo não sobe pra distribuir cesta básica, álcool gel? Teve uma época que tava faltando água. Por isso eles são uma piada e todo mundo sabe disso.
Cabelinho com Vera Holtz e Regina Casé nos bastidores de ‘Amor de mãe’
Divulgação
G1 – Sobre esse som mais lento do disco, por que você fez assim, e o que você tem ouvido?
Cabelinho – Sempre escutei as mesmas coisas. MC Orelha, Amy Winehouse. Estou escutando também muito Filipe Ret, Djonga, Orochi. Eu peguei umas referências de São Paulo para por no meu disco. Esse “rasteirinho” é de SP. Eu ouço isso tudo e vou pro estúdio, faço o que faço.
G1 – E o que o pessoal do PPG fala sobre você estar na novela?
Cabelinho – Eles falam que me assistem, acham maneiro. “Meus filhos estão te vendo, querem ser iguais a você.” Não me acho assim não, tenho meus defeitos. Mas eu corri atrás para estar aqui hoje.
Tenho orgulho de estar na Globo, bato no peito e falo que estou mesmo, tiro minha onda. Eles falam que eu estou mudando a cabeça de muita gente aqui. Agradeço a Deus por essa oportunidade.
G1 – E como é a relação com o elenco nos bastidores. A Regina Casé é uma pessoa que fez muito essa ponte com a música sobre a favela.
Cabelinho – A Regina é muito engraçada, eu me amarro nela, a gente troca ideia direto, se zoa. O Douglas Silva. Mas o que eu tenho mais amizade é o Humberto Carrão. Ele é meu irmãozão.Vem, troca ideia, pergunta do álbum. Antes do lançamento já tava pedindo. Depois elogiou bastante. A Adriana Esteve também ouviu o álbum, fiquei muito feliz. Estou feliz de ter contato com essas pessoas.
MC Cabelinho, de ‘Amor de mãe’
TV Globo/Divulgação