Produção de cosméticos naturais que unem uso consciente e preservação cresce no Acre: ‘tendência’


Segmento tem ganhado força no estado nos últimos anos. Consciência ambiental e fortalecimento do estilo vegano contribuem para aumento. Cosméticos naturais que unem uso consciente e preservação crescem no Acre: ‘tendência irreversível’
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Longe das grandes indústrias de cosméticos convencionais, há um segmento que vem ganhando força no Acre nos últimos anos: a produção de linhas veganas à base de produtos completamente naturais e livres de aditivos químicos. Forte tendência dentro de um estado que tem 100% do seu território dentro da Amazônia Legal.
São produtos que utilizam matéria-prima ofertada pela própria natureza. Quem aposta nesse tipo de produção une beleza, equilíbrio e preservação ambiental, além de criar uma rede de apoio a pequenos produtores, que tiram o sustento da terra.
Foi assim que nasceu a empresa da Jessica Batista, de 32 anos. Ela é professora e aromaterapeuta e há pouco mais de um ano criou a própria linha de cosméticos naturais. Apaixonada pela natureza, ela diz que não vende apenas um produto, mas um estilo de vida.
“Comecei a pensar em fazer produtos naturais a partir do meu próprio desejo de utilizar esse tipo de produto. Paralelamente à mudança de hábitos de consumo eu também buscava me identificar em outro campo profissional, foi aí que me encontrei na aromaterapia e enxerguei os cosméticos como uma oportunidade, não só de mudar meus hábitos como também de levar pra outras pessoas e fazer disso um negócio”, diz.
Ao ter dificuldade para achar produtos naturais no Acre, Jessica decidiu trabalhar com isso e mudar de profissão
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A produção de um material 100% natural é feita artesanalmente. Em seus produtos, Jessica utiliza óleos, manteigas e ceras vegetais. Nada de origem animal.
“Trabalho com produtos voltados para as nossas necessidades básicas do dia a dia, shampoo de ervas, cremes de hidratação e sabonetes. Teve uma excelente aceitação, na verdade acabei encontrando muitas outras pessoas que estavam na mesma busca por um estilo de vida mais natural e sustentável”, relembra.
A proposta da empresa de Jessica é também montar uma rede de apoio a produtores pequenos, que são os que oferecem a matéria-prima para sua produção. Ela busca os vegetais em cooperativas de trabalhadores do Juruá, região conhecida pela produção de óleos naturais.
A bandeira social da empresa também fortalece as mulheres. A linha de produtos ganhou o nome Maria Cosmética Natural.
“É uma reverência às mulheres, uma representatividade, um chamado ao autocuidado e ao reconhecimento do potencial feminino de criar e alcançar os seus sonhos. Uma referência às muitas Marias, ou seja, às muitas mulheres batalhadoras que defendem os seus lares com o seu trabalho e com a sua força, mesmo diante de uma sociedade que ainda discrimina e julga a mulher”, pontua.
Ao adquirir um produto natural a pessoa tem diversos benefícios, não só em seu organismo, mas também contribui para a redução dos resíduos lançados no meio ambiente.
Todos os produtos são feitos com matéria-prima de cooperativa de trabalhadores rurais
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Shampoo de ervas
Um dos produtos mais vendidos pela linha da aromaterapeuta é o shampoo de ervas. Ele é um hidratante natural e também ajuda com a caspa, dá brilho aos cabelos e estimula o crescimento e o controle da queda.
“Uso também o louro que, além de combater a queda, auxilia em raízes oleosas. Além das ervas, o shampoo sólido contém cera vegetal, no caso a cera de carnaúba, que ajuda a formar a textura sólida do produto, óleo vegetal e surfactante do coco, que é facilmente biodegradável. Além disso também utilizo óleo resina de alecrim, que atua como um antioxidante natural, destilado das folhas do alecrim e vai atuar como um conservante impedindo a oxidação dos óleos e manteigas utilizados no shampoo”, detalha.
Reconectar com a natureza
Quem também se arriscou nesse mercado foi a Juliana Machado, de 36 anos. Ela é aromaterapeuta, jornalista e diretora visual. Ao criar a marca junto com as sócias, elas já usavam os produtos veganos e viam nesse tipo de segmento mais qualidade de vida, não só pelos produtos, mas também pelo lado da profissão, foi uma forma de se reposicionar.
Elas produzem desodorantes, sinergias (mistura de óleos vegetais e óleos essenciais), sprays terapêuticos, perfumes botânicos e escalda pés. Tudo começou em 2018, quando o público desse segmento ainda era tímido no Acre, mas curioso. Mesmo assim, Juliana disse que foi surpreendida com a adesão da proposta.
Juliana diz que ideia é fazer com que as pessoas buscem a conexão com a natureza
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“O nosso trabalho busca reconectar as pessoas com a natureza através dos óleos essenciais. Essa conexão que está bastante adoecida e esquecida nos tempos de hoje, mas que é muito necessária para a saúde integral de todos nós. E a natureza é essencialmente bela e está nos nossos produtos através dos aromas”, diz.
Além disso, ela diz que o fato de o estado estar inserido na maior floresta tropical do mundo a fez pensar em perpetuar o significado do uso consciente, sem agressão ao meio ambiente.
“A Amazônia vem sofrendo com alto índice de desmatamento, poluição dos nossos rios, descaso com os povos indígenas e extrativistas e tantas outras pautas. Então, nosso trabalho está ligado a cuidar deste bioma tão importante para toda o planeta”, enfatiza.
Ele destaca ainda que o uso de óleos essenciais, por exemplo, ultrapassa o limite da vaidade. Como prega a aromaterapia, esses produtos beneficiam a saúde mental, além de física.
“Os benefícios são diversos. No físico, dependendo da escolha que faça, tem efeitos analgésicos, antiinflamatórios, também antidepressivos, sedativos e estabilizador. E as formas de uso também são diversas, pode ser usado no corpo, mas também no ambiente, por inalação, uso tópico. Tem uma versatilidade muito grande”, esclarece.
Já na loja de Juliana, o carro chefe é o desodorante natural. É composto por leite de magnésia, água destilada, álcool de cereais e óleos essenciais.
“É livre de metais pesados como alumínio que está na maioria dos desodorantes industrializados e livre de derivados do petróleo”, completa.
As duas empresas trabalham com embalagens retornáveis, inclusive, oferecendo desconto para quem adota o hábito. Juliana diz que o principal foco é levantar a bandeira do uso consciente e também dar a opção do consumidor saber, com transparência, a composição daquilo que está comprando.
“Também levantamos a bandeira do slow, um movimento cultural de desaceleração da vida cotidiana para a gente voltar a se reconectar com a nossa própria natureza, sair do automático e observar o ritmo da vida. Entender a necessidade da pausa para redução do estresse, ansiedade e depressão.”
Especialista diz que crescimento do uso por produtos naturais é tendência irreversível
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‘Tendência irreversível’
O farmacêutico Daylan Marques, mestre em química e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), conta que o mercado de produtos naturais vem crescendo em todo o mundo.
“A nossa sociedade, e isso é um movimento mundial, se encontra em um espiral de retorno a coisas antigas. As pessoas hoje em dia estão nessa onda da consciência ambiental muito forte e as empresas que não se adaptarem a isso vão perder muito dinheiro. A palavra do momento é sustentabilidade. É uma tendência irreversível. O estilo vegano na alimentação, vestimenta e outros hábitos vem muito forte”, avalia.
Porém, o professor destaca que é imprescindível que as pessoas e empresas que trabalham nesse segmento tenham extrema preocupação de onde sai a matéria-prima desses produtos.
“Você tem que se preocupar com a procedência. Orgânico não é só o fato de não usar agrotóxico, ser orgânico é muito mais do que isso, então é preciso ver procedência, onde colhe, como produz, tem que ter um controle de qualidade muito grande, químico e biológico”, alerta.
Seguindo todos esse protocolos, certificando-se que está aderindo a um produto realmente 100% natural, os benefícios são diversos.
“Claro que você usando produtos naturais sem aditivos químicos, seu organismo agradece, uma vez que produtos de origem natural são muito mais aceitos pelo nosso organismo. Vejo com muitos bons olhos.”
Livre de químicas, produtos seguem o uso consciente
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Hábitos conscientes
Foi justamente uma mudança de hábito que fez com que Matheus Nascimento, assistente educacional, aderisse ao uso dos produtos veganos.
“Comecei a usar os produtos naturais assim quando optei por adotar uma dieta vegetariana. Lendo e entendendo sobre redução de danos/consumo ao planeta e sobre a crueldade da indústria cosmética com teste em animais. Daí conheci esses produtos que são mais limpos para pele e com menos ingredientes nas fórmulas, tipo os óleos naturais e essenciais”, conta.
Na sua rotina, ele passou a usar rosa mosqueta à noite, que tem um efeito regenerador e óleo de buriti durante o dia, que ajuda a proteger a pele do sol. “Ele é base de muitos protetores solares, mas não substitui um, então uso em conjunto. Também uso infusão de ervas como tônico para pele e coisas do tipo”, diz.
Para a criadora de conteúdo Ágatha Lim, conhecer os produtos naturais foi uma completa transformação na sua vida. Há sete anos ela optou por esse segmento e diz que usa os óleos essenciais com efeitos terapêuticos para diversas coisas.
“Eu não uso perfume, então os óleos essenciais acabavam sempre fazendo essa função também. A aromaterapia pra mim é um tratamento muito sensível e agradável e a propriedade dos óleos, além de trazer a sensação de bem-estar, promovem uma verdadeira cura interior. Depois usei hidratantes à base de óleos vegetais e essenciais, shampoos e condicionadores veganos e até um desodorante que era uma pedra de sal, que durou uns 3 anos”, conta.
Produtos naturais também são usados como terapia
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Assim como o professor pontuou o resgate de antigos hábitos, Ágatha também continua os rituais de beleza que aprendeu dentro da família. “Costumo usar muito também argila para fazer máscaras faciais, óleo de coco para hidratar cabelo e pele, além daquelas receitinhas com babosa ou abacate que a gente aprende desde cedo, de vó pra mãe, de mãe pra filha”, recorda.
Como consumidora consciente, ela acredita que dessa forma contribui para um equilíbrio ambiental e também reduz a sobrecarga de aditivos químicos em seu corpo.
“Acredito no poder de cura que a própria terra nos oferece, além de ser alternativas que provém de técnicas que não agridem tanto o meio ambiente, como os produtos químicos sintéticos. Nosso corpo absorve aquilo que colocamos em contato com ele, então sempre busquei me nutrir com produtos que não tivessem aqueles mil ingredientes que a gente nem sabe o que é.”
Além de ser uma adepta dos produtos naturais, a jornalista Elynalia Lima fez até cursos de aromaterapia e cosmetologia natural. A partir de então, ela começou a fazer o próprio desodorante. Ela não vende, mas faz para seu uso.
“Eu faço o desodorante, que é o mais simples e o creme pro corpo. É super eficaz, mais eficaz do que desodorante que a gente encontra em mercados, não mancha a roupa, não deixa aquela crosta e não tem toda aquela química, além de não agredir o meio ambiente. E rende bastante.”
Aromaterapeuta Juliana diz que intenção é levar um produto em que o consumidor saiba como é feito
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