Procura por gastroplastia sem corte cresce na França com aumento da obesidade


Técnica feita por endoscopia é realizada no país desde 2017 e ganha cada vez mais adeptos com o aumento do número de casos de sobrepeso na população. Gastroplastia é indicada somente para pessoas com obesidade mórbida
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São meio-dia e meia em Paris e na clínica do Trocadero, no 16° distrito, um dos bairros mais caros da capital, Anick, 39 anos, se prepara para uma gastroplastia vertical endoscópica. Ela recebeu a reportagem da RFI Brasil em seu quarto, ao lado do marido, poucos minutos antes da intervenção. Sua ansiedade é palpável, mas Anick está convicta de sua decisão.
Mãe de três filhos, a francesa ganhou 20 quilos depois dos partos e espera recuperar sua silhueta de antes. A decisão foi tomada depois de uma consulta com a gastroenterologista francesa Vianna Costil, especialista no procedimento. Anick se preparou dois meses e meio, fez exames, consultou uma nutricionista e uma psicóloga. Ela sabe que, depois da operação, terá que cuidar de sua alimentação e mudar de vida.
Quais as diferenças entre as cirurgias de redução de estômago?
“De todo jeito, não tenho escolha. Vou ter que fazer esse regime e me adaptar. Não me suporto mais. Sei que não sou muito gorda, mas como sempre fui magra, tenho problemas para me aceitar hoje do jeito que sou depois de ter tido meus três filhos”, conta.
A gastroplastia endoscópica, ou “endoscopic sleeve”, em inglês, é indicada para pessoas que, como Anick, estão bastante acima do peso mas não são consideradas obesas mórbidas – o IMC (índice de massa corporal) deve variar entre 30 e 40.
No procedimento, que dura cerca de uma hora, o gastroenterologista costura o estômago com a ajuda de um dispositivo, chamado OverStitch, acoplado na ponta do endoscópio. Esse equipamento possui uma agulha e fios e permite ao cirurgião reduzir o tamanho do órgão sem cortes, criando pontos e os suturando em seguida. O objetivo é formar uma “bolsa” e diminuir a saciedade.
Depois da intervenção, o paciente fica hospitalizado em média três dias, com uma alimentação liquida para não romper a sutura. Em casa, os hábitos alimentares devem ser revistos para adaptar o organismo à nova anatomia do órgão.
“Em geral, os pacientes com a indicação para a cirurgia fizeram muito regime, muito esforço, mas sofrem com frequência do chamado efeito ioiô: perdem 10 quilos, depois ganham 15, chegando progressivamente à obesidade, o que dificulta a instauração de uma dieta eficaz a longo prazo”, explica a gastroenterologista Vianna Costil.
A médica ressalta, entretanto, que, para que o procedimento seja eficaz, o paciente necessita de um acompanhamento posterior. “Depois de perder peso, é preciso rever o modo de vida para não engordar novamente. Isso significa ter uma boa nutrição e uma atividade física regular, modificar seu comportamento alimentar e, se houver problemas psicológicos, trabalhar si mesmo”, diz.
Ela salienta que esse trabalho envolve as emoções em torno da comida: comer demais por nervosismo, ansiedade ou frustração, por exemplo. Em geral, há uma perda de cerca de 17% da massa corporal em seis meses, mas os quilos podem voltar em torno de dois anos se o paciente não mantém uma vida saudável.
Na França, população engorda
A França, conhecida por ser um país de pessoas magras, registrou, entre 1997 e 2006, um aumento relevante dos casos de obesidade. Na última década, houve uma estagnação, de acordo com o relatório Esteban, um grande estudo nacional sobre a saúde da população realizado a cada dez anos e considerado como uma referência, mas os números continuam elevados.
Segundo dados oficiais, 54% dos homens e 44% das mulheres são obesos ou estão em sobrepeso. A população está engordando e o interesse pelas técnicas que ajudam a perder os quilos a mais, aumentando.
Segundo a especialista francesa, a expectativa é que, em 2020, existam 20 milhões de obesos na França. As razões são variadas: há a predisposição, mas como em outros países, a população se exercita menos, se estressa mais e consome alimentos mais industrializados.
A gastroenterologista ressalta que a endoscopia pode seduzir gordinhos, mas não é praticada por motivos puramente estéticos. “Na França, muitas pessoas buscam melhorar a própria saúde e temem desenvolver Diabetes ou Hipertensão. Elas se preocupam em primeiro lugar com a saúde delas”, destaca.
A médica lembra que a estética também é levada em conta, mas não é um fator determinante. As indicações são precisas e devem ser avaliadas individualmente. Sem adesão do paciente para um acompanhamento posterior, a gastroplastia também será um fracasso a longo prazo.
O procedimento, indicado para pacientes acima do peso, existe desde 2011, mas chegou à França apenas em 2017. Na clínica do Trocadéro, cerca de 300 pacientes já se beneficiaram da técnica, que já é proposta em alguns hospitais públicos, mas ainda não tem reembolso da Seguridade Social. O custo é elevado e gira entre € 6.000 e € 7.000 (cerca de R$ 28 mil).
No Brasil, o procedimento começou a ser testado em setembro de 2018, mas ainda não é reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina como técnica regulamentada para o tratamento de obesidade. A intervenção já é autorizada nos estabelecimentos em São Paulo, onde recebeu o aval da filial regional do órgão.
Técnica exige cirurgião hábil
A RFI Brasil acompanhou a gastroenterologista francesa Vianna Costil durante o procedimento em Anick, que atrasou porque antes a médica foi chamada para uma endoscopia de emergência.
Antes de iniciar a intervenção, a médica mostrou à reportagem o dispositivo OverStich e o acoplou ao endoscópio, para em seguida introduzi-lo na boca da paciente, descer até o esôfago, cardia, antro e corpo do estômago, onde foram realizados os pontos. Como não há cortes, o risco de infecção é menor durante a operação, que dura cerca de uma hora.
Os gestos dentro do órgão exigem extrema atenção do especialista. A habilidade do médico no manejo do dispositivo é fundamental para realizar os pontos com precisão e criar uma bolsa que reduzirá o tamanho do estômago sem danificá-lo. Isso porque, explica Vianna Costil, os órgãos têm “vida própria” e não reagem das mesma maneira em todos os pacientes: em alguns ele contrai mais ou menos, por exemplo.
Por volta das 16h, Anick sai do bloco, ainda anestesiada, e vai para seu quarto, enquanto a gastroenterologista se prepara para uma nova gastroplastia. Anick deixara a clínica poucos dias depois. Ela hoje está em casa se recuperando, ao lado de sua família.