Primeira paleotoca do fim da era dos dinossauros da América do Sul é descoberta no complexo de Peirópolis


Achado no Bairro Rural de Uberaba (MG) foi tema de um artigo publicado numa revista científica internacional e é considerado um dos únicos do mundo. A primeira paleotoca do período do Cretáceo Superior (fim da era dos dinossauros) da América do Sul foi descoberta no complexo de Peirópolis, bairro rural de Uberaba. O achado foi tema de um artigo publicado neste mês na revista científica internacional Palaeo – Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology e é considerado um dos únicos do mundo.
A descoberta ocorreu há sete meses, no Ponto 1 do Price (também chamada de Caieira), que fica a 2,5 km ao norte de Peirópolis. Quem viu e reconheceu a paleotoca foi o paleontólogo argentino Agustín Martinelli, do Museu Argentino de Ciências Naturais, que faz várias pesquisas nessa região.
Paleotoca Peirópolis é a primeira da América do Sul a ser encontrada
Luiz Carlos Borges Ribeiro/Arquivo Pessoal
Graças ao estudo sobre outras paleotocas, Martinelli percebeu que em um dos paredões rochosos do Ponto 1 do Price havia uma estrutura afunilada e preenchida com um sedimento ardiloso de cor diferente ao do entorno.
Logo após a descoberta, o paleontólogo convidou outros pesquisadores para estudarem a paleotoca, que ficou fossilizada porque foi sendo preenchida por uma mistura de areia e lama ao longo de milhões de anos.
Liderado por Martinelli, o estudo sobre a estrutura teve a participação de Luiz Carlos Borges Ribeiro, João Silva e Thiago Marinho, que são integrantes da equipe do Centro de Pesquisas Paleontológicas “Llewellyn Ivor Price” (CPPLIP) e do Complexo Cultural e Científico de Peirópolis (CCCP) da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM); além de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop); Universidade Federal do Minas Gerais (UFMG) e do Centro Regional de Pesquisa Científica e Transferência de Tecnologia de La Rioja (Argentina).
Fotos mostram as medidas da estrutura no paredão rochoso
Luiz Carlos Borges Ribeiro/Arquivo Pessoal
Segundo o professor e geólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro, a se julgar pelo tamanho, a hipótese é que a estrutura tenha sido aberta por um crocodilo pequeno da espécie Labidiosuchus amicum. O animal é um dos quatro crocodilos que viviam nessa região e que já tiveram os fósseis encontrados.
“E para quê o crocodilo fez esse buraco? Há várias hipóteses: uma delas é que ele abriu essa cavidade para se proteger, porque na época era muito quente e árido, com temperaturas que variavam entre 50ºC e 60ºC; ou ele fez o buraco para colocar ovos ou para guardar restos de alimentos. Também há a probabilidade de essa paleotoca ter servido para a estivação, que é quando os animais se empilham um sobre os outros”, explicou Ribeiro.
Ainda segundo o professor, a paleotoca teve que ser desmanchada porque os pesquisadores precisavam descobrir se havia fósseis dentro.
“Quando achamos, fotografamos, conferimos pela forma, estudamos bibliografia sobre outras épocas geológicas e confirmamos que era uma paleotoca. Como a gente precisava ver se o crocodilo poderia ter morrido dentro da toca, a gente escavou para ver se tinha fósseis do próprio crocodilo ou de qualquer outro animal, então, tivemos que destruir a toca. Escavamos tudo, olhamos o sedimento ardiloso e não encontramos nada”, contou o geólogo.
Porém, não resta dúvida de que a paleotoca tem uma grande importância para a ciência paleontológica por ser um tipo de vestígio fóssil raro, sendo um registro indireto da atividade biológica produzidos pelo animal, e não restos diretos de fósseis que são comumente encontrados, como dentes e ossos.
“Há 72 milhões de anos havia vários crocodilos na região; um deles ou vários deles tinha o hábito de fazer essa toca na época do final da era dos dinossauros. Essa toca mostra o comportamento desse animal e a evidência de que ele tinha esse hábito para se preservar. Isso nos ajuda a montar uma história geológica sobre a região e mostra também a relação entre os organismos e o ambiente de vida deles”, concluiu.
Ilustração mostra como o crocodilo entrava na toca
Jorge Blanco/Divulgação