Por que livros da extinta editora Cosac Naify custam até R$ 2,8 mil na internet?


Design sofisticado, tradução e raridade ajudam a explicar sucesso seis anos após fim da editora. Thiago D’Carlo guarda livros da editora Cosac Naify
Arquivo pessoal/Thiago D’Carlo
Fecharam-se, em 2015, as portas de uma das editoras mais elegantes do Brasil. Em seis anos, suas obras se tornaram relíquias, tanto pela raridade de exemplares à venda quanto pelo valor cobrado por elas.
Belos livros editados pela Cosac Naify (1996-20015) são, agora, vendidos por centenas de reais pelos poucos, mas espertos donos de edições ainda embaladas. Os preços variam:
Um box de “Contos Completos” de Liev Tolstói, com três volumes, chega a ser vendido por R$ 2,5 mil. E o combo de “Guerra e Paz”, um dos mais famosos e queridinhos entre o público da editora, por R$ 1,4 mil.
“O Outono da Idade Média”, de Johan Huizinga, é anunciado por R$ 1,5 mil.
“David Copperfield”, de Charles Dickens, tem ofertas de R$ 550 a R$ 2,8 mil.
“Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos”, dos irmãos Grimm, chega a custar R$ 950.
“Antologia da Literatura Fantástica”, com 75 histórias reunidas pelos autores Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, é vendido por cerca de R$ 800.
Mesmo livros usados não saem por menos de R$ 100 em sites dedicados a produtos de segunda mão. A maioria gira em torno de R$ 300 a R$ 500, a depender da popularidade e da raridade da obra.
Por que faz tanto sucesso
Os livros são bonitos, mas existe complexidade por trás da beleza. A escolha de gráficas de ótima qualidade, inclusive premiadas, por exemplo, explica Luciano Guimarães, professor de Design Editorial da Universidade de São Paulo (USP).
“Uma das características que fez Cosac Naify ter qualidade reconhecida de forma quase unânime é ter aliado a escolha por gráficas de excelência – como a Ipsis, que tem vários projetos vencedores no Prêmio Fernando Pini de Excelência Gráfica —, o investimento em equipe editorial, com editores, produtores e designer editoriais muito qualificados. O resultado é percebido tanto na qualidade do material, quanto em uma dimensão conceitual: a materialidade corresponde a um conceito”, explica.
Páginas do livro ‘A fera na selva’, da editora Cosac Naify
Reprodução/Gabriela Araujo F Oliveira
Um exemplo disso é o livro “A fera na Selva”. Uma publicação dos pesquisadores Gabriela Araújo Oliveira e Hans da Nóbrega Waechter, da Universidade Federal de Pernambuco, mostra que a gramatura do papel aumenta a cada 8 páginas, enquanto o tom escurece a cada duas, conforme a história se torna tensa.
“Ao final, há uma inversão das cores: o fundo prateado torna-se preto e o texto preto converte-se em prateado, quando o protagonista passa por um momento revelador sobre sua ‘fera'”, diz a publicação.
Segundo Guimarães, a maioria dos livros “regulares” no Brasil utiliza o papel offset, com gramatura entre 75 e 90 g/m2 e formato de 14 x 21 cm. A Cosac não tinha papel, gramatura ou formato específicos. Cada obra era feita com um tipo de papel correspondente ao seu conteúdo e proposta.
Outro ponto é a abrangência do catálogo. A editora foi uma das poucas que reuniu tantos livros sobre cultura, arte, moda e design, como “História do design gráfico”, de Philip B. Meggs (vendido por R$ 700). Também foi apostava em autores brasileiros e internacionais com menor alcance na época, mas grandes obras, como Samuel Beckett, Jorge de Lima, Murilo Mendes e Alejandro Zambra.
Também entram na conta as traduções zelosas, muitas feitas diretamente do idioma original – como as versões de “Anna Kariênina”, “Ressurreição” e “Guerra e Paz” feitas por Rubens Figueiredo. Por fim, uma das maiores explicações: algumas obras ainda não foram relançadas por outras editoras no país.
“As traduções refeitas e atualizada de livros antigos, como a coleção de Tolstói. Comprei meu primeiro livro deles em 2011, a edição de ‘Anna Kariênina’. Foi meu primeiro contato com o autor, que se tornou um dos meus favoritos, e também com a literatura russa”, conta o analista de segurança de conteúdo Thiago D’Carlo, de 27 anos.
Para que ter só pela metade o que se pode ter por inteiro? D’carlo quer completar a coleção que começou há 10 anos, mas esbarra nos preços altos. “Hoje, você não encontra ‘Guerra e Paz’ da Cosac por menos de R$ 300 reais (ou R$ 400) e por isso ainda não comprei, mas sigo nessa expectativa.”
Quem vende e quem compra?
Engenheiro civil tem 38 livros da editora Cosac Naify
Arquivo pessoal / Pedro Cavalcanti
Entre os vendedores, estão pessoas jurídicas com catálogos em marketplaces como Mercado Livre, Amazon e Shopee, geralmente que possuem outros artigos de entretenimento à venda. Há pequenas livrarias e sebos, além de pessoas físicas que querem aproveitar o ótimo preço de mercado para levantar uma grana.
Quem compra livros da finada editora costuma celebrar a conquista nas redes sociais. A maior parte das pessoas compartilha, além do gosto pela arte, uma outra característica: não tinham muito dinheiro quando a editora ainda funcionava, por isso matam, só agora, a vontade de possuir seus exemplares.
O engenheiro civil Pedro Cavalcanti, de 25 anos, tem 38 livros da editora e se enquadra nessa descrição. Alguns foram comprados enquanto ela existia. Outro, exaustivamente garimpados em sebos e links.
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“Comecei a ler bastante literatura russa uma época, e a Cosac sempre foi referência, principalmente porque as traduções eram feitas direto do idioma original. Eu não trabalhava naquele tempo, então comprar livros era meio difícil, mas a vontade de ter essas edições nunca passou’, conta.
Cavalcanti está sempre pesquisando livros da editora e consegue garantir bons preços em grupos de compra e venda. Mas, por duas vezes, não fugiu a inflação. “De vez em quando aparece algo por um preço aceitável. Mas paguei caro em dois. ‘Ficção Completa’, de Bruno Schulz, que até hoje não foi relançada. E ‘Contos completos’ do Tolstói”. A companhia das letras relançou essa edição por R$ 200, mas achei o design meio feio”, diz.
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