Poética plural da obra de Gilberto Gil legitima a eleição do artista para a Academia Brasileira de Letras


Pelas letras das músicas, o compositor se mostra desde os anos 1960 um sábio filósofo que reflete sobre a vida, a natureza humana e a própria Arte. Gilberto Gil toma posse da cadeira 20 da ABL em março de 2022
Fernando Young / Instagram Gilberto Gil
♪ ANÁLISE – A eleição de Gilberto Gil para a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras é justa porque a obra musical do cantor, compositor e violonista baiano expõe a plural e sábia visão poética de um pensador que, através das letras de músicas, reflete filosoficamente sobre a vida, a natureza humana, a Arte e a ciência.
Concretizada na tarde desta quinta-feira, 11 de novembro, a eleição de Gil para a ABL demole qualquer possível e infrutífero debate sobre a suposta inferioridade da letra de música em relação à poesia ou a qualquer outro gênero literário – discussão em tese já encerrada com a eleição do compositor e escritor carioca Antonio Cicero, poeta do pop brasileiro, para a academia em 2017.
Gil tomará posse da cadeira 20 em março de 2022, ano em que festejará 80 anos de vida e 60 de música, se contabilizadas as composições feitas ainda em 1962, em Salvador (BA), antes da fama.
O Brasil já sabe que Gilberto Gil é gigante da MPB desde 1967, ano em que ganhou projeção nacional na plataforma incendiária dos festivais da canção. Contudo, a louvação geralmente é feita com base na estupenda musicalidade do artista, cujo violão é máquina de ritmo.
A eleição de Gil para a ABL joga luz especifica sobre o letrista. Um letrista, como o músico, de talento múltiplo. Gilberto Gil é compositor tão singular que, como letrista, ele é muitos. Eis alguns exemplos do que, como poeta da música popular, Gilberto Gil pode ser:
♪ O homem antenado que, já nos anos 1960, antevê a era cibernética com temas como Cérebro eletrônico e Futurível, composições de 1969.
♪ O sábio que versa sobre as astúcias do tempo-rei como um buda nagô – epíteto que Gil cunhou em Dorival Caymmi (1914 – 2008) em 1992, mas que já personifica o próprio baiano quase octogenário.
♪ O negro brasileiro que, em 1977, redesenha a Refavela com sotaque de língua internacional em que, ao samba, se juntaram ritmos como funk e reggae.
♪ O parceiro afetuoso que vislumbra a metamorfose do amor na dura caminhada, assunto da canção Drão (1982), e que tece com delicadeza o bordado do amor cotidiano em A linha e o linho (1983).
♪ O artista político que, por meio da metáfora, denunciou a asfixia da liberdade em Copo vazio (1974) na voz de Chico Buarque, companheiro de luta e geração.
♪ O poeta que professa em Andar com fé (1982) a crença no curso inexorável da vida.
♪ O nordestino orgulhoso da origem que revolve em De onde vem o baião (1977) na pisada do forró do rei Luiz Gonzaga (1912 – 1989), influência seminal do compositor.
♪ O narrador da tragédia passional de Domingo no parque (1967), contada em ritmo cinematográfico.
♪ O homem pioneiramente feminino de Super-homem, a canção (1979).
♪ O viajante lisérgico sem medo de expandir a consciência na velocidade de Expresso 2222 (1972).
♪ O poeta que desfolha a bandeira em Geleia geral (1968) ao vislumbrar a manhã tropicalista.
♪ O baiano que mapeia a cidade natal de Salvador (BA) no samba Ladeira da preguiça (1973) oito anos após proclamar com orgulho a origem no título de outro samba: Eu vim da Bahia (1965).
♪ A bússola que guia o Homem no destino incerto de Oriente (1972).
♪ O cantor que celebra a magia da cena em Palco (1980).
♪ O humano que encara o divino e o desconhecido em Se eu quiser falar com Deus (1980).
♪ A criança que brinca feliz no Sítio do Pica-Pau Amarelo (1977).
Enfim, na música brasileira, há vários assuntos e estilos de letra. O imortal Gilberto Gil prefere todos sem perder a assinatura poética, pessoal e intransferível.