Pesquisa da UFV mostra que hidroxicloroquina interage com DNA


Trabalho durou dois meses e apontou que o medicamento pode causar efeitos colaterais significativos. Imagem mostram cloroquina manipulada em laboratório
Dirceu Portugal/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Uma pesquisa realizada por docentes da Universidade Federal de Viçosa (UFV) concluiu que a hidroxicloroquina interage com DNA e deve ser usada com cuidado. Com a pandemia da Covid-19, o G1 mostrou que o medicamento vem sendo utilizado por algumas pessoas para o combate na doença.
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O estudo foi realizado pelo professor do Departamento de Física da UFV, Márcio Rocha; pelo doutorando do Programa de Pós-Graduação em Física, Tiago Moura; e pela ex-aluna da instituição e atualmente professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Raniella Bazoni.
Durante a pesquisa, os autores esclareceram que o trabalho, publicado no The Journal Physical Chemistry Letters, não avaliou a eficiência do fármaco para o tratamento de nenhuma doença especificamente, mas sim o potencial que o medicamento tem de interagir com o DNA e, por isso, causar efeitos colaterais significativos.
Pesquisa
De acordo com a UFV, para entender os detalhes moleculares da interação, os pesquisadores usaram uma técnica chamada de pinça ótica. O trabalho, que durou dois meses, foi realizado no Laboratório de Física Biológica do Departamento de Física da Universidade.
“Usando equipamentos de ótica com altíssimas precisão e sensibilidade e em escala, eles manipulam moléculas de DNA com um laser e as colocam em uma solução com o fármaco a ser estudado, no caso a hidroxicloroquina. Utilizando modelos e protocolos já estabelecidos, os estudiosos avaliam como esta substância interage e modifica a estrutura local da dupla-hélice a partir de mudanças nas propriedades mecânicas do DNA”, explicou a instituição.
Conforme o professor Márcio Rocha, a ideia da pesquisa surgiu em meados de abril, logo que a substância saiu das bulas farmacêuticas para pautar a mídia sobre tratamentos para a Covid-19.
“Nós precisamos de ciência para embasar decisões e esta técnica que usamos é bastante segura para oferecer resultados”, explicou o pesquisador.
Segundo o docente, ainda não havia, na literatura especializada internacional, “nenhum estudo com nível de detalhes semelhante ao que realizamos na UFV, sobre a interação molecular da hidroxicloroquina, um fármaco que já apresenta menos efeitos colaterais que a cloroquina”.
Resultado
Ao fim do estudo, os pesquisadores concluíram a hidroxicloroquina interage com o DNA e de duas maneiras, dependendo da dosagem:
Baixas concentrações: se liga à fenda menor da molécula;
Em doses mais altas: ela deixa de se comportar como um ligante de fenda e passa a intercalar entre pares de base do DNA.
‘Achamos que a interação da hidroxicloroquina é muito forte, o que é preocupante, porque também é forte o potencial de causar diversos efeitos colaterais ao organismo”, afirmou o professor Márcio.
A pesquisadora Raniella Bazoni esclareceu que “todo medicamento deve ser utilizado com cautela, porém no caso de fármacos que interagem fortemente com ácidos nucleicos, a preocupação e o cuidado devem ser redobrados”.
Os pesquisadores também explicaram que há muitos medicamentos que interagem com a molécula de DNA, principalmente os quimioterápicos indicados para tratamento de cânceres. “Estes fármacos especializados precisam ser avaliados com cuidado devido ao grande potencial de efeitos secundários. Caracterizar estes efeitos, porém, não foi um objetivo do trabalho publicado, mas a informação sobre os riscos potenciais abre novas frentes para futuras pesquisas bioquímicas”, informaram.
“Há muitos remédios antigos e muito usados que nunca foram testados em nível de interações moleculares. O uso eficiente desta técnica pode sugerir modificações na utilização destes medicamentos e dar mais segurança a médicos e usuários”, concluiu Márcio Rocha.
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