Pedro Miranda oferece pérolas aos povos em álbum no qual se apresenta como compositor


Entre criações próprias e alheias, artista carioca transita com fluência entre o samba, o choro e a música nordestina no disco ‘Da Gávea para o mundo’. Capa do álbum ‘Da Gávea para o mundo’, de Pedro Miranda
Pepe Schettino
Resenha de álbum
Título: Da Gávea para o mundo
Artista: Pedro Miranda
Edição: Biscoito Fino
Cotação: * * * * *
♪ Pedro Miranda vem semeando admiração e respeito desde que entrou na roda na segunda metade dos anos 1990, gravitando de início em torno do circuito de bares da Lapa, efervescente bairro da zona central da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Da Gávea para o mundo, quarto álbum solo do artista carioca, é o resultado da colheita dos frutos gerados pelas sementes plantadas pelo cantor, compositor e percussionista ao longo de vinte e poucos anos de carreira.
Bairro da zona sul carioca, a Gávea é o território onde, antes de pandemia, Pedro Miranda vinha marcando território e aglutinando amigos em torno de rodas de samba, choro e música nordestina como agitador cultural – como bem caracteriza Joyce Moreno no texto em que apresenta o disco programado para chegar ao mercado fonográfico na sexta-feira, 26 de março.
O álbum soa como perfeita tradução da agitação do artista no universo carioca da música. Gravado com produção musical de Luís Filipe de Lima em fevereiro deste ano de 2021, sob direção artística de Lima e do próprio Pedro Miranda, Da Gávea para o mundo é álbum em que o cantor se apresenta (bem) como compositor.
Pedro assina sete das 10 músicas do disco – com parceiros tão diversos como Alfredo Del-Penho, Cristovão Bastos, Edu Neves, Jean Garfunkel, João Cavalcanti, Moyseis Marques, Ricardinho Matos e Rodrigo Linares – em repertório que soa homogêneo e reflete a alma musical do artista.
“Não faz isso comi / Que eu não mere / Quero compromi / Pó pará”, suplica o cantor, maroto, no lúdico samba que abre o disco, Pó pará, parceria de Pedro com Edu Neves e João Cavalcanti. Irresistível, o samba cai bem na voz desse cantor que, ao lançar há 15 anos o primeiro álbum solo, Coisa com coisa (2006), sobressaiu na multidão pela divisão manemolente. O arranjo de Eduardo Neves em Pó pará sublinha a astúcia do samba – cuja letra encadeia palavras das quais são cortadas as sílabas finais – sobretudo nos sopros dos metais.
O sax soprano de Neves também sublinha os anseios solitários que povoam os versos de Vontade de sair, faixa arranjada pelo pianista Cristovão Bastos, parceiro de Pedro Miranda neste samba cuja letra mapeia os eventos culturais da Gávea e os anseios de quem está impedido de frequentá-los por força do isolamento social. Em costura fina, o cantor dá voz na sequência ao fluente samba-choro que batiza o disco, Da Gávea para o mundo, melodia de Luís Filipe de Lima letrada por Joyce Moreno.
Sem perder o fio da meada, Pedro Miranda tira do baú uma joia rara da discografia brasileira, Samba da Gávea, parceria dos compositores cariocas João Batista Oliveira (1932 – 2019) e Osvaldo Lobo (19?? – 19??), o Badu, irmão de Haroldo Lobo (1910 – 1965).
Samba da Gávea reverbera a influência da obra seminal de Noel Rosa (1910 – 1937) e, provavelmente por isso, foi lançado em disco em 1942 na voz da cantora Aracy de Almeida (1914 – 1988), intérprete referencial do Poeta da Vila.
Esquecido desde 1958, ano da última gravação, Samba da Gávea reaparece em registro que junta Pedro Miranda com os integrantes da roda de samba que, desde 2017, o artista promovia às segundas-feiras na Gávea até a pandemia paralisar o mundo cultural.
As presenças agregadoras de Alfredo Del Penho (voz e violão), Bruno Barreto (voz e repique de anel, frigideira, ganzá e tamborim), João Cavalcanti (voz e tantan), Luís Filipe de Lima (voz e violão de sete cordas), Paulino Dias (voz, surdo, reco-reco, agogô, tamborim, caixeta e cuíca) e Thiago da Serrinha (voz e cavaquinho) na faixa sugerem que o samba está sendo cantado numa roda.
Pedro Miranda no estúdio com integrantes do Forró da Gávea
Reprodução / Facebook Pedro Miranda
Fora da roda, Pedro Miranda registra Umbigo, canção de ninar composta por Cézar Mendes – com letra delicadamente poética de Arnaldo Antunes – para Benjamim, filho de Tom Veloso, parceiro de Cézar. Os vocais dos filhos de Pedro – as gêmeas Amália e Olivia e o caçula Antonio – conferem ar angelical à gravação enquanto as cordas arranjadas por Gilson Santos transportam Umbigo para eras imemoriais, como se o acalanto tivesse atravessado as transversais do tempo, vindo de algum salão europeu do século XIX, até aportar na Gávea de 2021.
Parceria de Pedro com Alfredo Del-Penho, Desengaiola é samba que tangencia a linguagem do choro. E por falar nele, o choro é livre em Meu pecado é sorrir, parceria de Pedro Miranda com Moyseis Marques gravada para o disco com o grupo Choro na Rua em registro que alterna andamentos e climas.
Em outra fronteira rítmica, mas ainda dentro do universo musical da Gávea, o xote Camboinhas (Pedro Miranda e Rodrigo Linares) tem toque de baião e a participação do grupo Forró da Gávea. Na faixa, o acordeom de Bebê Kramer e a zabumba e o triângulo de Durval Pereira demarcam o território da nação musical nordestina.
Nessa nação, Pedro também abre parceria com o compositor cearense Ricardo Matos, coautor e convidado do mix de samba e xote intitulado De mirada em Mirada. Da Gávea para o Ceará.
No fim belo e poético do álbum, Da Gávea para o mundo justifica o título do disco com Remanso do avô, valsa nostálgica composta por Pedro Miranda e gravada com o toque do piano de Carlos Fuchs, captado de Portugal.
Mixado por Moreno Veloso, o álbum Da Gávea para o mundo mantém o alto padrão de qualidade da discografia de Pedro Miranda, que inclui Pimenteira (2009), com a diferença de olhar para o futuro.
No impecável álbum anterior Samba original (2016), Pedro Miranda se voltou para o glorioso passado do gênero, pescando pérolas então esquecidas. Neste atual Da Gávea para o mundo, álbum já garantido na lista de melhores discos brasileiros de 2021, o artista oferece outras pérolas aos povos – joias inoxidáveis que hão de resistir ao tempo.
Só que algumas dessas joias têm a assinatura do próprio Pedro Miranda, com o compositor se beneficiando das sementes plantadas pelo cantor e músico ao longo de vinte e poucos anos de carreira. A colheita é farta.