Passagens bíblicas, premonições e animais que comem o Sol: os mitos por trás dos eclipses


Antes de desenvolver formas de prever o fenômeno, cada povo acreditava em uma história diferente. Na terça-feira (2), Chile e Argentina verão eclipse solar total. Entenda como é um eclipse solar total
O Chile e Argentina verão um eclipse solar total na próxima terça-feira (2). As regiões onde o fenômeno será observado estão com hotéis lotados e turistas ansiosos. Entretanto, a ciência por trás da previsão exata da hora e do local dos eclipses nem sempre foi dominada por todos os povos. Por muitos séculos, o “sumiço” repentino do Sol foi sinal de catástrofes ou usado como um importante meio para dominação.
Cristóvão Colombo e a chegada à América
Wagner Magalhães/G1
Cristóvão Colombo
O livro “Eclipses totais: Ciência, Observações, Mitos e Lendas”, (em inglês, “Total Eclipses: Science, Observations, Myths and Legends”), escrito por Pierre Guillermier e Serge Koutchmy, traz a história de uma das viagens em que o explorador italiano Cristóvão Colombo chegou à América Central. Ele estava acompanhado de uma pequena frota. Com a tripulação cansada, parou na Jamaica. Seus homens, em busca de comida, entraram em conflito com os nativos.
Com medo, incapazes de negociar com os tripulantes europeus, os habitantes locais não queriam dividir o alimento. O explorador sabia que três dias depois ocorreria um eclipse lunar total. Colombo mentiu aos nativos que um deus, furioso, invocaria um sinal celestial. Assim, conseguiu o domínio.
Segundo a publicação, a experiência de Colombo foi usada por outros exploradores.
Paraguai e Argentina viam um jaguar. Na Bolívia, um grande cachorro.
Wagner Magalhães/G1
América Latina
Os povos antigos não sabiam explicar o “desaparecimento repentino” da luz. Era comum que acreditassem que animais, como elementos da natureza, devorassem o Sol. Na Argentina e no Paraguai, acreditavam que era um jaguar. Na Bolívia, um grande cachorro.
Partes da China acreditavam em mitos diferentes
Wagner Magalhães/G1
China
A China tem um dos registros mais antigos do fenômeno: em 29 de janeiro de 1.136 a.C., quando o “sumiço” da Lua foi considerado uma premonição. O rei Wen interpretou como o momento certo para desafiar o soberano Shang.
Dependendo da parte do país, o fenômeno tinha outros significados. Alguns achavam que um dragão comia o Sol, assim como o povo na Indonésia. A mesma crença ocorria na Grécia.
Há uma tradição antiga de bater tambores e potes, uma forma de espantar esse dragão chinês. Uma curiosidade: a palavra em mandarim para eclipse é shi, que significa comer, literalmente.
Em outra parte da China, acreditavam que a natureza entrava em desequilíbrio. O Yng (força feminina) seria a Lua, e o Yang (força masculina), o Sol. Essas duas forças geralmente andavam juntas, mas quando ocorria a passagem da Lua em frente ao Sol, o Yng predominava.
Deus Rá, o Sol, era comido pela serpente e, em combate, vencia o animal
Wagner Magalhães/G1
Egito
A Apep (ou Apófis) era um monstro em forma de serpente. Ela combatia o deus Rá, representado pelo Sol. O fim do eclipse era a demonstração da vitória de Rá. Além disso, Apep era uma constante ameaça à estabilidade do universo.
Esquimós tinham história de dominação confirmada por eclipse
Wagner Magalhães/G1
Esquimós
De acordo com o astrônomo e pesquisador Helio Jaques Costa Pinto, os esquimós acreditavam em uma teoria que envolvia dominação masculina.
“Era uma lenda sobre a jovem esquimó que tinha um irmão que buscava fazer sexo com ela. Ele chegou inclusive a conseguir, e isso a deixou tão brava, com tanto pavor, que ela fugiu para o céu e virou o Sol. O rapaz, chamado Alinnaq, virou a Lua, e ficava ‘caçando’ a irmã. Quando acontecia um eclipse, eles acreditavam que ele tinha conseguido pegar a menina”.
Acreditavam que era uma grande batalha que acabaca revelando o deus Vishnu
Wagner Magalhães/G1
Hindus
O livro “Eclipses totais: Ciência, Observações, Mitos e Lendas” também relata uma crença hindu relacionada ao texto épico “Mahabharata”:
Kala Rau, um demônio, tem inveja dos deuses imortais e oniscientes do Nirvana. Então, começa a traçar um plano para viver eternamente. Ele se disfarça de mulher e vai ao banquete dos deuses em busca do elixir mágico.
Ele rouba um gole da bebida, mas Vishnu, um dos deuses, vê o crime e corta a cabeça de Kala Rau. O corpo morre, mas a cabeça está com o líquido da imortalidade. Aí está a ligação com o eclipse: a lenda dos Hindus acredita que o que resto do demônio persegue a Lua e o Sol e, quando consegue, acontece o fenômeno. Sol e Lua reaparecem quando Rau abre a boca.
Textos bíblicos relatam eclipses
Wagner Magalhães/G1
Trecho bíblico
O “eclipse da crucificação” é descrito na Bíblia. A passagem diz que o Sol escurece durante o momento da morte de Jesus:
“E era já quase a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até à hora nona, escurecendo-se o sol; e rasgou-se ao meio o véu do templo”, diz uma das traduções do Evangelho de Lucas.
Outro trecho, do Livro de Josué, relata um “anel de fogo” que teria ocorrido no meio da tarde do dia 30 de outubro de 1.207 a.C.:
“Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus na mão dos filhos de Israel, e disse na presença de Israel:
Sol, detém-se sobre Gibeão, e tu, Lua, sobre o Vale de Aijalom. E o Sol se deteve, e a Lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos.
Não está isto escrito no livro de Jasar? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro.”
De acordo com reportagem da BBC, o primeiro linguista a relacionar o fenômeno a essa última parte da Bíblia foi Robert Wilson, com uma tradução escrita há 100 anos. Recentemente, o físico Colin Humphreys e o astrofísico Graeme Waddington voltaram a analisar o mesmo trecho do Livro de Josué.
Helio Jaques Costa Pinto, pesquisador, diz que muitos julgam que esses trechos não se referem a eclipses. Ele conta que são pelo menos nove passagens detectadas no livro cristão.
Existe uma expressão própria em tupi para os eclipses
Wagner Magalhães/G1
Expressão em Tupi
O livro “Vocabulário da Língua Brasílica” foi publicado em 1932, mas a cópia original manuscrita é de 1621. O livro não traz registros de como era o imaginário indígena em relação aos eclipses. Mas traz a seguinte tradução:
“Eclypsar-se o sol” – Anhemopigtum.
Eclypsar-se a lua – Jacibaeyau”.
O dicionário “Tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil” também traz uma expressão específica:
nhemoputun (ou nhemopytun) (etim – fazer-se escuro) – eclipsar-se; escurecer-se.