‘Parasita’: desigualdade na Coreia, mesmo menor que no Brasil, virou tema da cultura pop do país


Filme com seis indicações ao Oscar reflete mal-estar de sul-coreanos, que aparece até em hits de k-pop. Imprensa mundial usa Brasil de referência para dizer que desigualdade podia ser pior. Trailer de ‘Parasita’
O sucesso de “Parasita”, com seis indicações ao Oscar, gerou interesse sobre o retrato da Coreia do Sul: será que a desigualdade lá é tão grave quanto o filme indica no embate tragicômico entre pobres e milionários? Em busca da resposta, a imprensa mundial usa o Brasil como referência – negativa, no caso.
Uma coluna da agência Bloomberg, reproduzida em vários veículos estrangeiros, disse que o filme exagera e faz parecer que “a Coreia do Sul é uma versão asiática do Brasil”;
Um artigo no jornal “Washington Post” explicou que o país de “Parasita” é desigual, mas não é assim “uma África do Sul ou um Brasil”;
O “Khaleej Times”, de Dubai, disse que a Coreia do Sul não é a “distopia” que o filme pinta. Para mostrar que podia ser pior, citou o Brasil.
O Relatório de Desenvolvimento Humano de 2019 da Organização das Nações Unidas (ONU) confirma: na Coreia do Sul, a diferença entre ricos e pobres é maior do que a de vários países desenvolvidos. Por outro lado, o índice coreano não chega perto de lugares desiguais como o Brasil.
É um resultado mediano. Mesmo assim, cineastas e até grupos de k-pop, como o BTS, estão usando a disparidade social como assunto de músicas e filmes de sucesso no país e no mundo.
Entre 72 países medidos no relatório da ONU, o Brasil é o 2º mais desigual no quesito de concentração de renda entre o 1% mais rico da população (28,3% da renda, conforme o gráfico acima). A Coreia fica na 34ª posição de desigualdade neste item, com 12,2%.
Já neste segundo gráfico, sobre a renda que fica com o 40% mais pobre da população, entre 161 países medidos, o Brasil é o 6º país mais desigual do mundo. A Coreia do Sul está bem melhor, em 122º.
No índice de Gini, que mede a desigualdade nos países, o Brasil é considerado o 7º país mais desigual do mundo, com um coeficiente de 53,3. A Coreia do Sul é o 126º mais desigual entre os 152 nações, com 31,6, diz o relatório da ONU.
“A julgar por ‘Parasita’, a Coreia do Sul é uma versão asiática do Brasil ou da África do Sul”, diz o jornalista inglês David Fickling na Bloomberg. “Na verdade, a Coreia do Sul fez muito melhor que outras sociedades para evitar a desigualdade”, ele escreve.
‘Bom sinal’
Artigos favoráveis ao retrato de “Parasita” usam os mesmos países para comparar. A coreana-americana Sue Mi Terry, ex-analista da CIA sobre a Coreia do Sul, escreveu no jornal “The Washington Post” que o país “não é uma África do Sul ou um Brasil”.
“Na verdade, ela é mais igualitária que outros países da Ásia – ou, no caso, que os EUA”, provoca Terry. Ela diz que, mesmo assim, a Coreia tem uma estrutura injusta na relação entre ricos e pobres. “Parasita” é um bom sinal de uma sociedade que enfrenta essa questão em vez de ignorar, ela conclui.
Cena de ‘Parasita’
Reprodução
Até em Dubai
Até na imprensa de Dubai, lugar que está longe de ser um símbolo de igualdade social, sobrou para o Brasil. O “Khallej Times”, jornal em inglês mais tradicional dos Emirados Árabes, acha que a Coreia, “onde os ricos ganham 5,3 vezes mais que os pobres”, é diferente da “distopia” que o espectador imagina.
“Para dar uma noção, acredita-se que quase duas milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil. Nos EUA, os 10% mais ricos têm 70% da riqueza”, diz o jornal.
‘Colher suja’ na cultura pop coreana
“Parasita” não é o único filme sul-coreano recente a apostar no contraste de milionários e miseráveis. O próprio diretor Bong Joon-Ho abordou o tema em “O expresso do amanhã” (2013).
O thriller “Em chamas” (2018), de Chang-dong Lee, e a comédia “Extreme job” (2019), de Byeong-heon Lee, são outros sucessos recente.
O cinema reflete a questão em voga no país, ainda mais após os escândalos de tráfico de influência e abuso de poder da ex-presidente Park Geun-hye. O caso envolveu favorecimento a grandes empresas e figuras da elite coreana. Isso reforçou a imagem de uma classe privilegiada inalcançável.
Park Geun-hye, que era do partido conservador Saenuri, sofreu impeachment em 2016. Moon Jae-in, de centro-esquerda, foi eleito com a promessa de diminuir a desigualdade. Mas a distância entre ricos e pobres ainda não caiu, assim como o desemprego – mesmo que em níveis menores que no Brasil.
Comédia ‘Extreme job’, sucesso popular na Coreia, mostra policiais que começam a trabalhar disfarçados em um restaurante à beira da falência, em busca de traficantes de drogas. Eles criam uma receita de frango que começa a dar mais dinheiro do que o salário deles na polícia
Divulgação
Os coreanos usam a expressão “colher de ouro” para falar sobre a elite que nasceu e vai morrer rica – como a família que vive na mansão de “Parasita”. Já a a massa de “colheres sujas” é de pobres destinados a continuar assim – a não ser que se disfarcem de pessoas refinadas, como no filme.
Mesmo com o incrível crescimento econômico das últimas décadas, que melhorou o nível de vida em geral, a Coreia é uma sociedade tradicional com pouca mobilidade entre classes – como mostram as cenas em que a família rica identifica os funcionários e sua posição social pelo cheiro das pessoas.
“Nós viramos um país rico muito rápido. E as pessoas que não conseguiram embarcar neste trem veloz rumo à riqueza se sentem perdidas. Elas ficam com uma sensação de inferioridade”, explicou Bong Joon-Ho em entrevista à rede de TV norte-americana NPR.
“A economia não diz respeito só a números”, completa o diretor. “Ela carrega muita emoção também”.
Nem o BTS está feliz
A tal colher como símbolo social está até em músicas do BTS. O mundo da boy-band é menos colorido do que parece. “Nós podemos só viver pois somos jovens / Você está perguntando que tipo de colher eu sou / Por que você está falando de colheres de prata quando eu sou um humano?”, eles cantam em “Fire”
Na música “Beapsae (Silver spoon)” (ou “colher prateada”), eles cantam: “Pare de falar em ‘esforço’ e mais ‘esforço’ / Isso me dá nos nervos (…) / Você não tem uma chance de verdade”.
A boy-band dá voz a uma juventude com cada vez menos perspectiva de mobilidade social. Em “Go go”, eles ironizam o fato de os jovens terem cada acesso a produtos de luxo mas sem chance de estabilidade financeira. A revista “Billboard” ficou impressionada e perguntou ao líder RM sobre essas críticas sociais.
“Nossa geração jovem está vivendo com baixas expectativas, então eles ficam chateados com a realidade. Eles têm pouca esperança, e existem tantas dificuldades econômicas. Queríamos dizer algo para enfatizar ao mundo que não é culpa deles, mas de uma realidade brutal que força as pessoas a viver e gastar como se não houvesse futuro”, disse o cantor do BTS.
Não por acaso, o diretor Bong Joon-Ho é fã de BTS, e elogia a banda sempre que pode nos EUA, como no Globo de Ouro e no programa de Jimmy Fallon.
Um marco anterior do k-pop, o megahit “Gangnam style” (2012), do cantor Psy, ironiza as pessoas ricas de Gangnam, bairro de classe alta em Seul. A descrição propositalmente ridícula do romance entre os personagens na música é semelhante às cenas do casal bobo que é dono da mansão de “Parasita”.
cantor sul-coreano Psy se apresentou nesta sexta (14) no programa da NBC ‘Today’, em Nova York.
Brendan McDermid/Reuters
Sentimento global
Ao tentar refletir a sociedade de seu país, “Parasita” também virou um fenômeno global. “Eu tentei expressar um sentimento específico da cultura da Coreia, e achei que seria visto de fora como algo bastante coreano”, disse o diretor em entrevista ao site Birth.Movies.Death.
“Mas depois de finalizar e mostrar o filme, todas as respostas de públicos diferentes foram mais ou menos as mesmas, o que me fez perceber que o assunto é universal. Essencialmente, todos nós vivemos no mesmo país chamado capitalismo”, disse Boog Joon-Ho.
Entre as seis indicações, “Parasita” é cotado até para levar o Oscar de melhor filme. A Coreia do Sul nunca tinha sido indicada ao prêmio, nem na categoria internacional. Ao menos essa injustiça foi superada.
Elenco do filme “Parasita” celebra prêmio no SAG Awards
Jean-Baptiste Lacroix / AFP