Orquestras na quarentena seguem vivas com gravações em casa e renegociação de contratos


Osesp voltou a ensaiar na Sala São Paulo seguindo protocolo sanitário e equipe reduzida. Maestros explicam impactos e adaptações da música erudita na pandemia. Osesp retoma ensaios na Sala São Paulo com protocolos sanitários e times reduzidos; na foto orquestra sob regência de Emmanuele Baldini em 4 de agosto
Divulgação/Mariana Garcia
Como uma orquestra ensaia durante a pandemia? Como um grupo com muitos instrumentistas se mantém ativo quando aglomerações não são permitidas?
Ensaios remotos em grupo não são uma opção para orquestras, porque uma ligação de vídeo tem atrasos na conexão, o que torna inviável a sincronia necessária.
A pandemia do novo coronavírus impôs mudanças na rotina de quem toca e de quem lidera uma orquestra. Algumas adaptações são:
Músicos passaram a gravar vídeos em casa e uma equipe faz a edição final;
Aulas on-line entre duas pessoas foram mantidas no caso dos projetos sociais;
Apresentações marcadas foram renegociadas para lives ou vídeos feitos em casa;
Calendário das orquestras foi adaptado para eventos virtuais ou transmissões;
Ensaios presenciais voltam aos poucos a acontecer com protocolos e dependem da fase de reabertura de cada cidade. É o caso da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).
Uma adaptação bem popular nesta quarentena foi a gravação de vídeos caseiros que são postados nas redes sociais das orquestras.
Com a partitura e o metrônomo, que marca o andamento da música, cada instrumentista grava sua parte e, depois, uma equipe de edição une todos os vídeos em um só.
Esse foi um dos formatos que a Orquestra Sinfônica Brasileira, a Orquestra da UFRJ, a Orquestra Ouro Preto e a Orquestra da Bahia encontraram para manter as redes sociais ativas e manter o contato com quem gosta e consome música clássica.
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O público é provocado a votar em qual obra vai ser tocada pelos músicos, como no caso da Orquestra Sinfônica Brasileira, e em outros grupos, os programas de artistas que seriam homenageados em concertos ao vivo são adaptados para os vídeos.
Osesp de volta
Naipes ensaiam com distâncias de 1,5 metro a 2 metros na retomada da Osesp
Divulgação/Mariana Garcia
A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo voltou a ensaiar na Sala São Paulo no começo de agosto depois de mais de quatro meses.
Eles fizeram 55 vídeos na série “Osesp em Casa” e tiveram mais de 800 mil visualizações, mas para Emmanuele Baldini, spalla – denominação para o primeiro violino de uma orquestra – e regente da Osesp na transmissão no começo deste mês, voltar foi um “alívio”.
“Voltar a fazer música, não mais fechado entre as quatro paredes de casa, mas olhando para teus colegas, amigos, na verdade, é a única existência possível de uma orquestra”, explica ela ao G1.
“Desde os 12 anos minha vida profissional sempre foi regrada por concertos, ensaios, objetivos a curto, médio, longo prazo. Então de repente não ter mais absolutamente nada em perspectiva, foi bem chocante no início. Foi duro estar longe da nossa casa”, explica, em referência à Sala São Paulo.
A retomada é cheia de cuidados e segue o Protocolo de Segurança Sanitária feito por uma consultoria especializada a pedido da Fundação Osesp. Algumas medidas descritas por Baldini são:
Todos os funcionários e músicos foram testados antes de voltar aos ensaios;
Naipes, famílias de instrumentos iguais, estão reduzidos;
Músicos ficam separados de 1,5 a 2 metros um dos outros e não dividem mais estantes de partituras;
Janelas ficam abertas para garantir ventilação do ambiente;
É obrigatório o uso de máscaras e há álcool em gel espalhados pelo prédio.
A Osesp tem mais de 100 músicos, mas nessa volta faz ensaios e lives com times de no máximo 50 pessoas por conta do tamanho do palco.
Outra adaptação é no repertório com programas que sejam compatíveis ao número de músicos, já que não é possível executar certas peças que exigem a orquestra completa.
O violonista e regente também fala sobre a sensação de voltar à Sala São Paulo: “Eu sinceramente me sinto seguro”.
A orquestra deve seguir ensaiando e realizando transmissões regularmente. “Agora que voltamos, a menos que não aconteça um desastre, não vamos parar mais espero eu”, diz Baldini.
Osesp fez uma transmissão ao vivo no sábado (8) sob regência do spalla Emmanuele Baldini
Reprodução/Instagram/Osesp; Rodrigo Rosenthal
Comemoração em Minas
A Orquestra Ouro Preto comemora 20 anos neste ano e, com o calendário de concertos suspensos, vai fazer uma live no próximo dia 21.
“O vídeo feito em casa é muito legal, dá um resultado super bacana, mas nada substitui a questão do teatro, da música ao vivo. Ver um instrumentista tocar, ver um instrumento soando”, diz o maestro Rodrigo Toffolo.
Para a live, o grupo vai ser reunir pela primeira vez desde março para ensaiar por quatro vezes em dois dias. Os músicos serão testados e devem seguir todo o protocolo para a transmissão no Sesc Palladium em Belo Horizonte.
Maestro Rodrigo Toffolo rege Orquestra Ouro Preto antes da pandemia do novo coronavírus; orquestra fez projeto com Alceu Valença chamado ‘Valencianas’
Íris Zanetti/Divulgação
Diferentemente da Osesp, o grupo mineiro é uma Orquestra de Câmara e naturalmente tem uma configuração reduzida. Toffolo costuma reger 30 músicos, mas estima que na live estará com 23.
Ele diz que está curioso para ver como vai ser a orquestra vai soar com as regras de distanciamento entre os músicos.
“Quando você toca em um naipe de orquestra, você escuta o seu companheiro do lado, seu companheiro atrás. Você se encaixa naquilo ali para soar como um grupo”, diz Toffolo.
“Agora os músicos estão distantes e existe uma mudança de percepção sonora do espaço. Você agora não escuta quem está do lado.”
Ele acredita que a comunicação vai ter que se reforçada pelo olhar e que os músicos precisarão de mais concentração.
“O cara que está ali tocando, ele vai ter que se concentrar em ouvir mais ainda. Outra coisa que eles estão fazendo é estudar de máscara para acostumar, ver respiração”, explica.
Contratos renegociados
Os maestros e diretores de orquestras ouvidos pelo G1 dizem que o financiamento dos grupos não foi impactado pela pandemia neste ano de 2020. Alguns são financiadas por órgãos públicos e outros por empresas privadas como a Orquestra Sinfônica Brasileira.
Osesp faz apresentações virtuais em tempos de isolamento social
“Como a gente conseguiu desenvolver os produtos na forma virtual, a gente renegociou as contrapartidas”, afirma Ana Flavia Cabral, diretora da OSB.
“O que seria presencial vai ser virtual e tem esse alcance em escala do ponto de vista de democratização do acesso à cultura pela internet”, explica.
No entanto, o orçamento do ano de 2021 ainda é incerto: “A gente não sabe como essas empresas performaram ao longo do ano, então a gente ainda não tem segurança e nenhum cenário sobre o ano que vem”.
A Orquestra Sinfônica Brasileira não tem previsão de quando os ensaios presenciais vão voltar a acontecer.
Os contratos também foram renegociados na Orquestra Ouro Preto, que tinha concertos marcados em Recife, Porto Alegre e na própria cidade e fez vídeos no lugar das apresentações. “Isso foi muito importante para manter o pagamento dos músicos”, diz o maestro Toffolo.
Crise inesperada
André Cardoso, professor e diretor da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pandemia pegou de surpresa quem vive de música erudita.
“Isso é muito difícil para quem vive como músico autônomo, freelancer que vive das temporadas, dos contratos que fazem com as orquestras”, explica.
Algumas orquestras até podem estar voltando aos poucos aos ensaios, mas ele destaca a situação difícil que os cantores líricos estão passando longe dos palcos e sem previsão de retorno.
“Eles formam uma categoria que está sofrendo muito, porque não há uma ópera sendo produzida no país inteiro. Todas as temporadas foram suspensas”, destaca Cardoso.
Músicos da orquestra Neojibá cantam a mesma música em Salvador e interior da BA
A orquestra da Escola de Música da UFRJ costuma fazer uma média de 15 concertos e 8 óperas por ano.
Uma orquestra não consegue ensaiar virtualmente em grupo, mas quando se trata de uma aula individual é possível manter a atividade on-line para que o aprendizado não seja interrompido.
Os ensaios ainda não retornaram presencialmente, mas Cardoso diz que o grupo deve fazer uma transmissão no dia 7 de setembro, dia em que a universidade completa 100 anos.
Aulas on-line e apadrinhamento
Aluno e professor não tocam juntos, mas através da conexão on-line é possível tirar dúvidas e mostrar como estão tocando determinada peça.
O Neojiba, Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, criou um sistema de apadrinhamento em que um músico acompanha o processo de aprendizado de outro jovem. O grupo tem como lema “Aprende Quem Ensina”.
No programa carioca Orquestras nas Escola, as atividades também foram para o ambiente virtual e a coordenadora Moana Martins diz que os alunos se adaptaram. 17 orquestras e coros participam do programa que beneficia 600 mil alunos da rede pública de ensino.
Eles publicam nas redes sociais de um a dois vídeos da Orquestra Virtual por semana desde o começo da pandemia
O mês de agosto vai ser dedicado ao projeto “Tom nas Escolas”, que vai abordar as músicas e a história do maestro e músico carioca, em parceria com o Instituto Antônio Carlos Jobim.
Orquestra Sinfônica de Teresina realiza ensaio virtual