O som e a (justa) fúria de Chico César


Artista ensina, ao contestar seguidor em rede social, que toda música é fruto da ideologia de quem a cria. ♪ ANÁLISE – Dois grandes artistas paraibanos estão no olho do furacão da internet, para o bem e para o mal. Enquanto Elba Ramalho é alvo de protestos e indignações por declarações irracionais em que a cantora associa a pandemia do covid-19 a uma guerra imaginária entre cristãos e comunistas, o conterrâneo Chico César dá aula de cidadania e lucidez, ensinando– ao contestar seguidor que lhe pediu em rede social para evitar músicas de cunho político-ideológico – que, em essência, todas as músicas são de caráter político-ideológico.
No comentário da rede, o cantor e compositor se referiu à própria produção autoral, que fique claro. Contudo, a resposta do artista foi exemplar porque, a rigor, a criação de um cancioneiro autoral (nos casos dos compositores) e a escolha de um repertório (nos casos dos cantores que, sem dom para compor, dão vozes a músicas alheias) sempre refletem a ideologia de cada artista.
“… Não me peça para silenciar, não me peça para morrer calado. Não é por ‘eles’ (que faço essas canções). É por mim, meu espírito pede isso. E está no comando. Respeite, ou saia. Não veja, não escute. Não tente controlar o vento. Não pense que a fúria da luta contra as opressões pode ser controlada. Eu sou parte dessa fúria. Não sou seu entretenimento, sou o fio da história feito música no pescoço dos fascistas. E dos neutros. Não conte comigo para niná-lo. Não vim botar você para dormir. Aqui estou para acordar os dormentes”, ressaltou Chico César, em resposta lapidar que viralizou na web na terça-feira, 5 de janeiro.
Sim, a música também passa pelo fio da história e tal fio geralmente é conduzido por compositores que se recusam a lavar as mãos ou a baixar o tom em momentos de opressão. Nesse sentido histórico, a música do Brasil de 2021 e dos últimos dois anos ecoa especialmente tomadas de posições feitas no Brasil dos anos 1960 e 1970.
Entretanto, sempre se fez música e política. Em qualquer época ou lugar, cada música é movida pelo espírito ideológico de quem a cria e de quem a propaga.
Isso jamais deve ser motivo para censuras ou reprimendas a cantores e/ou compositores que – sem contribuir para o estado de opressão – optem por repertório essencialmente romântico ou dançante, rejeição que acontecia às vezes de forma gratuita nos anos 1970, quando foi instaurada a patrulha ideológica, expressão cunhada pelo cineasta Cacá Diegues para se referir aos ataques sofridos por artistas considerados “alienados”.
Chico César: ‘todas as minhas músicas são de cunho político-ideológico’
José de Holanda / Divulgação
O exercício da liberdade de expressão musical também passa pelo entendimento de que é preciso respeitar quem, de forma sistemática ou momentânea, dê voz a canções de amor ou faça música para entreter o público nas pistas (opções que também refletem ideologias, cabe frisar).
Sem esse respeito básico, a patrulha pode se voltar injustamente até contra artistas que sempre se posicionaram contra regimes totalitários (e inclusive foram perseguidos por eles), mas que também se deram o direito de experimentar outros sons e outras palavras.
Foi o que aconteceu com Caetano Veloso nos anos 1970, injustamente atacado por disco (Bicho, de 1977) e show (Bicho Baile Show, apresentado pelo cantor em 1978 com a então aclamada Banda Black Rio) feitos sem explícito caráter político.
A história mostrou o quão injustos e irracionais foram esses ataques a Caetano. E a história há de consagrar Chico César como um dos grandes compositores do Brasil que, com obra construída com coerência a partir dos anos 1990, vem tomando posição.
Chico César está ciente de que, assim como o amor em tempos de cólera, fazer música pode e deve ser um ato revolucionário para acordar os dormentes com som e (justa) fúria.