O som de ‘Democracia em Vertigem’: trilha foi planejada durante vários anos, diz pianista


Vitor Araujo, músico que participa de trilhas de Petra Costa desde a adolescência, fala de trabalho coletivo e diz que tentou suavizar conteúdo ‘pesado e contundente’; ouça podcast. Enquanto planejava um filme sobre política, Petra Costa também pensava em música. Feita a várias mãos, a trilha sonora de “Democracia em vertigem”, documentário brasileiro que concorre ao Oscar, foi concebida ao longo de vários anos, conta o pianista Vitor Araújo, um dos colaboradores.
Ouça acima o podcast G1 Ouviu. O episódio desta semana conta como nasce uma trilha e qual é o som que a Academia de Hollywood gosta de ouvir e premiar.
“Democracia em vertigem” mostra o processo de impeachment de Dilma Rousseff e a crise política no Brasil, e foi lançado pela Netflix em junho de 2019.
“Venho conversando com Petra sobre esse filme há muitos anos. Sabia qual era a temática e a abordagem escolhida. Isso facilita bastante. Fui recebendo certas imagens que que Petra considerava que ficariam no corte final e testando algumas coisas”, conta Vitor.
Vitor Araújo, pianista que é um dos compositores da trilha de ‘Democracia em Vertigem’
Divulgação
“Durante o processo entraram outros compositores, porque Petra escolheu usar muita música no filme. Além de mim tem o Rodrigo Leão, o Lucas Santtana, o Jaques Morelenbaum. E músicas que já existiam, de Villa-Lobos, de Baden Powell”, cita o pianista.
Duas revelações: Vitor e Petra
O recifense Vitor Araújo, 30 anos, começou a tocar piano aos 9 e, com 16 já era chamado de músico prodígio pelo Brasil. O adolescente tocava um repertório que ia de Heitor Villa-Lobos a Radiohead, registrados no disco de estreia “Toc – Ao vivo no Teatro de Santa Isabel”, de 2008.
Uma das composições próprias do disco era “Valsa pra lua”, que chamou a atenção de outra jovem revelação da época: a cineasta mineira Petra Costa. Aos 25 anos, ela incluiu a faixa no seu 1º curta-metragem, “Olhos de ressaca”, de 2009. Voltou a usar a canção no longa “Elena”, de 2012.
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“Elena” foi premiado, rodou o mundo e fortaleceu a parceria entre Vitor e Petra. Mas, se o início o encontro foi meio casual, o trabalho em “Democracia em vertigem” foi bastante planejado. Vitor teve muito tempo para ver as imagens do futuro filme e pensar no melhor acompanhamento.
“Eu não gosto muito de trilha sonora que tenta didatizar o que já está sendo explicitado em termos de imagem. Minha preocupação era sempre não pesar muito na questão sentimental, justamente para não pegar o público pela mão e levar ele para onde você quer”, ele diz.
O objetivo era “suavizar, nas cenas que ela me mandava, o conteúdo imagético que já era em si muito pesado, muito forte, muito contundente”, diz o pianista.
Duas valsas: ‘pra lua’ e ‘vermelha’
O principal momento do Vítor em “Democracia em vertigem” é outra valsa, batizada de “Valsa vermelha”. Até a cena é parecida com a da “Valsa pra lua” de “Elena”. É outro momento de dança, em que a Petra e a mãe dela rodopiam felizes pela rua quando o PT ganha a eleição.
Apesar da coincidência das valsas, Vitor ressalta a diferença entre os filmes: “Cada história é uma história. O “Democracia em Vertigem” é muito distante de quase todos os pontos de vista do ‘Elena’, que é muito mais poético, subjetivo e sentimental”, ele diz.
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“Claro que ‘Democracia em Vertigem’ tem subjetividade também do ponto de vista do olhar político. Mas são filmes distantes. O método de trabalho e a estética musical que se busca para resultados tão diferentes tendem a ser um começar do zero”, ele descreve.
“O trabalho em ‘Democracia em Vertigem’ foi diferente pela quantidade de música, compositores e a necessidade de estar atento aos outros materiais para não destoar tanto dos outros. Ou seja, evitar que a gente fizesse uma colcha de retalhos musical”, explica o músico.
‘Que horas ele toca?’
Além das valsas que embalam os filmes de Petra Costa, Vitor Araújo é dono de uma música que se destacou como tema do filme “Que horas ela volta?”, de 2015, dirigido por Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé.
Será que a presença em filmes ajuda a ampliar o público para a música instrumental e de produções menos comerciais? Vitor tem dúvida sobre isso, mas nota o interesse pelo seu trabalho.
“Muitas pessoas me mandaram mensagem por causa do ‘Elena’. Outras escutaram meu penúltimo disco, ‘A/B’, porque nele tem uma faixa que é ‘Solidão nº4’, tema principal do ‘Que horas ela volta’. Muita gente também disse que começou a escutar meu trabalho através da música desse filme”, ele conta.
‘Democracia em Vertigem’: veja trailer