‘O que tem que ser feito é saneamento básico’, diz pesquisador da Fiocruz sobre crise da água no Rio


Imagens mostram espuma perto da área de captação da Cedae, na saída do Rio Queimados
Reprodução/ TV Globo
Não é a primeira vez que os habitantes do Rio de Janeiro passam pela situação que estão passando agora, com medo de adoecerem ao consumir a água fornecida pela Cedae.
Em 2001, um grupo de 44 pacientes de hemodiálise foi exposto à microcistina – toxinas produzidas por certas algas – na água de diálise no Hospital Universitário da UFRJ. Ou seja: não é um problema novo, tampouco exclusivo do carioca. Até nos Estados Unidos ocorre contaminação da água.
O que diferencia nações mais ricas da nossa é que lá o problema é causado por agrotóxicos, enquanto aqui é por falta de limpeza. Não que isto seja vantagem, mas é importante que se tenha clareza do problema.
Para ajudar a avaliar corretamente a noção de risco, é preciso ter informação de qualidade, passada por quem entende do riscado. Neste sentido, o governo Wilson Witzel presta um desserviço quando diz que existe um “alarmismo”.
Aloysio Ferrão Filho, biólogo e pesquisador da Fiocruz, do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental, aceitou conversar comigo para ajudar a formar uma consciência clara do problema, que não é pequeno.
Aloysio Ferrão Filho, biólogo e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Arquivo Pessoal
Uma das críticas dele é, justamente, com relação às autoridades que minimizam a questão: “Deveriam ter mais responsabilidade e cuidado com o que dizem”, comenta o biólogo. Para ele, o que estamos vivendo no Rio poderia ser resolvido se houvesse uma gestão competente nos órgãos públicos que cuidam do monitoramento da água, nas três esferas do poder.
Segue a entrevista:
Muita gente está dizendo que o problema da água do Rio é eterno, que só de vez em quando vem à tona. É isto mesmo?
Aloysio Ferrão Filho – De fato, este problema não é novo. Em 2001, um grupo de 44 pacientes de hemodiálise foi exposto à microcistina (MC) na água de diálise no Hospital Universitário da UFRJ. Foram encontrados MC no carvão ativado utilizado para preparo da água de diálise por Osmose Reversa e no sangue dos pacientes, que apresentaram alterações bioquímicas compatíveis com dano celular hepático. Nesse mesmo período, o Reservatório do Funil e Guandu apresentaram altas densidades de cianobactérias, além de odor e sabor alterados pela presença de geosmina. Na verdade, os reservatórios no Brasil têm, quase todos, florações de cianobactérias, o que representa um risco para a população.
Mas vamos falar sobre a crise do Rio. O que está faltando aqui?
Aloysio Ferrão Filho – O que está faltando aqui é gestão competente, e que as instituições públicas funcionem do jeito que precisam funcionar. Temos um sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos, principalmente a Agência Nacional das Águas (ANA), o órgão responsável pela implementação da política de recursos hídricos. Há ainda os sistemas estaduais, e os municípios também têm as instituições que cuidam dos corpos hídricos.
O que você está falando é que é uma questão dos três poderes…
Aloysio Ferrão Filho – Exatamente. Aqui no Rio de Janeiro, quem cuidava era a Serla, que foi incorporada pelo Inea junto à Feema e Instituto Fernandes Figueira (IFF). Temos, por exemplo, a Secretaria de Meio Ambiente, com a Subgerência de Conservação de Rios e Lagoas, que tinha sido extinta pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, no início do seu governo (ele voltou atrás no início do ano passado e a recriou). A Vigilância Sanitária Municipal tem feito análises, mas esporádicas e rudimentares, não dá para analisar todos os parâmetros de qualidade da água. E tem também a Cedae, que precisa fiscalizar. Todos esses órgãos deveriam estar articulados em prol da qualidade da água.
O que é preciso para ter uma análise mais completa da água e evitar essa crise?
Aloysio Ferrão Filho – Primeiro precisa ter equipamentos, pessoal qualificado. E precisa mais investimentos nessa área, esses órgãos todos estão muito sucateados. Por exemplo: não se faz o monitoramento constante das toxinas de cianobactérias.
A geosmina virou uma palavra conhecida do público agora. O que ela significa, exatamente?
Aloysio Ferrão Filho – É apenas a ponta do iceberg. Indica que a qualidade da água não está boa, que o número de células de cianobactérias no manancial está muito alto. Outras substâncias ou compostos podem estar presentes na água, como as toxinas microcistina, comprovadamente causadoras de tumores hepáticos, e a saxitoxina, que pode afetar o desenvolvimento do sistema nervoso, além de um aminoácido neurotóxico (BMAA) que tem sido relacionado a doenças degenerativas do sistema nervoso como Alzheimer, ALS e Parkinson. Outros países como Estados Unidos, Alemanha e Austrália têm pesquisado sobre isso, mas aqui no Brasil não se tem dado a devida importância ao efeitos crônicos do BMAA. Isto que está acontecendo agora no Rio de Janeiro é um absurdo, já na captação há uma floração de cianobactérias com muita geosmina.
Os cidadãos comuns ficam sem saber o que fazer, a quem ouvir, sobretudo quando a autoridade máxima do estado, Wilson Witzel, diz que há alarmismo na reação ao problema.
Aloysio Ferrão Filho – Sim, essas autoridades deveriam ter mais responsabilidade e cuidado com o que dizem. A geosmina em si está funcionando como indicador de que tem muita cianobactéria no manancial. E isso é preocupante.
Em comparação com outros países, como estamos?
Aloysio Ferrão Filho – Os Estados Unidos, para citar um país desenvolvido, também têm problemas com cianobactéria na água. Mas lá é mais relacionado às fazendas de agricultura, ao agronegócio que usa uma quantidade enorme de fertilizantes. E tem floração de cianobactéria nessa água. Na Florida também está tendo muito problema. A diferença é que lá a população cobra das autoridades. Na verdade, há problemas na água no mundo todo.
A questão das mudanças climáticas influencia?
Aloysio Ferrão Filho – Sim. As cianobactérias têm uma temperatura ótima de crescimento um pouco mais alta do que as algas. Na verdade, cianobactérias e algas competem entre si, e com a temperatura mais alta, as cianobactérias são mais estimuladas. Além disso tem o processo de eutrofização, que é o crescimento excessivo de algas e plantas aquáticas nos mananciais, estimulado pela entrada excessiva de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, trazido pelos esgotos domésticos e industriais e pela agricultura.
É um desafio para as autoridades. Mas tem que enfrentar, em vez de ficar fazendo proselitismo político nas redes, né?
Aloysio Ferrão Filho – O que tem que ser feito é o bom e velho saneamento básico. Ele recebe o nome de básico, não é à toa. Uma questão que está sendo menosprezada há décadas. Aqui no Brasil a gente sabe que menos de 50% do esgoto são tratados. No Rio, um pouco mais: 60%, e aqui tem várias estações de tratamento, umas estão inoperantes, outras funcionam pela metade, como Alegria no Fundão e a de São Gonçalo. Uma parte do problema já estaria resolvido se houve saneamento básico.
Aqui, ainda por cima, tem a questão também da contaminação da água por agrotóxicos. Afinal, somos o país que mais consome essas substâncias no mundo…
Aloysio Ferrão Filho – Sim, o problema do esgoto no Brasil aparece, prioritariamente, nas grandes cidades. Na Zona Rural é a agricultura que contamina a água. O Rio Paraíba, por exemplo, que passa por muitas fazendas, tem nutrientes de fertilizantes e um depósito de rejeitos da CSN. É um desastre se aquilo vazar, vai ser como Brumadinho.
O que seria o ideal?
Aloysio Ferrão Filho – Para o estado em que estão os nossos mananciais, estamos tratando esgoto para beber. Como já disse, é preciso tratar o esgoto que está sendo jogado muitas vezes in natura, por muitos municípios da Baixada Fluminense. As algas se alimentam dos nutrientes que estão nesta carga de matéria orgânica. Aqui é importante dizer que tem sido feita muita confusão com a definição de cianobactéria: ela não é alga. Na realidade, é o que eu disse lá em cima: a geosmina funciona como um indicador de que algo não está bem. Toda estação de tratamento tem que fazer este monitoramento de cianobactérias, está na legislação (Portaria 2914/2011 do Ministério da Saúde). A Cedae está fazendo.
Mas, mesmo monitorando, não quer dizer que não haja a proliferação, já que o esgoto não é tratado, não é isto?
Aloysio Ferrão Filho – Sim. Temos que ficar alertas. Em 88, por exemplo, na Bahia, em Paulo Afonso, duas mil pessoas tiveram gastroenterite por causa da água, foi uma epidemia: morreram 88. Na época não se tinha grandes estudos no Brasil sobre cianobactérias, mas foram feitos estudos epidemiológicos posteriores e foi aceito como evidência que a causa estava relacionada às cianobactérias presentes no reservatório de Itaparica, que servia como manancial de água que aquelas pessoas beberam. Depois disso teve a tragédia de Caruaru, quando mais de cem pacientes que estavam fazendo sessões de hemodiálise apresentaram sintomas de disfunção hepática sendo que 76 vieram a falecer. Foi o primeiro caso cientificamente comprovado de intoxicação por cianotoxina, com morte. Foi uma exposição direta no sangue. Os centros de hemodiálise, no momento, têm que ficar atentos.
Qual seria o tratamento ideal neste momento de crise?
Aloysio Ferrão Filho – O ideal seria fazer sempre a filtragem por carvão ativado, que consegue reter a maior parte das toxinas.
Então, já que a Cedae está aplicando o carvão ativado agora, isso quer dizer que a gente pode ficar tranquilo?
Aloysio Ferrão Filho – Não, este carvão ativado está sendo aplicado só lá no manancial, não na fase pré-cloração que é depois dos tanques de decantação, junto aos filtros de areia. É um carvão pulverizado que eles simplesmente jogam na água, pode neutralizar um pouco o cheiro, o gosto da geosmina.
Mas eles então nunca jogaram carvão ativado no momento certo?
Aloysio Ferrão Filho – Não. Em São Paulo, a Sabesp tem um tratamento mais avançado. Isto elimina não só as toxinas mas metais, outros compostos tóxicos. Nosso tratamento aqui é mais simplificado, só mesmo remoção de partículas e de matéria orgânica. É pouco.
Qual a sugestão que podemos dar aos cidadãos comuns que hoje estão tendo que fazer esta complexa escolha, entre pagar caríssimo por água mineral e beber água do filtro?
Aloysio Ferrão Filho – Em casa estou usando filtro de carvão ativado. Em alguns lugares a água ficou muito turva, se na minha casa tivesse ficado assim, eu teria que optar pela água mineral. Também há lugares em que a água ficou com gosto de barro, o que é característico da geosmina (geo é terra, o gosto de terra). Mas acreditei no que tem sido dito, embora os parâmetros que os órgãos meçam sejam parâmetros muito superficiais, que não vai influenciar muito na qualidade da água.
Qual o foco do seu trabalho no Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental?
Aloysio Ferrão Filho – Fazemos testes com organismos aquáticos indicadores de contaminação ambiental, microcrustáceos e peixes. É o que chamamos de Ecotoxicologia. Pegamos amostras de água que suspeita que estejam contaminadas e fazemos testes com esses organismos, de sobrevivência, de capacidade de reprodução. E tentamos associar com o tipo de toxina que está no meio ambiente.
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