O incrível poder do nosso cérebro de esticar (ou encolher) o tempo

Na nossa mente, o tempo não é como um rio que corre apenas em uma direção

Na nossa mente, o tempo não é como um rio que corre apenas em uma direção
BBC NEWS BRASIL

Mais um ano chega ao fim… parece que foi ontem que estavámos comemorando a chegada de 2019. Passou voando, não?

Mas nem sempre foi assim: na infância, os meses que antecediam a chegada das férias escolares pareciam durar anos.

A maneira como percebemos a passagem do tempo sempre intrigou o neurocientista David Eagleman — é por isso que ele se dedicou a estudar o surpreendente poder do nosso cérebro, conforme relata abaixo, em primeira pessoa, à BBC Ideas:

“Quando era criança, devia ter uns 8 anos, fui escalar uma casa que estava em construção no bairro.

Cheguei muito perto da beirada do telhado e despenquei — a queda pareceu demorar muito tempo.

Lembro de ver como o piso de tijolos vermelhos ia se aproximando. Uma vez que toquei o chão, fiquei inconsciente… mas também intrigado.

 

Uma queda na infância deixou Eagleman inconsciente, mas também intrigado

Uma queda na infância deixou Eagleman inconsciente, mas também intrigado
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Desde então, me interessei pela maneira como percebemos o tempo.

Quando cresci e virei neurocientista, percebi que todos nós viemos ao mundo com a ideia de que o tempo é como um rio que corre em uma única direção e a uma velocidade constante.

Mas sabemos que isso pode ser diferente na sua cabeça e na minha, porque, de alguma forma, o tempo é uma construção psicológica.

Em outras palavras, o cérebro está trancado no silêncio e na escuridão da sua caixa craniana — e seu trabalho é descobrir o que está acontecendo lá fora. Mas, para isso, precisa usar muitos truques de edição.

A visão e a audição emitem sinais em diferentes velocidades. No entanto, quando você vê e escuta algo como um balão estourando ou alguém batendo palmas, parece que a imagem e o som estão sincronizados.

Isso acontece porque o cérebro precisa compilar todas as informações antes de montar uma história final e transmiti-la à sua percepção consciente.

É como se ele levasse um tempo para verificar se outros sinais estão chegando, e isso significa que todos nós vivemos um pouco no passado.

O que acreditamos que está acontecendo agora ocorreu há pouco, provavelmente cerca de meio segundo atrás.

 

Eagleman estuda nossa percepção do tempo em laboratório, usando truques que enganam o cérebro

Eagleman estuda nossa percepção do tempo em laboratório, usando truques que enganam o cérebro
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Se você for ao meu laboratório, e eu te mostrar uma foto por meio segundo no monitor e, na sequência, a mesma foto por meio segundo, e repetir essa ação sucessivamente…

… quando, de repente, eu te mostrar uma imagem diferente pelo mesmo período de tempo, vai parecer que a nova foto permaneceu por muito mais tempo no monitor.

Isso acontece basicamente porque quando o cérebro vê uma coisa nova, ele precisa usar mais energia para representá-la, uma vez que não era esperada.

Agora, a sensação de que as ações acontecem em câmera lenta é um truque de memória.

Em outras palavras, quando você está em uma situação de emergência, uma parte do cérebro chamada amígdala é ativada.

A amígdala é o seu centro de controle de emergência: armazena recordações em um espaço de memória diferente da vida cotidiana.

Nesses casos, as lembranças são muito densas, porque você está em alerta e toma nota de tudo o que está acontecendo ao seu redor.

E quando o cérebro lê as informações registradas durante o episódio, há tanta informação que sua única conclusão é que o evento deve ter levado muito tempo.

 

Quando acumulamos muita informação em pouco tempo, o cérebro interpreta que o acontecimento foi longo

Quando acumulamos muita informação em pouco tempo, o cérebro interpreta que o acontecimento foi longo
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Curiosamente, isso também explica por que, à medida que envelhecemos, parece que o tempo está passando mais rápido.

Quando você é criança, tudo é novidade. Você está descobrindo o mundo, está acumulando muita memória e, portanto, quando faz uma retrospectiva no fim de ano, tem muitas recordações do que aprendeu.

Mas quando você é mais velho e faz essa retrospectiva, provavelmente passou muito tempo fazendo mais ou menos as mesmas coisas que vinha fazendo nos anos anteriores. É por isso que parece que o ano voou.

Para sentir que você viveu mais, o que você precisa fazer é buscar novidades.

Você pode começar com algo simples, como trocar o relógio de pulso ou escovar os dentes com a outra mão.

Algo tão simples obriga a ativar seu cérebro, uma vez que ele não pode prever exatamente o que vai acontecer, de forma que tem de participar.

Você verá que todas as noites, quando for dormir, vai ter muito mais lembranças — e não vai mais parecer que a vida é um sopro.”