O Carnaval assombrado por um vírus


As crônicas de Nelson Rodrigues sobre a Gripe Espanhola e a folia de 1919. Capa do livro ‘A menina sem estrela’ (Agir), de Nelson Rodrigues
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“Morria-se em massa. E foi de repente. De um dia para o outro, todo mundo começou a morrer. Os primeiros ainda foram chorados, velados e floridos. Mas quando a cidade sentiu que era mesmo a peste, ninguém chorou mais, nem velou, nem floriu. O velório seria um luxo insuportável para os outros defuntos.”
O texto acima não é uma distopia ficcional, mas o relato dos efeitos da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro, às vésperas do Carnaval de 1919, tal como registrados nas memórias de Nelson Rodrigues. Passados 101 anos, estamos novamente nos aproximando da folia momesca apreensivos com um vírus letal que ameaça se espalhar pelo mundo. As semelhanças, espera-se, terminam aí. A fase de pânico em relação ao coronavírus já parece estar se dissipando, graças a Deus. Ainda assim, é assustador imaginar que um dia isso aconteceu nas ruas do Rio:
“…vinha o caminhão de limpeza pública, e ia recolhendo e empilhando os defuntos. Mas nem só os mortos eram assim apanhados no caminho. Muitos ainda viviam. Mas nem família, nem coveiros, ninguém tinha paciência. Ia alguém para o portão gritar para a carroça de lixo: – ‘Aqui tem um! Aqui tem um!’. E, então, a carroça, ou o caminhão parava. O cadáver era atirado em cima dos outros. Ninguém chorando ninguém. E o homem da carroça não tinha melindres, nem pudores. Levava doentes ainda estrebuchando. No cemitério, tudo era possível. Os coveiros acabavam de matar, a pau, a picareta, os agonizantes”.
Nelson dedicou duas crônicas à epidemia de 1918. Publicadas originalmente no jornal “Correio da Manhã”, em fevereiro e maio de 1967, elas foram mais tarde incorporadas ao livro “A menina sem estrela” (Agir, 448 pgs. R$ 84,90) – na minha opinião, a melhor reunião de textos do autor.
Mas o mais impressionante nessas crônicas não é o registro – filtrado pela lembrança e pela imaginação hiperbólica de Nelson Rodrigues – das mortes em penca e dos cadáveres sem sepultura, mas a associação que o autor faz entre a Gripe Espanhola de 1918 e o Carnaval do ano seguinte: segundo Nelson, a principal vítima da epidemia foi o pudor.
Estima-se que a Gripe Espanhola foi a pandemia mais letal da História, tendo matado 5% da população do planeta – cerca de 75.100 milhões de pessoas. No Brasil morreram 35.000 pessoas, 12.700 delas no Rio de Janeiro. Por imposição de medidas sanitárias, no segundo semestre de 2018 foram fechadas escolas, comércio, cinemas, bares – até eventos esportivos foram proibidos, para diminuir as chances de contágio. Foram meses que a vida social praticamente não existiu.
Diante da proximidade, da perspectiva e da banalização da morte, no Carnaval do ano seguinte os cariocas se entregaram à dissipação, à abolição de toda e qualquer vergonha. Houve como que uma exacerbação dos sentidos. Uma euforia irracional contaminou a população, levando a extremos a liberação de usos e costumes, em meio a uma atmosfera pós-apocalíptica. Em 1938, Carmem Miranda gravou uma música de Assis Valente sobre a gripe, “E o mundo não se acabou”, que dizia:
“Pensei que o mundo ia se acabar/ E sem demora fui tratando de aproveitar/ Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal mundo não se acabou… / Ih! Vai ter barulho e vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou”.
Depois daquele Carnaval orgiástico, o Rio de Janeiro nunca mais seria o mesmo. “Uma outra cidade ia nascer”, escreve Nelson Rodrigues:
“Toda a nossa íntima estrutura fora tocada, alterada e, eu diria mesmo, substituída. Éramos outros seres e que nem bem conheciam as próprias potencialidades. (…) A espanhola trouxera no ventre costumes jamais sonhados. E, então, o sujeito passou a fazer coisas, a pensar coisas, a sentir coisas inéditas e, mesmo, demoníacas”.
“O comportamento do homem e da mulher até princípios de 1919 era medieval, feudal ou que outro nome tenha. Psicologicamente, ainda não ocorrera para nós a abertura dos portos. A mulher que ia ao ginecologista sentia-se, ela própria, uma adúltera. E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: — até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamin Costallat. (…)”
“Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da espanhola — e tão humilhados e tão ofendidos — que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias. Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: — “Na minha casa não racha lenha./ Na minha racha, na minha racha./ Na minha casa não falta água. / Na minha abunda. etc. etc. As pessoas se esganiçavam nos quatro dias; e iam assim de paroxismo em paroxismo.”