O arrastão de Paulinho da Viola completa 50 Carnavais com a força inicial


Sucesso que impulsionou a carreira do artista em 1970, o samba ‘Foi um rio que passou em minha’ ainda arrebata os corações dos foliões. ♪ MEMÓRIA – No Carnaval de 1970, o coração de todo folião se deixou levar pelo samba Foi um rio que passou em minha vida. Arrastando multidões há 50 Carnavais, a composição resiste soberana, em 2020, como o maior sucesso do autor do samba, Paulo Cesar Baptista de Faria, o nobre carioca Paulinho da Viola.
Com a elegante timidez, Paulinho já vinha entrando na roda desde meados dos anos 1960, como integrante de grupos e shows coletivos. Mas foi com a gravação de Foi um rio que passou em minha vida que a discografia solo do sambista chorão – iniciada sem alarde em 1966 com compacto que trouxe registros das músicas Canção para Maria (Paulinho da Viola e José Carlos Capinan) e Tempo de decisão – ganhou impulso e consolidou a trajetória do artista.
Somente em 1970 o samba teve 15 gravações, além do registro de Paulinho. Foi um rio que passou em minha vida batizou o segundo álbum solo do cantor, lançado naquele ano de 1970 (o primeiro, Paulinho da Viola, saíra em 1968 sem obter toda a repercussão a que fazia jus, talvez pela pompa dos arranjos orquestrais).
Contudo, a rigor, Foi um rio que passou em minha vida é música de 1969, ano que o samba foi composto, gravado e lançado em disco – em compacto que incluía Sinal fechado, composição vanguardista que Paulinho apresentara em festival daquele ano de 1969.
O arrastão veio no ano seguinte, no embalo do Carnaval de 1970. Ode à Portela, tradicional escola de samba da cidade do Rio de Janeiro (RJ) que conquistara o coração de Paulinho, Foi um rio que passou em minha vida surgiu como espécie de desagravo aos componentes da agremiação azul-e-branca situada na divisa entre os bairros cariocas de Madureira e Oswaldo Cruz.
É que, em 1968, Paulinho abrira parceria com Hermínio Bello de Carvalho com samba que exaltava a Mangueira. Os versos quase existenciais de Sei lá, Mangueira – samba apresentado em festival de 1968 e gravado nesse mesmo pela cantora Elza Soares – eram da lavra poética de Hermínio. Mas Paulinho, já um ilustre Portelense, ficou mal na foto e na quadra da escola.
Capa do LP ‘Foi um rio que passou em minha vida’, lançado por Paulinho da Viola em 1970
Reprodução
A solução foi fazer um samba para Portela. E que samba! Sob o manto mais nobre da inspiração, Paulinho da Viola fez samba de fluência melódica arrebatadora com letra igualmente poética em que a tristeza da desilusão amorosa é encoberta pelo encantamento provocado pela escola que entra na avenida.
A Portela, claro, é o rio que passou pela vida do folião amargurado, levando os desenganos para o fundo da alma embevecida com o azul que podia ser tanto do céu quanto do mar. Alocada como a sexta (e última) faixa do lado A do LP, Foi um rio que passou em minha vida bateu tão forte no coração do brasileiro que outras pérolas do álbum de 1970 demoraram um pouco para vir à tona.
Quando emergiram, os sambas Tudo se transformou – exemplo da interiorização típica de boa parte do cancioneiro do compositor – e Jurar com lágrimas reluziram com o mesmo brilho recorrente na obra esculpida pelo artesão com o perfeccionismo de um ourives.
Ainda assim, é Foi um rio que passou minha vida que, decorridos 50 Carnavais, mais arrebata mentes e corações sempre que o samba ecoa na avenida, em palco ou em disco. O arrastão de Paulinho da Viola continua com a força de 1970.