O alto impacto da ginástica artística interfere no crescimento?

A ginasta Flávia Saraiva (à dir.), 19, que levou bronze, tem 1, 45 m de altura

A ginasta Flávia Saraiva (à dir.), 19, que levou bronze, tem 1, 45 m de altura
EFE/ Orlando Barría – 29.7

Flávia Saraiva, 19, é a ginasta mais baixa da delegação brasileira. Tinha 1,33 m no Pan Toronto 2015 e hoje, no Pan Lima 2019, tem 1,45 m. Outra grande estrela da ginástica artística, Arthur Zanetti, 29, mede apenas 1,56 m.

A baixa estatura dos atletas da modalidade chama a atenção, levantando a dúvida: ginastas são menores por causa do exercício ou os melhores atletas são pequenos porque isso ajuda na performance?

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As duas respostas estão corretas. O centro de gravidade mais próximo da terra contribui para o desempenho dessa atividade e o alto impacto do exercício pode influenciar no fechamento da cartilagem entre os ossos, interferindo no crescimento, segundo a endocrinologista pediatra Louise Cominato, presidente do Departamento de Endocrinologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

“O hormônio do crescimento é estimulado pela atividade física, portanto a prática de qualquer esporte, inclusive da ginástica artística, ajuda a criança a crescer. No entanto, o impacto mais alto pode fechar a cartilagem de crescimento, levando a criança ficar menor antes da hora. Isso é uma possibilidade, não uma regra”, afirma. 

Ela explica que estudos mostram que a ginástica artística não interfere no crescimento. No entanto, existe a possibilidade de que o alto impacto, praticado todos os dias, como fazem os atletas profissionais, atrapalhe o crescimento.

Isso leva ao fechamento precoce das cartilagens do crescimento, localizadas no espaço entre os ossos, impedindo a atuação do hormônio do crescimento. Essas cartilagens estão presentes nos ossos longos, como braços e pernas.

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“Essas placas fazem com que os ossos cresçam. Depois que as cartilagens fecham, e pessoa não cresce mais, que é o que acontece no adulto. Se um adulto toma hormônio de crescimento, ele crescerá nas extremidades, como mãos, pés e orelhas, mas não mais em altura”, diz.

A médica ressalta que o hormônio do crescimento tem uma função metabólica não apenas ligada ao crescimento, mas também ao aumento da massa magra, de osso e músculos, e da redução da gordura do corpo.

“O que existe bem documentado é que o esforço de alto rendimento, não só na ginástica artística, mas nos esportes de maneira geral, leva meninas a demoarem mais a menstruar, pois se alteram os hormônios da puberdade. Atrasando a menstruação, atrasa também o espirão de crescimento”, afirma.

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“O que pode acontecer com essas meninas é que enquanto estão praticando ginástica estão menores porque não fizeram o estirão, mas quando esse esforço é diminuído, o ciclo hormonal se estabelece e ela volta a crescer”, completa.

Louise cita como exemplo o caso da ex-ginasta romena Nádia Comaneci, conhecida por ter recebido a primeira nota 10 da modalide na história. No auge da carreira, aos 14 anos, media 1,45 m. Em dois anos, cresceu 18 cm, chegando a 1,63 m de altura. “Ela tinha a puberdade atrasada”, explica. 

A mulher brasileira menstrua, em média, aos 12 anos e meio de idade. A primeira menstruação após os 14 anos é considerada atrasada. As meninas crescem até os 15 anos e meninos, até 17, segundo a médica. 

Ela destaca que crianças podem praticar ginástica artística como hobby sem problemas. “O risco de levar ao fechamento da cartilagem é zero. Elas podem fazer duas a três vezes por semana sem problema algum. No caso de atletas, são cerca de cinco horas diárias de treino. É bem diferente. É alto rendimento”, afirma.

Um pediatra é capaz de avaliar se uma criança está dentro da curva de crescimento. “Quando está muito abaixo da estatura, é preciso investigar para descartar problemas hormonais, síndromes genéticas e doenças crônicas”, orienta.

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