Novo reitor da Unicamp defende mudanças em gestão da saúde, mira mercado e valorização interna: ‘Riqueza são pessoas’


Engenheiro de alimentos Tom Zé toma posse como 13º reitor da Unicamp nesta segunda. Ele descarta ampliar vagas no vestibular e destaca preocupação com saúde mental de estudantes. Tom Zé foi nomeado reitor pelo governador de SP, João Doria
Imprensa/Governo estadual
“A riqueza são as pessoas”. O engenheiro de alimentos Antonio José de Almeida Meirelles, o Tom Zé, toma posse como novo reitor da Unicamp, na tarde desta segunda-feira (19), com uma retórica que busca contemplar professores, alunos e funcionários ao defender cada proposta da gestão que vai até 2024, e enfrentará desafios em meio à pandemia e limitações econômicas. Entre elas, discute sobre mudanças na gestão de hospitais, valorização do pessoal e zelo com a saúde mental dos estudantes.
Antes da solenidade que marcará a transferência do cargo mais elevado da universidade estadual, ocupado desde 2017 pelo físico Marcelo Knobel, às 16h, Tom Zé conversou com o G1 para descortinar ações prioritárias, definidas a partir das premissas de “reafirmação da ciência e do conhecimento”, e de “reiterar a democracia com um dos elementos constitutivos das relações humanas na modernidade”. Ele venceu a consulta acadêmica e, depois disso, foi nomeado pelo governador, João Doria (PSDB).
Um dos sete filhos de uma professora primária com quem foi alfabetizado, o engenheiro que perdeu o pai aos 9 anos será reitor após construir trajetória em que já foi estudante, professor e coordenador na Unicamp (veja abaixo perfil). A formalidade acadêmica, contudo, é desfeita ao explicar o nome mais conhecido pela comunidade acadêmica, e sem qualquer elo com um dos expoentes do tropicalismo.
“Era conhecido como Meirelles quando fiz colégio. Como tinha duas irmãs na Unicamp, dois, três anos à frente, meu apelido de família veio junto, nunca me desconectei. É engraçado, junta formal e popular, mas não tenho habilidade musical”, ressalta Tom Zé sobre a ligação com a universidade desde 1.976. A formação em diferentes áreas, perfil e experiência são sublinhados como motivações para o cargo.”
“Sensação de poder contribuir para a universidade melhorar. É uma situação particularmente difícil, no contexto de uma pandemia agravada e de dificuldades econômicas no país, mas, por outro lado, há convicção da importância para o sistema de saúde […] Não é só um papel na assistência, que é essencial, mas também futura, porque é mais ou menos consensual entre os pesquisadores a repetição de eventos deste tipo. A Unicamp está acumulando estruturas de aprendizado, monitoramento, o que vai permitir melhor preparação para um desafio próximo”, destaca.
Chapa formada por Tom Zé e Luiza venceu consulta na Unicamp
Reprodução / Instagram
Gestão da saúde
Um dos itens destacados no programa estabelecido por ele, com a médica e nova vice-reitora Maria Luiza Moretti, é a defesa de uma nova forma para gestão da área de saúde na Unicamp, que abrange estruturas do Hospital de Clínicas (HC) e o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism).
No documento, é mencionada “inclusive a opção de autarquização”, para desvincular o setor da Secretaria de Ensino Superior e transferir para a Secretaria Estadual da Saúde, o que implicaria, por exemplo, na transferência direta de recursos do estado, em vez de ser custeio a partir de orçamento da Unicamp; e alteração da autonomia, mesmo associada à formação de novos profissionais da saúde.
O orçamento previsto para o setor no atual exercício é de R$ 506,9 milhões, o equivalente a 19,5% entre os R$ 2,84 bilhões estimados pela universidade estadual, incluindo neste total uso de R$ 208,6 milhões de uma reserva para cobrir déficit de anos anteriores e o total previsto durante este ano.
Tom Zé avalia que o diálogo está aberto e menciona como um exemplo positivo a experiência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, que antes era custeado pela Unesp. Porém, ele enfatiza que este direcionamento é “delicado” e permeado de dificuldades, sobretudo porque as negociações políticas precisam preservar orçamento da Unicamp e direitos trabalhistas.
A busca por novos modelos, diz o programa da nova reitoria, ocorre diante de uma série de dificuldades. Ele indica subfinanciamento do estado em convênios administrados pela Unicamp.
“Existem perspectivas diferentes, está longe de ser monolítico […] É difícil para o reitor, assim como para o governo do estado, aceitar sem recursos. O HC da Unesp era 2,5% do orçamento, a nossa gira em torno de 20%”, pondera o novo reitor ao salientar que novas discussões internas teriam de ser realizadas, uma vez que o assunto surgiu há quase uma década e não foi levado adiante.
O programa da reitoria diz que uma proposta foi enviada para análise do estado, mas a assessoria do governo, embora tenha sido procurada por e-mail, não respondeu se ela foi avaliada e prazo para isso. Em nota, a Secretaria da Saúde alega que está “à disposição para dialogar’, que repassou ao HC R$ 676,4 milhões desde o ano passado para aprimorar assistência aos pacientes, e que, diante da pandemia, todos os serviços fizeram ajustes para priorizar atendimento às urgências e salvar vidas.
Uma das entradas do Hospital de Clínicas da Unicamp
Reprodução/EPTV
Tom Zé adianta que vai buscar diálogo com as prefeituras que integram o Departamento Regional de Saúde (DRS VII), que contempla 42 municípios, com propósito de tentar reduzir a sobrecarga na saúde da Unicamp. De acordo com ele, o atendimento deveria ser voltado principalmente para casos de urgência e emergência, mas absorve demandas menos complexas que poderiam ser remanejadas.
“Precisamos conversar sobre a integração. Queremos ter ações para melhorar gestão, aprimorar, buscar outras formas de financiamento”, destaca o novo reitor.
Segundo ele, o HC já está em processo de implementação da metodologia “lean healthcare”, que foi desenvolvido pela Toyota e visa aprimorar eficiência, e a Unicamp ainda estuda formas para gerir o Instituto de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, que deve ser inaugurado em dois meses. Neste caso, a universidade cedeu um terreno, a construção é viabilizada pela Fundação da Área da Saúde (Fascamp) e conta com verbas direcionadas após fim do caso Shell/Basf.
Valorização interna
Tom Zé é categórico ao colocar entre as prioridades da reitoria a busca por responder, de forma progressiva, às “demandas represadas da comunidade acadêmica” como retorno das políticas de progressão na carreira profissional, contratação de pessoal e reajuste salarial. Neste caso, os investimentos são previstos para o triênio 2022-2024, segundo ele, uma vez que a lei complementar 173/2020, que instituiu uma espécie de “regime fiscal provisório”, impõe restrições neste ano.
Viabilizar a progressão em pelo menos um nível da carreira de todos os docentes no período 2022-2024 (investimentos estimados em R$ 25 milhões);
Destinar igual volume de recursos para a progressão de servidores técnico-administrativos;
Contratar de 150 a 200 docentes e pesquisadores para repor parcialmente as aposentadorias (investimento estimado de R$ 25 milhões);
Destinar igual volume de recursos para a contratação de servidores técnico-administrativos;
Promover uma política de reposição salarial frente à inflação (acréscimo de despesas de R$ 86 milhões anuais);
Reajustar o auxílio-alimentação (acréscimo de despesas anuais de R$ 5 milhões no ano);
Clique para ler as propostas da gestão
As seis metas têm como referência a situação da Unicamp entre 2017 e 2019. O novo reitor diz que começará pelas progressões e mantém cautela sobre valores e prazos, ao lembrar de variáveis que influenciam o financiamento da universidade, que tem maior parcela de receita calculada a partir de percentual do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) arrecadado pelo estado.
“O represamento desestimula, perde-se horizonte da carreira. Vamos lidar por etapas”, avalia ao ponderar sobre a contrapartida frente aos esforços dos profissionais com metas e desempenho. Mais do que esperar um cenário positivo, a nova gestão sinaliza no programa que deve usar parte da reserva estratégica da universidade, estimada em R$ 400 milhões até dezembro, para viabilizar estas ações.
Ainda de acordo com Tom Zé, discussões sobre implementação de cotas em concursos para docentes devem ser contempladas ao longo da gestão – a universidade aprovou para funcionários neste mês. Atualmente, a Unicamp é responsável por 8% da pesquisa acadêmica no país e tem 37 mil alunos matriculados em 65 cursos de graduação e 158 de pós. Já o quadro de funcionários ativos é formado por aproximadamente 2 mil professores e 7,1 mil servidores técnico-administrativos.
Interação com mercado
Ao reforçar que a universidade precisa buscar novas formas de custear atividades e fortalecer as interações com o mercado, o novo reitor diz que já dialogou com o estado sobre incentivo à inovação, políticas que aproximem a universidade de empresas, desenvolvimento de tecnologias, além de valorização da economia solidária por meio contatos com movimentos sociais e cooperativas.
“Precisamos ter uma agenda que vá ao encontro dos problemas, não só . Isso pode ajudar na formação, traz benefícios nas políticas públicas. A Unicamp teve papel importante no início de programas como álcool, soluções de problemas econômicos, e precisamos retomar essa tradição tendo mais contatos com governos e prefeituras para formular projetos para o país.”
Tom Zé, entretanto, afirmou que ainda não fez contatos a nível federal, mas defendeu diálogos.
Praça em frente ao prédio da reitoria da Unicamp
Fernando Pacífico / G1 Campinas
Vestibular, saúde mental e ensino remoto
Tom Zé diz que “não há no horizonte” perspectiva para ampliar o número de vagas disponíveis no vestibular. O total na edição mais recente teve 3,2 mil oportunidades, e a possibilidade é descartada diante do quadro financeiro, assim como ainda não há perspectiva para efetivar o projeto do curso de fisioterapia, que já foi aprovado, e a criação de um curso de medicina em Piracicaba (SP), onde há um hospital sob gestão da Unicamp. “Impossível neste contexto”, ressalta.
O novo reitor, quando questionado sobre políticas voltadas aos alunos, garante que terá um olhar cuidadoso sobre a qualidade da moradia estudantil, incluindo reformas e ampliação. Além disso, ressalta que é preciso contemplar a diversidade da comunidade, sobretudo ao ponderar sobre ingresso de estudantes pelo vestibular indígena, e manifesta preocupação com a necessidade de garantir apoio à saúde mental dos estudantes, sobretudo diante das consequências da pandemia da Covid-19.
“No caso dos ingressantes pelo vestibular indígena, eles chegam de um ambiente muito diferente, não é simples a ambientação, é um universo inóspito e é preciso suporte psicológico. Mas há impacto também sobre as outras pessoas, a universidade é um ambiente competitivo, a pessoa tem muita autonomia, mas é muito exigida e isso gera ansiedade. Temos uma estrutura que precisamos fortalecer. Os alunos ingressantes do ano passado não se conheceram presencialmente ainda, não tiveram essa vivência de descortinar um mundo novo de oportunidades. Vai ter um impacto e vamos precisar ter atenção. O espírito tem que ser de garantir um bom desenvolvimento, exigir para garantir a qualidade, e ao mesmo tempo oferecer suporte para vencer os desafios”, salienta Tom Zé.
Nomeado como 13º reitor da história da Unicamp, o novo reitor avalia que a crise sanitária pode ser ponto de partida para uma análise sobre uma combinação entre aulas presenciais e remotas, quando houver possibilidade da retomada. “Acho que é possível combinar as plataformas e permitir um aprendizado melhor. Como fazer isso é algo que não está claro, vamos ter que experimentar.”
Estudantes no campus da Unicamp, antes da pandemia da Covid-19
Antonio Scarpinetti / Unicamp
Perfil
Tom Zé é graduado em engenharia de alimentos pela Unicamp (1980), fez mestrado na mesma área e universidade (1984), e tem doutorados em engenharia de processos térmicos pela Martin Luther Universität, na Alemanha (1987) e em ciências econômicas pela Unicamp (1987).
Ele tornou-se professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp em (1987), e é docente titular da instituição desde 2007. Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Tom Zé já publicou três livros, 235 artigos em revistas e tem nove solicitações de patentes junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Os prêmios da carreira do engenheiro são: 1º lugar no Prêmio Jovem Cientista de 1989, que teve como tema “Conservar energia: um desafio de todos”, Prêmio de Reconhecimento Acadêmico “Zeferino Vaz” (2001 e 2010), e 1º lugar do Prêmio Jabuti de 2016, na categoria “Engenharias, tecnologias e informática”, como coautor do livro didático “Operações unitárias na indústria de alimentos”.
Mudança em mandato
Embora esteja previsto no Estatuto da Unicamp que o mandato do reitor é de quatro anos, o Consu aprovou em agosto de 2020 uma redução excepcional de aproximadamente quatro meses no período da próxima gestão. Por isso, ela vai de 19 de abril deste ano até 31 de dezembro de 2024.
O objetivo é fazer com que a administração posterior tenha início em janeiro de 2025 e, portanto, seja encerrada em dezembro de 2028. A universidade estadual sustenta que a mudança implicará em ter somente uma gestão a cada ano fiscal, sem transição de reitores em abril, e para que o processo de consulta acadêmica não seja interrompido em anos posteriores por festas do fim de ano e Carnaval.
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