Nova biografia de Roberto Carlos é indicada para quem nunca teve acesso ao recolhido livro de 2006


Resenha de livro
Título: Roberto Carlos – Por isso essa voz tamanha
Autor: Jotabê Medeiros
Editora: Todavia
Cotação: * * *
♪ Pelo fato de o livro Roberto Carlos em detalhes (2006) estar oficialmente fora de circulação desde abril de 2007, por conta de acordo judicial firmado entre Roberto Carlos e a editora Planeta, a recém-lançada biografia do jornalista e escritor paraibano Jotabê Medeiros adquire relevância instantânea no mercado editorial por ser (por ora) o único livro disponível com relato da vida e obra do cantor e compositor capixaba de recém-completados 80 anos – um dos maiores ídolos populares da história do Brasil.
Contudo, o livro somente soará de fato relevante para quem pouco ou nada sabe sobre Roberto Carlos. Lançado em 19 de abril, dia do 80º aniversário do artista, o livro Roberto Carlos – Por isso essa voz tamanha tem narrativa que avança até este ano de 2021, mas sem nada acrescentar de substancial ao que já fora revelado em 2006 pelo escritor baiano Paulo Cesar de Araújo na controvertida e fundamental biografia Roberto Carlos em detalhes.
A narrativa de Medeiros é fluente porque o jornalista tem bom texto e, além de escrever bem, sabe organizar o material colhido – em entrevistas, na leitura de outros livros citados no texto e, sobretudo, em pesquisa em arquivos de jornais e revistas – na forma de enredo biográfico, estruturado em ordem cronológica.
Para quem nunca leu Roberto Carlos em detalhes, o atual livro pode entreter, mas, a rigor, reconta a história do artista com base sobretudo no que já saiu na mídia ao longo dos 62 anos de carreira do cantor.
A relação dos 30 nomes que deram entrevistas e depoimentos ao autor – Caçulinha, Claudette Soares, Eduardo Araújo, Getúlio Côrtes, João Donato, Lafayette (1943 – 2021), Luiz Ayrão, Paulo César Barros. Roberto Menescal, Wanderley Cardoso e Zé Renato, entre outros nomes menos conhecidos – inclui pessoas que aturaram como coadjuvantes ou mesmo figurantes na história da vida de Roberto Carlos.
É óbvio que o protagonista – refratário às biografias e com planos de escrever ele mesmo a própria história em livro previsto para 2022 – jamais contribuiria com o livro de Medeiros.
Como os coprotagonistas (os familiares, os músicos da banda do cantor e os amigos de fé como Erasmo Carlos) tampouco falaram com o autor, em lealdade a Roberto, o escritor teve que recorrer sobretudo a reportagens e artigos de jornais e revistas para reescrever a história do cantor que começou imitando João Gilberto (1931 – 2009) em 1959 até reinar como líder da juventude “alienada” que ouvia rock e o ronco do calhambeque na era da Jovem Guarda, movimento pop brasileiro que alicerçou a carreira de Roberto de agosto de 1965 a janeiro de 1968.
De inimitável rei da juventude dos anos 1960, Roberto se transformou em grande cantor romântico a partir da década de 1970 com discografia que perdeu vigor a partir dos anos 1980 sem que o artista perdesse a majestade. Medeiros procura explicar o fenômeno de popularidade.
Bem assessorado juridicamente pela editora Todavia (a ponto de ter tido o cuidado de não apresentar o rosto de Roberto nas imagens expostas na capa do livro), Jotabê Medeiros corre pouco risco de ser importunado pelo biografado na Justiça. O autor parece ter sabido até onde podia ir.
A intimidade real jamais é desvendada. Até por isso a biografia Roberto Carlos – Por isso essa voz tamanha se apequena diante do livro de Paulo Cesar de Araújo – escritor que, aliás, lança em junho o primeiro dos dois volumes da nova biografia em que reconta a vida de Roberto Carlos através das letras das músicas do compositor.
Jotabê Medeiros apresenta uma biografia possível de Roberto que, sim, poderá seduzir leitores pouco ou nada informados sobre a trajetória do artista, mas interessados em tentar entender o fenômeno.
Os súditos mais fiéis do Rei, potenciais compradores do livro, aqueles que sabem de Roberto tudo o que ele permite saber, possivelmente nada encontrarão de realmente especial nas 512 páginas da biografia de Medeiros – isso se comprarem o livro, hipótese talvez desconsiderada pelos admiradores cientes da aversão do biografado às narrativas alheias sobre a vida pessoal dele.
O livro poderia ter resultado mais conciso se o autor não tivesse eventualmente dedicado páginas para apresentar personagens, afinal, não tão importantes assim na vida de Roberto, caso do saxofonista norte-americano Booker Pittman (1909 – 1969), que tem a vida resumida nas páginas 89 e 90 pelo fato de ter convivido com Roberto na boate carioca Plaza, onde o cantor estreou profissionalmente em 1959.
A favor do livro de Medeiros, há a checagem de dados e o levantamento de hipóteses sobre o que realmente aconteceu em 29 de junho de 1947, data em que, aos seis anos, Roberto perdeu parte da perna direita em acidente com trem durante festa que agitava a cidade natal de Cachoeiro de Itapemirim (ES).
Contra, há eventuais dados imprecisos, como creditar ao ano de 1995 a gravação da canção A volta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1966) pelo cantor para a trilha sonora da novela América (TV Globo, 2005). A gravação foi feita em 2004 para a trama estreada em março do ano seguinte, tendo sido apresentada três meses antes como faixa-bônus do álbum Pra sempre ao vivo no Pacaembu (2004).
Enfim, no saldo final, o livro Roberto Carlos – Por isso essa voz tamanha se salva como boa introdução ao reino do cantor. Quando a narrativa biográfica vai perdendo fôlego na segunda metade do livro, Jotabê Medeiros contrabalança a queda com análises geralmente pertinentes de álbuns e atitudes de Roberto Carlos.
Vale a leitura para quem nunca teve acesso à histórica biografia de 2006 escrita pelo destemido Paulo Cesar de Araújo.